Bariátrica: vença o peso emocional que a balança não mostra

A cirurgia bariátrica muda o corpo, mas o maior desafio está no comportamento, na mente e na relação com a comida.

10 fev 2026 - 12h53

A cirurgia bariátrica costuma ser vista como um divisor de águas. Para muitos, ela simboliza recomeço, alívio e esperança. Mas o que acontece depois da cirurgia raramente é simples.

Foto: Reprodução/Shutterstock
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Foto: Saúde em Dia

A balança muda rápido. O corpo responde. Já a mente segue outro ritmo. Foi exatamente isso que Thais Carla expôs em entrevista recente à Quem. Após realizar a cirurgia em abril de 2025, ela eliminou mais de 80 quilos. Hoje, pesa cerca de 115 kg.

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Mesmo com resultados expressivos, Thais deixou claro: a cirurgia não apaga desafios emocionais. Ela apenas inaugura uma nova fase.

O que a bariátrica muda e o que ela não muda

A cirurgia bariátrica reduz o estômago. Ela altera mecanismos hormonais ligados à fome e saciedade. Mas não opera emoções, hábitos ou padrões mentais.

Segundo Tâmara Kenski, médica pós-graduada em psiquiatria, a bariátrica não é atalho, nem solução isolada. Ela é o começo de um tratamento crônico.

Mesmo sendo um procedimento pontual, o cuidado é permanente. O paciente precisa entender isso antes da cirurgia. E, principalmente, depois dela.

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Na prática clínica, os maiores sacrifícios não estão na mesa. Eles estão nas mudanças comportamentais profundas. Essas mudanças determinam o sucesso real a longo prazo.

Comer devagar: quando o corpo vira professor

Entre os aprendizados de Thais Carla, um se destaca. Ela precisou reaprender a comer. Literalmente.

Antes da bariátrica, comia rápido. Após a cirurgia, isso virou um risco real. O primeiro engasgo foi traumático.

A experiência ensinou algo essencial. A comida passou a exigir atenção, pausa e presença. Degustar virou regra, não escolha.

Esse aprendizado não é isolado. Ele acontece com muitos pacientes bariátricos. O corpo passa a impor limites claros.

A cirurgia não reduz a disciplina, ela aumenta

Existe um mito perigoso sobre a bariátrica. A ideia de que, depois da cirurgia, tudo fica fácil. Isso não se sustenta na prática.

Segundo a médica, a bariátrica aumenta a complexidade do autocuidado. Ela exige disciplina contínua e atenção constante aos sinais do corpo.

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O sucesso depende de pilares bem definidos. Eles vão muito além da restrição alimentar: incluem dimensões neurocomportamentais e metabólicas.

A adesão nutricional precisa ser crônica. Refeições fracionadas e proteína adequada são fundamentais, não apenas no primeiro ano.

Suplementação: o erro que cobra um preço alto

Após a bariátrica, a absorção de nutrientes muda. Vitaminas e minerais deixam de ser totalmente aproveitados. Por isso, a suplementação é obrigatória.

Segundo a especialista, esse é um dos maiores pontos de falha. Após 12 meses, muitos pacientes abandonam os suplementos. O corpo sente, mesmo que a balança não mostre.

Os nutrientes mais monitorados incluem:

  • Vitamina B12.

  • Vitamina D.

  • Cálcio.

  • Zinco.

  • Tiamina.

A vigilância e os exames periódicos deve ser feitos continuamente. Esses passos não são opcionais,  pois fazem parte do tratamento.

Exercício físico: preservar músculos é preservar resultados

Outro pilar essencial após a bariátrica é o exercício físico. Não qualquer exercício. Mas o treino certo.

O treino resistido ajuda a preservar massa magra. Isso mantém o gasto energético basal e reduz o risco de reganho de peso.

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Sem músculo, o metabolismo desacelera. Mesmo comendo pouco, o corpo se adapta e o peso pode voltar. Por isso, atividade física não é estética, é estratégia metabólica. E deve acompanhar toda a jornada.

Síndrome de dumping: o corpo educa

A síndrome de dumping assusta muitos pacientes. Ela ocorre quando alimentos ricos em açúcar entram rapidamente no intestino. O desconforto é imediato.

Do ponto de vista fisiológico, o mecanismo é simples. Há um esvaziamento gástrico acelerado e uma carga osmolar elevada no intestino delgado.

Na prática clínica, o dumping vira um feedback poderoso. O corpo "ensina" o que não funciona e desencoraja excessos de carboidratos simples.

Embora não seja desejável como sintoma, muitas vezes ele facilita a reeducação alimentar. A escolha por proteínas e fibras passa a ser intuitiva.

Quando a compulsão muda de lugar

A bariátrica reduz o volume alimentar, mas não elimina circuitos de recompensa nem padrões de impulsividade. Antes da cirurgia, a comida muitas vezes regulava emoções. Após a bariátrica, essa função desaparece. Então, o cérebro procura substitutos.

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Esse fenômeno é chamado de transferência comportamental. Pode envolver álcool, compras, trabalho excessivo ou relações impulsivas. Não é falha moral.

É uma reorganização neurocomportamental previsível e precisa ser identificada cedo. A psicoeducação é parte central do tratamento.

O reganho de peso não começa na balança

Um dos maiores medos de quem faz bariátrica é o reganho. E ele raramente acontece de forma abrupta. Quase sempre começa silencioso.

Pequenas quebras de rotina se acumulam. Sono irregular, treino abandonado. Acompanhamento médico espaçado, regulação emocional negligenciada. O corpo responde a esse conjunto.

Segundo a médica, o reganho começa no comportamento, não no estômago. Quando a estrutura se perde, a fisiologia se adapta.

Bariátrica é ferramenta, não identidade

A história de Thais Carla ajuda a ampliar o debate. A bariátrica foi uma decisão consciente e tomada no momento certo.

Ela não define quem a pessoa é, nem apaga sua trajetória. Ela apenas oferece uma ferramenta. O verdadeiro trabalho vem depois, na construção de hábitos sustentáveis e na escuta do corpo e da mente.

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Vencer o peso emocional que a balança não mostra é o maior desafio do paciente bariátrico. E também o maior ato de cuidado consigo mesma.

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