Na Natividade de Nossa Senhora, Leandro Karnal analisou obras dos séculos XV a XIX que retratam Maria bebê imobilizada por faixas. O historiador explica que a prática refletia a crença de que os membros entortariam se ficassem soltos, além da conveniência de acalmar a criança. Porém, o hábito trazia graves riscos à saúde, como assaduras e infecções fatais pelo contato prolongado com fezes e urina, revelando na arte histórica uma perigosa pedagogia do corpo que custava vidas na primeira infância.
A Natividade de Nossa Senhora, celebrada em 8 de setembro, a recorda, para a tradição cristã, o nascimento de Maria. Neste ano, Leandro Karnal aproveitou a data para propor um olhar diferente sobre antigas representações da mãe de Jesus ainda bebê.
Em uma publicação nas redes sociais, o historiador destacou que obras produzidas entre os séculos XV e XIX preservaram mais do que elementos de devoção. Isso porque alguns detalhes também permitem observar costumes relacionados aos cuidados com crianças naquele período.
Por que Maria bebê aparece envolvida em faixas?
Nas imagens mencionadas por Karnal, um elemento chama atenção: o corpo da criança aparece envolvido de maneira que praticamente impede seus movimentos. A explicação está em uma antiga concepção sobre o desenvolvimento infantil.
"Acreditava-se que os membros do recém-nascido, ainda moles, entortariam se ficassem soltos", explicou o historiador.
A prática também tinha uma consequência conveniente para os responsáveis pelo bebê. "E, naturalmente, um bebê imobilizado incomodava menos os pais e os cuidadores", acrescentou.
Dessa forma, um detalhe que hoje pode parecer apenas parte da composição artística ajuda a revelar como determinadas ideias sobre o corpo infantil influenciavam os cuidados cotidianos.
Um costume que também trazia riscos
No entanto, conforme destacou o historiador, manter os recém-nascidos imobilizados por longos períodos poderia criar condições prejudiciais à saúde. Karnal chama atenção especialmente para o tempo que as crianças permaneciam presas às faixas.
"Horas a fio preso nas faixas, em contato prolongado com fezes e urina, o corpo infantil convivia com assaduras, acidentes domésticos", afirmou.
Naquele contexto, as ameaças à sobrevivência na primeira infância eram numerosas. Entre elas, Karnal destaca "as infecções e diarreias que respondiam pela maior parte das mortes na primeira infância".
Segundo Leandro Karnal, a arte preserva costumes
É justamente essa relação entre imagem e cotidiano que sustenta o apontamento do historiador, já que, ao observar como Maria bebê foi representada, é possível encontrar vestígios das ideias que diferentes sociedades tinham sobre os primeiros anos de vida.
Por isso, Karnal propõe uma leitura que vai além do caráter devocional dessas obras. "Mais do que devoção mariana, essas imagens guardam o registro de uma pedagogia do corpo que cobrava seu preço em vidas", concluiu.