A era do cansaço: por que o cérebro não aguenta mais?

Vivemos mais conectados e produtivos, mas o cérebro está sobrecarregado pela cultura da exaustão e da cobrança constante

3 fev 2026 - 18h13

Nunca estivemos tão conectados, informados e ocupados. Ainda assim, ou justamente por isso, a sensação de cansaço mental se tornou coletiva.

Cansaço constante não é fraqueza: é o cérebro pedindo pausa em uma rotina sem descanso
Cansaço constante não é fraqueza: é o cérebro pedindo pausa em uma rotina sem descanso
Foto: Shutterstock / Saúde em Dia

Mesmo depois de dormir, tirar férias ou "diminuir o ritmo" por alguns dias, o esgotamento continua ali, silencioso e persistente.

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Segundo o psicólogo Lucas Freire, especialista em saúde mental e ciência do Playfulness, não se trata de fraqueza individual.

O que estamos vivendo é o resultado direto de uma cultura que normalizou a exaustão como sinônimo de sucesso.

A cultura da produtividade que nunca desliga

Vivemos sob a lógica do 24/7: sempre disponíveis, sempre respondendo, sempre produzindo. O descanso virou algo que precisa ser "merecido", e não uma necessidade básica do cérebro.

Como essa cultura se manifesta no dia a dia

  • Valorização do excesso de trabalho como virtude.

  • Culpa ao descansar ou desacelerar.

  • Pressão constante por desempenho e resultados.

  • Dificuldade real de se desconectar das telas.

  • Sensação de que parar é ficar para trás.

Nesse cenário, o cansaço deixa de ser um sinal de alerta e passa a ser tratado como algo normal, até esperado.

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O impacto direto no cérebro

O problema não é apenas físico. A exaustão atual é, sobretudo, neurológica. O cérebro humano não foi projetado para lidar com estímulos constantes, notificações ininterruptas e múltiplas tarefas ao mesmo tempo.

O que acontece internamente

  • Sobrecarga cognitiva permanente.

  • Dificuldade de concentração e memória.

  • Sensação de fadiga mesmo sem esforço físico.

  • Estado de alerta contínuo, semelhante ao estresse crônico.

  • Redução da capacidade de prazer e presença.

"Multitarefa não é habilidade, é ilusão perigosa", afirma Freire. O cérebro alterna focos rapidamente, gastando mais energia do que quando se concentra em uma coisa só.

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As chamadas "prisões neurológicas"

Lucas Freire dá nome a esse aprisionamento mental: neuroprisões. São padrões automáticos que mantêm o cérebro preso à lógica da cobrança constante.

Exemplos de neuroprisões comuns hoje

  • Medo de parar ou ficar em silêncio.

  • Associação entre valor pessoal e produtividade.

  • Dependência digital e scrolling infinito.

  • FOMO (medo de perder algo).

  • Consumo constante de informações sem processamento.

  • Sensação de estar sempre devendo algo a alguém.

Esses padrões não surgem por acaso. Eles são reforçados por estímulos externos, inclusive pelo neuromarketing, que atua diretamente no inconsciente.

Sinais de que o cérebro está no limite

Nem sempre o corpo avisa com dor física. Muitas vezes, o alerta vem de forma emocional e comportamental.

Fique atento se você sente:

  • Irritabilidade frequente sem motivo claro.

  • Falta de energia emocional.

  • Insônia ou sono que não descansa.

  • Sensação constante de atraso ou culpa.

  • Dificuldade de sentir prazer no que antes gostava.

  • Cansaço que não melhora com descanso pontual.

Esses sinais indicam que o problema não é falta de força de vontade, mas excesso de exigência mental.

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A ludicidade como caminho de saída

Ao contrário do que parece, a solução não está em produzir melhor, e sim em viver de forma menos automática.

É aqui que entra o conceito de Playfulness defendido por Lucas Freire em seu livro Exaustos.

O que é Playfulness?

Não se trata apenas de brincar. É um estado mental caracterizado por:

  • Engajamento livre.

  • Criatividade sem cobrança.

  • Curiosidade genuína.

  • Prazer sem objetivo produtivo.

Segundo o psicólogo, o play ativa mais circuitos cerebrais do que qualquer outro comportamento, estimulando a neuroplasticidade e ajudando o cérebro a sair do modo sobrevivência.

Exemplos de práticas lúdicas no dia a dia

  • Atividades criativas sem meta ou resultado.

  • Momentos de lazer sem registro ou postagem.

  • Experiências novas feitas por curiosidade.

  • Pausas reais, sem tela ou estímulo externo.

Desacelerar não é falhar

Em uma sociedade que glorifica o excesso, desacelerar se torna um ato de cuidado e até de resistência.

Entender que o cérebro tem limites é o primeiro passo para sair do modo automático.

O cansaço coletivo não é falta de resiliência. É um sinal claro de que o ritmo atual não é sustentável.

Recuperar leveza, presença e bem-estar passa por rever prioridades, soltar a culpa do descanso e permitir que o cérebro volte a existir além da produtividade.

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Às vezes, o que falta não é energia. É espaço.

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