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Teste rápido: Caoa Chery Tiggo 5X é um sucesso, mas bebe 7 km/l; vale a pena?

Sucesso absoluto em vendas, o SUV da marca sino-brasileira entrega conforto e bom custo-benefício, mas mantém a sede de um 'ébrio' ao volante

7 mar 2026 - 10h06
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Sou parente distante de Vicente Celestino. Acho que você não o conhece. Ele foi um cantor e ator muito, muito famoso na primeira metade do século passado. Seu grande hit, "O Ébrio", rendeu, inclusive, filme homônimo lançado em 1946 — um dos maiores sucessos de bilheteria da história do cinema brasileiro.

Mas "che cazzo" tem Vicente Celestino a ver com o Caoa Chery Tiggo 5X? Bom... O repórter admite que esticou a corda na conexão, mas explica: o SUV compacto da marca sino-brasileira é um hit do século XXI, principalmente no varejo. Vendeu mais de 12 mil unidades em cinco dias, rendendo à fabricante R$ 1,5 bilhão.

Só que tem um porém. Embora seja uma estrela (com direito, assim como o Tiggo 7, a defensores no submundo da internet), o SUV tem um problema. Seu nome "pouco a pouco, foi crescendo, até chegar aos píncaros da glória", mas o veículo é um ébrio daqueles.

Tiggo 5X 2027 vendeu mais de 12 mil unidades em menos de uma semana
Tiggo 5X 2027 vendeu mais de 12 mil unidades em menos de uma semana
Foto: Marcus Celestino/Estadão / Estadão

De acordo com o Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular (PBEV), o Caoa Chery Tiggo 5X faz 10 km/l na cidade com gasolina e míseros 6,5 km/l com etanol. Na estrada a coisa, evidentemente, é um pouco melhor: 12,1 km/l (g) e 10 km/l (e).

O modelo recebeu aquele belo banho de loja, com distinções no visual e novos equipamentos. Você pode conferir as nuances no texto deste link. Aqui, vou me ater ao rodar do Caoa Chery Tiggo 5X.

Aliás, o SUV ainda é capaz de protagonizar "O Ébrio" por motivo fundamental. O conjunto mecânico não mudou, e segue composto pelo motor 1.5 turbo flex de até 150 cv de potência e 22,8 kgfm de torque aliado ao câmbio automático do tipo CVT com nove marchas simuladas.

Bancos do Caoa Chery Tiggo 5X
Bancos do Caoa Chery Tiggo 5X
Foto: Caoa Chery/Divulgação / Estadão

Vale abrir aqui um parênteses. O conjunto híbrido leve que existia na encarnação anterior abrirá espaço para um híbrido pleno. Esta configuração será lançada no terceiro trimestre.

Ao volante do Caoa Chery Tiggo 5X

E ao volante? Bom, aqui não tem reviravolta de roteiro. Rodamos cerca de 50 km com o Tiggo 5X reestilizado e constatamos que é, essencialmente, o mesmo Tiggo 5X de antes. A maquiagem mudou. A mecânica, conforme mencionamos anteriormente, não.

Por dentro, segue a cartilha contemporânea dos chineses, com quadro de instrumentos digital de 10,25 polegadas e central multimídia também de 10,25'', formando aquele efeito "telona contínua" que o consumidor adora fotografar para o Instagram.

O painel é bem resolvido, com boa definição e leitura clara das informações principais. A multimídia responde com agilidade aceitável, tem boa resolução e navegação intuitiva, sem exigir doutorado para espelhar o celular. Não é revolucionária, mas é moderna o suficiente para não ficar devendo aos rivais diretos.

Tiggo 5X 2027 tem telas que, juntas, formam conjunto de 20,5 polegadas
Tiggo 5X 2027 tem telas que, juntas, formam conjunto de 20,5 polegadas
Foto: Marcus Celestino/Estadao / Estadão

Agora, nem tudo são pixels reluzentes. Quando acionei o sistema de paletas do para-brisa, veio o anticlímax. A sensação era de borracha ressecada, como se o carro tivesse passado meses sob o sol do Saara. O ruído — um rangido seco, quase um arrasto — dava a impressão de que havia algo travando entre o vidro e a lâmina.

Não compromete a segurança, mas compromete o conforto. E em uma viagem mais longa, especialmente sob chuva constante, vira aquele detalhe pequeno que martela na cabeça e incomoda mais do que deveria em um SUV que se propõe tão moderno e competitivo.

Mas vamos falar de dinâmica. Aqui não temos quaisquer mudanças e isso é bom e ruim ao mesmo tempo. Quase uma variante de gato de Schrödinger.

Bom porque o conjunto é muito honesto. O 1.5 turbo responde cedo, empurra o SUV com dignidade no trânsito urbano e não passa vergonha em retomadas de 60 a 100 km/h. Não é explosivo (esqueça qualquer ímpeto juvenil), mas entrega o que promete. O torque em baixa ajuda a tirar o SUV do semáforo sem drama, e o isolamento acústico está num nível aceitável para o segmento.

Caoa Chery Tiggo 5X tem teto panorâmico na versão de topo
Caoa Chery Tiggo 5X tem teto panorâmico na versão de topo
Foto: Caoa Chery/Divulgação / Estadão

Ruim porque o casamento com o CVT continua sendo… burocrático. Em acelerações menos comedidas, o giro sobe, a rotação estaciona e o som invade a cabine com aquele efeito "liquidificador esforçado" típico do câmbio. As nove marchas simuladas ajudam a dar alguma sensação de progressão, mas não enganam completamente.

Na cidade, o Tiggo é confortável. A suspensão macia absorve bem crateras tupiniquins e lombadas. A direção é leve, talvez até demais em velocidades mais altas. É um SUV que prefere o shopping ao autódromo, o asfalto urbano ao trecho sinuoso de serra.

Em curvas, inclina o que se espera de um utilitário esportivo compacto com foco familiar. Nada assustador, mas também nada entusiasmante. A carroceria bate aquele papo com você: "calma, chefe, meu negócio é vender 12 mil unidades em cinco dias, não disputar track day".

Caoa Chery Tiggo 5X - dianteira
Caoa Chery Tiggo 5X - dianteira
Foto: Caoa Chery/Divulgação / Estadão

Não à toa, na estrada o Caoa Chery Tiggo 5X cumpre tabela. A 110 km/h, mantém estabilidade adequada, não transmite insegurança e permite viagens sem cansaço excessivo. O problema, como já dito no lide operístico, é que esse ébrio gosta "da boa". Bebe sem pedir desculpa. Se o pé pesar, o consumo cai com uma facilidade quase poética — digna de Vicente Celestino.

No fim das contas, o Tiggo 5X ao volante é exatamente a tradução dos R$ 1,5 bilhão em cinco dias. O SUV é previsível, confortável, suficientemente forte e intensamente comercial.

Não é um carro para apaixonados por dinâmica, mas um SUV para quem gosta de apostar no custo-benefício. E, no Brasil de 2026, talvez isso seja mais importante do que qualquer ária dramática.

Estadão
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