Teste rápido: Caoa Chery Tiggo 5X é um sucesso, mas bebe 7 km/l; vale a pena?
Sucesso absoluto em vendas, o SUV da marca sino-brasileira entrega conforto e bom custo-benefício, mas mantém a sede de um 'ébrio' ao volante
Sou parente distante de Vicente Celestino. Acho que você não o conhece. Ele foi um cantor e ator muito, muito famoso na primeira metade do século passado. Seu grande hit, "O Ébrio", rendeu, inclusive, filme homônimo lançado em 1946 — um dos maiores sucessos de bilheteria da história do cinema brasileiro.
Mas "che cazzo" tem Vicente Celestino a ver com o Caoa Chery Tiggo 5X? Bom... O repórter admite que esticou a corda na conexão, mas explica: o SUV compacto da marca sino-brasileira é um hit do século XXI, principalmente no varejo. Vendeu mais de 12 mil unidades em cinco dias, rendendo à fabricante R$ 1,5 bilhão.
Só que tem um porém. Embora seja uma estrela (com direito, assim como o Tiggo 7, a defensores no submundo da internet), o SUV tem um problema. Seu nome "pouco a pouco, foi crescendo, até chegar aos píncaros da glória", mas o veículo é um ébrio daqueles.
De acordo com o Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV), o Caoa Chery Tiggo 5X faz 10 km/l na cidade com gasolina e míseros 6,5 km/l com etanol. Na estrada a coisa, evidentemente, é um pouco melhor: 12,1 km/l (g) e 10 km/l (e).
O modelo recebeu aquele belo banho de loja, com distinções no visual e novos equipamentos. Você pode conferir as nuances no texto deste link. Aqui, vou me ater ao rodar do Caoa Chery Tiggo 5X.
Aliás, o SUV ainda é capaz de protagonizar "O Ébrio" por motivo fundamental. O conjunto mecânico não mudou, e segue composto pelo motor 1.5 turbo flex de até 150 cv de potência e 22,8 kgfm de torque aliado ao câmbio automático do tipo CVT com nove marchas simuladas.
Vale abrir aqui um parênteses. O conjunto híbrido leve que existia na encarnação anterior abrirá espaço para um híbrido pleno. Esta configuração será lançada no terceiro trimestre.
Ao volante do Caoa Chery Tiggo 5X
E ao volante? Bom, aqui não tem reviravolta de roteiro. Rodamos cerca de 50 km com o Tiggo 5X reestilizado e constatamos que é, essencialmente, o mesmo Tiggo 5X de antes. A maquiagem mudou. A mecânica, conforme mencionamos anteriormente, não.
Por dentro, segue a cartilha contemporânea dos chineses, com quadro de instrumentos digital de 10,25 polegadas e central multimídia também de 10,25'', formando aquele efeito "telona contínua" que o consumidor adora fotografar para o Instagram.
O painel é bem resolvido, com boa definição e leitura clara das informações principais. A multimídia responde com agilidade aceitável, tem boa resolução e navegação intuitiva, sem exigir doutorado para espelhar o celular. Não é revolucionária, mas é moderna o suficiente para não ficar devendo aos rivais diretos.
Agora, nem tudo são pixels reluzentes. Quando acionei o sistema de paletas do para-brisa, veio o anticlímax. A sensação era de borracha ressecada, como se o carro tivesse passado meses sob o sol do Saara. O ruído — um rangido seco, quase um arrasto — dava a impressão de que havia algo travando entre o vidro e a lâmina.
Não compromete a segurança, mas compromete o conforto. E em uma viagem mais longa, especialmente sob chuva constante, vira aquele detalhe pequeno que martela na cabeça e incomoda mais do que deveria em um SUV que se propõe tão moderno e competitivo.
Mas vamos falar de dinâmica. Aqui não temos quaisquer mudanças e isso é bom e ruim ao mesmo tempo. Quase uma variante de gato de Schrödinger.
Bom porque o conjunto é muito honesto. O 1.5 turbo responde cedo, empurra o SUV com dignidade no trânsito urbano e não passa vergonha em retomadas de 60 a 100 km/h. Não é explosivo (esqueça qualquer ímpeto juvenil), mas entrega o que promete. O torque em baixa ajuda a tirar o SUV do semáforo sem drama, e o isolamento acústico está num nível aceitável para o segmento.
Ruim porque o casamento com o CVT continua sendo… burocrático. Em acelerações menos comedidas, o giro sobe, a rotação estaciona e o som invade a cabine com aquele efeito "liquidificador esforçado" típico do câmbio. As nove marchas simuladas ajudam a dar alguma sensação de progressão, mas não enganam completamente.
Na cidade, o Tiggo é confortável. A suspensão macia absorve bem crateras tupiniquins e lombadas. A direção é leve, talvez até demais em velocidades mais altas. É um SUV que prefere o shopping ao autódromo, o asfalto urbano ao trecho sinuoso de serra.
Em curvas, inclina o que se espera de um utilitário esportivo compacto com foco familiar. Nada assustador, mas também nada entusiasmante. A carroceria bate aquele papo com você: "calma, chefe, meu negócio é vender 12 mil unidades em cinco dias, não disputar track day".
Não à toa, na estrada o Caoa Chery Tiggo 5X cumpre tabela. A 110 km/h, mantém estabilidade adequada, não transmite insegurança e permite viagens sem cansaço excessivo. O problema, como já dito no lide operístico, é que esse ébrio gosta "da boa". Bebe sem pedir desculpa. Se o pé pesar, o consumo cai com uma facilidade quase poética — digna de Vicente Celestino.
No fim das contas, o Tiggo 5X ao volante é exatamente a tradução dos R$ 1,5 bilhão em cinco dias. O SUV é previsível, confortável, suficientemente forte e intensamente comercial.
Não é um carro para apaixonados por dinâmica, mas um SUV para quem gosta de apostar no custo-benefício. E, no Brasil de 2026, talvez isso seja mais importante do que qualquer ária dramática.