Nunca estivemos tão conectados, informados e ocupados. Ainda assim, ou justamente por isso, a sensação de cansaço mental se tornou coletiva.
Mesmo depois de dormir, tirar férias ou "diminuir o ritmo" por alguns dias, o esgotamento continua ali, silencioso e persistente.
Segundo o psicólogo Lucas Freire, especialista em saúde mental e ciência do Playfulness, não se trata de fraqueza individual.
O que estamos vivendo é o resultado direto de uma cultura que normalizou a exaustão como sinônimo de sucesso.
A cultura da produtividade que nunca desliga
Vivemos sob a lógica do 24/7: sempre disponíveis, sempre respondendo, sempre produzindo. O descanso virou algo que precisa ser "merecido", e não uma necessidade básica do cérebro.
Como essa cultura se manifesta no dia a dia
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Valorização do excesso de trabalho como virtude.
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Culpa ao descansar ou desacelerar.
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Pressão constante por desempenho e resultados.
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Dificuldade real de se desconectar das telas.
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Sensação de que parar é ficar para trás.
Nesse cenário, o cansaço deixa de ser um sinal de alerta e passa a ser tratado como algo normal, até esperado.
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O impacto direto no cérebro
O problema não é apenas físico. A exaustão atual é, sobretudo, neurológica. O cérebro humano não foi projetado para lidar com estímulos constantes, notificações ininterruptas e múltiplas tarefas ao mesmo tempo.
O que acontece internamente
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Sobrecarga cognitiva permanente.
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Dificuldade de concentração e memória.
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Sensação de fadiga mesmo sem esforço físico.
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Estado de alerta contínuo, semelhante ao estresse crônico.
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Redução da capacidade de prazer e presença.
"Multitarefa não é habilidade, é ilusão perigosa", afirma Freire. O cérebro alterna focos rapidamente, gastando mais energia do que quando se concentra em uma coisa só.
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As chamadas "prisões neurológicas"
Lucas Freire dá nome a esse aprisionamento mental: neuroprisões. São padrões automáticos que mantêm o cérebro preso à lógica da cobrança constante.
Exemplos de neuroprisões comuns hoje
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Medo de parar ou ficar em silêncio.
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Associação entre valor pessoal e produtividade.
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Dependência digital e scrolling infinito.
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FOMO (medo de perder algo).
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Consumo constante de informações sem processamento.
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Sensação de estar sempre devendo algo a alguém.
Esses padrões não surgem por acaso. Eles são reforçados por estímulos externos, inclusive pelo neuromarketing, que atua diretamente no inconsciente.
Sinais de que o cérebro está no limite
Nem sempre o corpo avisa com dor física. Muitas vezes, o alerta vem de forma emocional e comportamental.
Fique atento se você sente:
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Irritabilidade frequente sem motivo claro.
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Falta de energia emocional.
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Insônia ou sono que não descansa.
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Sensação constante de atraso ou culpa.
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Dificuldade de sentir prazer no que antes gostava.
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Cansaço que não melhora com descanso pontual.
Esses sinais indicam que o problema não é falta de força de vontade, mas excesso de exigência mental.
A ludicidade como caminho de saída
Ao contrário do que parece, a solução não está em produzir melhor, e sim em viver de forma menos automática.
É aqui que entra o conceito de Playfulness defendido por Lucas Freire em seu livro Exaustos.
O que é Playfulness?
Não se trata apenas de brincar. É um estado mental caracterizado por:
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Engajamento livre.
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Criatividade sem cobrança.
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Curiosidade genuína.
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Prazer sem objetivo produtivo.
Segundo o psicólogo, o play ativa mais circuitos cerebrais do que qualquer outro comportamento, estimulando a neuroplasticidade e ajudando o cérebro a sair do modo sobrevivência.
Exemplos de práticas lúdicas no dia a dia
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Atividades criativas sem meta ou resultado.
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Momentos de lazer sem registro ou postagem.
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Experiências novas feitas por curiosidade.
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Pausas reais, sem tela ou estímulo externo.
Desacelerar não é falhar
Em uma sociedade que glorifica o excesso, desacelerar se torna um ato de cuidado e até de resistência.
Entender que o cérebro tem limites é o primeiro passo para sair do modo automático.
O cansaço coletivo não é falta de resiliência. É um sinal claro de que o ritmo atual não é sustentável.
Recuperar leveza, presença e bem-estar passa por rever prioridades, soltar a culpa do descanso e permitir que o cérebro volte a existir além da produtividade.
Às vezes, o que falta não é energia. É espaço.