Estudo da Keck Medicine da USC revelou que a exposição ao tetracloroetileno (PCE), usado em lavagens a seco, aumenta em até três vezes o risco de fibrose hepática, mesmo em pessoas sem fatores de risco tradicionais.
Um produto químico amplamente utilizado em lavagens a seco e produtos de limpeza doméstica pode estar por trás de danos graves ao fígado, segundo uma reportagem publicada nesta segunda-feira, 7, pela revista científica Science. Pesquisadores da Keck Medicine da USC descobriram que indivíduos com níveis detectáveis de tetracloroetileno (PCE) no sangue possuem três vezes mais chances de apresentar fibrose hepática significativa.
Também publicado na revista Liver International, o estudo sugere que essa substância pode ser um fator de risco subestimado para a saúde do órgão.
A fibrose hepática surge quando lesões contínuas geram acúmulo de tecido cicatricial no órgão. O avanço desse quadro compromete as funções vitais do fígado e pode evoluir para insuficiência hepática, câncer ou morte.
O que é o PCE e onde ocorre a exposição?
O tetracloroetileno (PCE) é um composto líquido sintético e incolor com alta capacidade de dissolver gordura. O produto é aplicado em processos de lavagem a seco e entra na composição de removedores de manchas, polidores de aço inoxidável e adesivos para artesanato.
O contato humano ocorre principalmente por inalação, já que roupas higienizadas a seco liberam o vapor gradualmente no ambiente. O descarte inadequado e vazamentos também podem infiltrar o solo e contaminar reservatórios de água potável.
Como a quantidade da substância afeta o órgão?
A probabilidade de dano hepático cresce de forma proporcional à quantidade de composto presente no organismo. Para cada aumento de um nanograma por mililitro de PCE detectado no sangue, as chances de fibrose hepática significativa aumentam cinco vezes.
A análise avaliou dados sanguíneos de pessoas com 20 anos ou mais coletados entre 2017 e 2020 nos Estados Unidos. Cerca de 7% dos participantes apresentaram níveis detectáveis da substância.
"Este estudo, o primeiro a examinar a associação entre os níveis de PCE em humanos e a fibrose hepática significativa, ressalta o papel subnotificado que os fatores ambientais podem desempenhar na saúde do fígado", afirmou Brian P. Lee, hepatologista da Keck Medicine e autor principal da pesquisa.
Por que pessoas sem histórico de risco são afetadas?
Os danos identificados nos participantes com PCE no organismo não tiveram relação com consumo de álcool, obesidade, colesterol elevado ou diabetes. O achado oferece uma explicação para diagnósticos de alterações hepáticas em pacientes que não apresentam os fatores clínicos habituais.
"Os pacientes perguntam: como posso ter doença hepática se não bebo e não tenho nenhuma das condições de saúde normalmente associadas à doença hepática? E a resposta pode ser a exposição ao PCE", destacou Brian P. Lee.
O levantamento também identificou maior índice de exposição em famílias de maior renda, grupo com maior frequência de uso de serviços comerciais de lavagem a seco.
Quais medidas de proteção estão em vigor?
A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer classifica o PCE como provável carcinógeno, com ligações documentadas a câncer de bexiga, linfoma não Hodgkin e mieloma múltiplo. A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos conduz um plano de dez anos para eliminação gradual do uso de PCE no setor de lavagem a seco.