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Liga dos Campeões

O Real Madrid abandonará a 'La Liga'? Seu presidente traça um plano para a saída

Dirigente quer uma mudança revolucionária na Europa, com a criação de um campeonato de elite com as grandes equipes

9 dez 2019
16h31
atualizado às 16h31
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O presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, conversou recentemente com dirigentes de alguns dos principais clubes da Europa e também com o presidente da Fifa, Gianni Infantino, para explicar sua visão do esporte. E está propondo, segundo pessoas próximas das conversas, nada menos do que uma mudança de poder revolucionária nos jogos.

Uma competição de elite abrangendo os clubes mais ricos do mundo, descompromissados com suas ligas domésticas para a nova temporada inteira de competições. As ligas domésticas ficarão sem suas marcas mais importantes e mais históricas. E milhares de jogos da primeira divisão terão muito menos valor para todos, dos patrocinadores às redes que transmitem os jogos e, talvez o mais importante, os torcedores.

Com o financiamento em estudo, a influência do Real Madrid apoiando a ideia e com os dirigentes começando a esboçar a estrutura do novo calendário global de jogos a vigorar depois de 2024, a nova estrutura de uma superliga europeia pode estar agora mais próxima do que antes.

Na base do plano de Pérez está seu antigo desejo de os maiores times da Europa, como o Real Madrid, saírem das suas ligas nacionais e criarem um campeonatou europeu de elite durante uma temporada inteira.

A competição teria duas divisões de 20 equipes, compostas quase que exclusivamente de clubes das cinco maiores ligas da Europa: Inglaterra, Espanha, França, Alemanha e Itália. Alguns clubes, segundo as projeções, poderiam dobrar suas receitas deixando suas ligas nacionais e aderindo ao novo plano. O conceito de ser promovido ou relegado à segunda divisão, característico do futebol mundial, que recompensa o sucesso e pune o fracasso, seria mantido, mas somente entre as duas divisões.

A proposta deve enfrentar uma resistência feroz. De um só golpe qualquer competição destruiria o valor dos jogos das ligas nacionais, mas, ao abranger os melhores times, ela também pode destruir o valor da Liga dos Campeões, campeonato dos clubes mais ricos do mundo e o motor financeiro da Uefa.

Pérez, que, como presidente do Real Madrid, se tornou membro fundador de uma nova associação global de clubes internacionais criada no mês passado na sede da Fifa em Zurique, não comentou suas propostas. Durante sua visita a Zurique, contudo, ele discutiu suas ideias com Infantino, que durante grande parte do ano passado procurou vender suas próprias ideias sobre como reformular o futebol de clubes. Seu plano basicamente é no sentido de um novo Mundial de Clubes com 24 equipes, a partir de 2021. Mas ele também tem ideias mais abrangentes para a Fifa ter uma mão mais forte no futebol de clubes.

Somente na semana passada, por exemplo, ele insistiu na ideia de investir centenas de milhões de dólares em uma nova liga pan-africana, como um meio de aumentar a qualidade do esporte nessa região e diminuir o fluxo de talentos globais para a Europa. Manteve conversações com associações nacionais asiáticas sobre a possibilidade de criar ligas regionais ou sub-regionais ali, e com o presidente Donald Trump sobre a qualidade do futebol da liga dos Estados Unidos.

"Um dos deveres do presidente da Fifa é ouvir as opiniões dos seus membros sobre tópicos relevantes para o futebol", declarou a Fifa em comunicado, respondendo a perguntas sobre as conversas de Infantino com Pérez e outros sobre mudanças nos jogos de clubes.

"A Fifa entende que um diálogo aberto e construtivo entre diferentes membros da comunidade do futebol é essencial para encontrar o equilíbrio certo e as melhores soluções para o futuro dos jogos"

"A Fifa (incluindo o presidente) se reuniu com clubes de futebol do mundo todo para discutir com tornar o novo Mundial de Clubes um sucesso espetacular, em especial do ponto de vista esportivo".

O Real Madrid, por meio de um porta-voz, informou que o clube jamais comenta conversações privadas e que qualquer notícia relativa ao seu presidente só será divulgada pelos canais oficiais do clube.

Sem o patrocínio de Infantino, os planos de Pérez não devem ir muito longe. O presidente da Fifa disse a jornalistas em novembro de 2018 - quando vazaram detalhes de uma tentativa anterior para formar uma liga dissidente apoiada por Pérez - que os jogadores que participassem de alguma competição em separado não aprovada pela Fifa seriam barrados dos seus times nacionais e não jogariam na Copa do Mundo.

Embora as novas conversas sobre as propostas de Pérez ainda estejam numa fase exploratória, elas continuam, à medida que os clubes discutem o futuro da Liga dos Campeões. Essa competição perderá importância se a empreitada de Pérez - que incluiria incentivos financeiros significativos para um grupo selecionado de clubes de primeira linha - se materializar.

Um grupo representando clubes de elite de toda a Europa se reuniu em Milão no dia 15 de novembro com vistas a formular um novo formato após a reação furiosa das principais ligas domésticas, incluindo a Premier League da Inglaterra, La Liga da Espanha, a um plano defendido pelo presidente da Juventus, Andrea Agnelli, de criar um torneio essencialmente europeu em que muitos dos times competidores conservariam seu lugar temporada após temporada independente no seu desempenho nos jogos da liga doméstica.

Dinheiro é a força motriz por trás de todos esses planos de reestruturação, com os grandes clubes achando que conseguirão atrair mais audiência televisiva e mais interesse dos patrocinadores, e assim mais receita, através de jogos de times de elite mais frequentes. Mas o apoio de Infantino e da Fifa, se for dado, vai tirar o controle do futebol de clubes da sua atual base de poder, que são as federações continentais como a Uefa.

Sob o comando de Infantino, que assumiu a presidência da Fifa em 2016, a organização vem buscando maneiras de aumentar sua influência (e os lucros) no futebol de clubes. A atual versão anual do Mundial de Clubes - que apresenta uma equipe de seis associações regionais de futebol e uma da nação que hospeda os jogos - desperta pouco interesse. E esse campeonato terá início na próxima semana no Catar.

Ao que parece, Infantino entende que, elevando o padrão do futebol de clubes na África, Ásia e em outros lugares, a Fifa criará condições para os investidores, que injetam bilhões de dólares no futebol europeu - também investirem no futebol em outras partes do mundo.

"A missão da Fifa é desenvolver o futebol a nível mundial", diz o comunicado da organização. "Isto envolve formular planos e conceitos de competição para motivar o futebol de clubes em todos os lugares".

"Queremos que os clubes europeus cresçam mais porque isto é bom para o futebol mundial, mas ao mesmo tempo desejamos ver clubes de fora da Europa crescerem também, de modo que um dia possam competir com os times europeus". (Tradução de Terezinha Martino)

Estadão
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