Momento é favorável para o Brasil aprovar medidas antidumping de aço sobre a China, diz Giannetti
'Claro que eu preferiria ter um mundo sem tarifas, mas às vezes você tem de ser realista: a tarifa é necessária', afirma o economista
O economista Roberto Giannetti da Fonseca avalia que a aprovação das medidas antidumping aguardadas pelo setor siderúrgico para este trimestre deve dar um fôlego para que a indústria nacional recupere mercado. Essas iniciativas englobam produtos de aço laminado a frio e revestidos vindos da China.
"Claro que eu preferiria ter um mundo sem tarifas, mas às vezes você tem de ser realista: a tarifa é necessária, a tarifa é indispensável, se não mata-se o paciente, mata-se a indústria", afirmou ao Estadão/Broadcast o ex-secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex) — de 2000 a 2002, no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso — e ex-diretor titular de Relações Internacionais da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) — de 2004 a 2013.
Ele avalia que esse fôlego permitirá ao governo, em parceria com as empresas, pensar em uma agenda de competitividade para o setor, ante a necessidade de rever outros pontos que tornam o aço brasileiro caro.
A seguir, os principais pontos da entrevista:
Qual seria o efeito de medidas antidumping na situação da indústria siderúrgica hoje?
Temos um coeficiente de importação de aço chinês para o Brasil num nível que já preocupa a própria sobrevivência da indústria siderúrgica brasileira. Quase um terço do aço usado no Brasil hoje é importado, e isso é um paradoxo. Somos um país que tem todas as condições de competitividade, matéria-prima, melhor minério de ferro do mundo. Não nos falta nada. Mas temos desvantagens competitivas que têm agravado e prejudicado a indústria: excesso de carga tributária, inclusive nas exportações; logística deficiente; e o custo do capital. Temos um juro real que é insuportável. As indústrias consumidoras de aço reclamam do custo do aço brasileiro com razão. Eles conseguem comprar mais barato o aço importado. O aço importado na origem é subsidiado e vendido para o exterior abaixo do preço do mercado interno. Então, quando se tem essa evidência de uma concorrência desleal e já há uma desvantagem competitiva, a situação é extrema. Ou se conserta isso, ou a indústria vai morrer, vai acabar.
Esses custos elevados para se produzir no Brasil também denotam falta de tecnologia nas siderúrgicas do País?
A defasagem tecnológica se dá pela falta de apetite para investir. As empresas não têm segurança de que vão ter retorno. O custo do capital é elevado. O custo de investimento (capex) por tonelada de capacidade instalada de aço varia significativamente com base na tecnologia (alto-forno ou forno elétrico a arco), localização da planta e se é uma planta nova (greenfield) ou expansão (brownfield). Em média, os novos projetos siderúrgicos que temos avaliado no Brasil, na Índia, e na China indicam respectivamente custo por tonelada de capacidade instalada de aço de US$ 1,1 milhões no Brasil, US$ 800 mil na Índia, e US$ 500 mil na China. Ou seja, no Brasil temos um capex onerado pelo elevado custo do capital no processo produtivo dos equipamentos e montagem industrial, alto custo da mão de obra e da logística envolvida, e carga tributária sobre os investimentos. Com a reforma tributária em curso estima-se uma redução na carga tributária sobre investimentos. Mas persistem as demais desvantagens competitivas apontadas.
E o que é possível fazer para melhorar essas condições?
Uma medida tomada pelo (vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) Geraldo Alckmin é o programa de depreciação acelerada, que proporciona menor imposto de renda. Como consequência, haverá menos endividamento, menor dependência de bancos e de custo de capital caro. É uma medida, por exemplo, que poderia ser reforçada para o setor siderúrgico, já que o resultado disso se refletiria na indústria automobilística, na indústria de eletroeletrônicos e de máquinas e equipamentos, todos que são utilizadores de aço. Política industrial virou um nome pejorativo durante um tempo. Nós estamos resgatando. O mundo todo está praticando política industrial. As próprias tarifas de importação são parte disso. Os países estão se protegendo. Claro que eu preferiria ter um mundo sem tarifas, mas às vezes você tem que ser realista: a tarifa é necessária, a tarifa é indispensável, se não mata-se o paciente, mata-se a indústria.
A aprovação de medidas antidumping, esperadas para o primeiro trimestre, para produtos chineses laminados a frio e revestidos resolveria apenas uma parte do problema, então?
Sim, a medida (antidumping) tem o sentido de dar uma proteção temporária para que a indústria ganhe fôlego, recupere o seu mercado interno e consiga, com isso, agilizar modernização e investimento. Ao mesmo tempo, é preciso que o governo discuta — porque algumas coisas dependem do governo — a política industrial, faça uma agenda de competitividade para o setor siderúrgico. Isso tem de ser tratado com uma espécie de força-tarefa. Tem de ser um plano de parceria público-privada que coloque realmente gente competente do governo e do setor privado pensando, agindo, realizando iniciativas para que daqui a três ou cinco anos o setor siderúrgico diga: 'Não preciso mais de proteção tão alta. Vamos trabalhar com 10%, 12%, 8% e o setor sobrevive'.
Já houve algum momento em que a indústria disse isso?
Eu exportava aço para a China, para o Japão e para a Coreia na década de 80. Eu sou testemunha viva de que o Brasil foi, e foi muito, competitivo. Claro que ainda se exporta, mas pouquíssimo. O que precisamos pensar também é na venda, tanto quanto possível, de produtos de valor agregado, inclusive do aço transformado. Quando se exportam automóveis, máquinas, produtos elétricos e eletrônicos, se está também exportando o aço. E temos de ter uma política de exportação que busque também valorizar a agregação de valor. A reforma tributária vai facilitar isso, porque ela permite uma recuperação de impostos da cadeia produtiva de uma forma mais rápida.
Qual é a chance de, por exemplo, esse alto volume de importação da China começar a fazer outras rotas comerciais e chegar ao Brasil por outros países, burlando esse antidumping?
Acontece, sim, às vezes, a tentativa de triangulação. Temos de ficar espertos nos fluxos. Se houver, por exemplo, um aumento de exportação da Índia para o Brasil e verificarmos uma triangulação, devem ser tomadas medidas compensatórias.
Qual a perspectiva de aprovação de medidas antidumping para o setor hoje?
O momento está muito favorável para aprovação dos antidumpings. Primeiro, porque (os dumpings) estão, de fato, ocorrendo. Houve uma época em que era muito difícil se investigar essas ocorrências, porque não havia muita informação. Hoje a informação está mais fluida, mais transparente. É fácil obter informações para fazer um processo consistente. E também esse tumulto do tarifaço, dessa desorganização que aconteceu com o comércio mundial criou um ambiente mais aberto para proteção de mercado. Virou quase um efeito manada. Todos os países estão olhando uma forma direta ou indireta de proteção do seu mercado. A começar pelos Estados Unidos, que fazem isso de forma agressiva.