Você já passou horas analisando um detalhe no rosto que ninguém mais parece notar? Para quem sofre de Dismorfia Corporal, o espelho não reflete a realidade, mas sim uma visão distorcida.
Essa condição, conhecida tecnicamente como Transtorno Dismórfico Corporal (TDC), transforma pequenas imperfeições em obsessões paralisantes. O paciente vive em busca de um ideal de perfeição que nunca é alcançado.
Nas redes sociais, a pressão estética atual serve como um gatilho perigoso para esse transtorno. Comparações constantes com famosos e influenciadores aumentam a sensação de inadequação física.
É fundamental diferenciar a vaidade comum de uma patologia que afeta o julgamento visual.
O que é o Transtorno Dismórfico Corporal (TDC)?
O TDC é uma condição mental onde a pessoa foca obsessivamente em falhas percebidas na aparência. Essas falhas costumam ser mínimas ou até inexistentes para as outras pessoas ao redor.
Estima-se que o transtorno afete cerca de 2% da população mundial de forma geral. Contudo, em consultórios de cirurgia plástica, esses números são significativamente maiores e preocupantes.
Muitos pacientes buscam no bisturi a solução para uma dor que é, na verdade, psicológica. Sem o diagnóstico correto, a cirurgia pode agravar o quadro de insatisfação do indivíduo.
Sinais de Alerta: quando a vaidade vira doença?
Identificar o limite entre o autocuidado e a obsessão é o primeiro passo para o tratamento. Fique atento a comportamentos que indicam que a preocupação com a imagem saiu do controle:
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Gastar mais de uma hora por dia pensando em um "defeito" específico.
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Evitar fotos ou situações sociais por causa de uma característica física.
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Comparar sua aparência de forma excessiva com a de celebridades e modelos.
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Realizar vários procedimentos na mesma área sem nunca se sentir realmente pronto.
"Trata-se daquele paciente que busca o mesmo procedimento com vários profissionais diferentes", explica Dr. Wendell Uguetto, cirurgião plastico da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e membro do corpo clínico do Hospital Albert Einstein.
O histórico de múltiplas cirurgias sem satisfação é um dos sinais mais claros de TDC.
Papel do cirurgião: médico como barreira ética
O cirurgião plástico desempenha um papel fundamental na proteção da saúde mental do paciente. Nem sempre o desejo de operar deve ser atendido pelo profissional de saúde.
Muitas vezes, a cirurgia plástica estética entra em uma linha tênue entre incômodo pessoal e patologia. O médico deve atuar como uma barreira ética quando percebe expectativas irreais.
"A cirurgia plástica vai ser necessária quando há um impacto físico e funcional obrigatório", destaca Dr. Uguetto.
Se o cirurgião suspeita de dismorfia, ele deve dizer "não" ao procedimento solicitado. Operar um paciente com TDC sem tratamento prévio costuma gerar resultados insatisfatórios para ambos.
O profissional deve realizar uma anamnese psicológica detalhada durante a primeira consulta de avaliação. Ao identificar o transtorno, o encaminhamento gentil para a psicologia é a conduta médica correta.
Tratamento e recuperação
A solução para a Dismorfia Corporal não está no bisturi, mas no tratamento da mente. Buscar cirurgias sucessivas apenas alimenta o ciclo de insatisfação e ansiedade do paciente.
A abordagem mais eficaz é a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) com foco em imagem corporal. Em alguns casos, o uso de medicação ajuda a controlar pensamentos obsessivos e depressivos.
Lembre-se: o bem-estar real nasce do equilíbrio entre a saúde física e mental. Tratar a mente é o caminho mais curto para fazer as pazes com o espelho.