Haddad diz ser 'crucial' cuidar do BC: 'Pode ajudar ou prejudicar o governo e o País'
Ministro afirmou entender clamor da Faria Lima sobre contas do governo, mas ressaltou ser 'um só para lidar com as pressões do cargo'
BRASÍLIA - O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse nesta terça-feira, 10, que é importante cuidar do Banco Central, porque a entidade pode ajudar ou prejudicar muito o governo e o país. Ele participou da CEO Conference Brasil 2026, organizada pelo BTG Pactual, em São Paulo.
"É muito importante cuidar do Banco Central, porque o Banco Central pode efetivamente contribuir muito ou prejudicar muito os governos e o país. Então, eu sou muito atento a tudo que o Banco Central diz e faz", afirmou.
Segundo Haddad, a dívida pública precisa ser vista como uma coisa complexa, dizendo que é impossível contrapor juros reais atuais com nenhum nível de superávit primário.
Ele ainda disse que a queda da dívida durante o governo Bolsonaro está ligada a uma Selic baixa e inflação alta. Isso teria tido impacto determinante para a não eleição do ex-presidente em 2022, para o ministro.
"Eu entendo que um juro real desse, você não consegue contrapor com nenhum nível de superávit primário", disse.
"Quando eu digo que eu não vejo muita razão para o juro real continuar subindo como está, uma vez que a inflação está caindo e o juro nominal está estável em 15%, o juro real está subindo. Eu não estou querendo macular a reputação da autoridade, mas estou fazendo uma reflexão. Uma reflexão que qualquer pessoa pode fazer", completou.
Reação a Guilherme Mello
O ministro disse que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) consulta interlocutores sobre indicações ao Banco Central e que a reação ao nome do secretário de Política Econômica, Guilherme Mello, é "do jogo".
Ele afirmou que se sentiu à vontade para dizer que Mello e Tiago Cavalcanti tinham pretensões para o BC e que não há problema nisso. Segundo Haddad, a reação ao seu próprio nome para a Fazenda foi ainda pior que a de Mello para o BC.
"O presidente consulta os seus principais interlocutores na área econômica e pergunta se a pessoa tem alguma sugestão, não é uma indicação, é uma sugestão. Eu recebi dessas duas pessoas uma indicação de que tinham disposição em colaborar com o Brasil nessa posição e fiz chegar tanto ao presidente do Banco Central quanto ao presidente da República 90 dias atrás", disse.
Questionado sobre uma possível mudança na autonomia do Banco Central aventada pelo PT, Haddad disse que responde por sua atuação na Fazenda. Sobre uma ideia de alterar a meta de inflação, Haddad disse que, por ele, esta seria mantida, mas deixou o futuro em aberto.
"Quando você está no governo, você tem que olhar um conjunto de variáveis conjuntamente, que muitas vezes gera constrangimentos reais que precisam ser observados para você não causar desfuncionalidades. Essas decisões são muito delicadas, como foi delicado em tomar a decisão de mudar do calendário para a meta contínua", declarou.
Para ele, a meta de inflação contínua permite que BC trace estratégia racional para convergência: "Eu respondo pelo que eu fiz e o que eu manteria a meta de inflação, se eu permanecesse na Pasta", completou.
Clamor da Faria Lima
Haddad disse que parte do déficit primário do governo já estava contratado pela administração anterior. Ele declarou entender o clamor da Faria Lima, mas disse ser um só para lidar com as pressões do cargo.
"Gostaria de ter ido além. Agora, você tem que negociar com o Congresso, que tinha acabado de aprovar o aumento de despesas. O Fundeb foi contratado até este ano, a escadinha de capitalização do Fundeb, as regras de flexibilização de elegibilidade do BPC foram contratadas em 2021, então, como é que você equaciona tudo isso com o clamor, que eu entendo da Faria Lima, mas assim, como dizem os baianos, eu só sou um só", afirmou.
Haddad disse que o cargo é "um pouco desafiador", mas que não é o pior emprego do mundo.
"O pessoal fala que é o pior emprego do mundo e eu falo, eu recomendo para todo mundo se conseguir ser ministro da Fazenda, tentar, porque é muito interessante você conhecer o Brasil a partir daquela cadeira", completou.
Arquitetura do arcabouço
O ministro elogiou ainda a arquitetura do arcabouço fiscal, mesmo que se possa discutir os parâmetros. "A arquitetura é muito boa, porque você uniu um critério da lei fiscal, da lei de responsabilidade fiscal do ano 2000, que é você ter meta de resultado primário, mas você não descuidou de fixar uma regra de gasto, que eu penso que faltava na lei de responsabilidade fiscal", disse.
Haddad declarou ser preciso ainda ajustar partes do Orçamento que estariam "fora do espírito" do arcabouço.
Ele afirmou também que talvez seja a hora de pensar uma nova arquitetura de assistência social no Brasil. Para ele, o país está maduro para soluções mais "criativas" para esse tema. "Eu entendo, olhando para o orçamento, que talvez o Brasil esteja maduro para uma solução mais criativa (sobre assistência social)", afirmou.
Para o ministro, o país não pode abdicar do crescimento para fazer controle fiscal. Disse ainda que o Brasil tem conseguido spread em títulos de 30 anos em dólares equiparados a países que têm grau de investimento e isso é sinal de que as perspectivas são positivas para a administração.
"Eu sempre fui da tese, e eu continuo sendo, de que o Brasil não pode abdicar de crescimento, porque senão não vai ser para valer o ajuste fiscal, você vai ter um problema ali em adiante", completou.
Reforma tributária
O ministro disse que o tema fiscal monopoliza o noticiário, mas geralmente com desinformação. "É uma situação curiosa, porque o tema mais discutido nos últimos três anos, em geral, é de baixa qualidade técnica o nível da discussão", afirmou.
Questionado sobre um balanço de sua atuação até aqui no ministério, Haddad elogiou a reforma tributária, dizendo que o Brasil terá um dos melhores sistemas tributários do mundo.