O sucesso do gênero true crime gera debates sobre ética e impactos psicológicos. Enquanto produções responsáveis como O Caso Evandro auxiliam a combater injustiças, obras focadas no grotesco, como Dahmer, são criticadas por revitimizar familiares e despertar fascínio mórbido pelos agressores. Especialistas alertam que o consumo excessivo pode alimentar ansiedade e paranoia, mas explicam que a atração pelo tema decorre da catarse, curiosidade humana e mecanismos de enfrentamento do medo.
O true crime é um fenômeno de audiência em diversas mídias. Mas será que ele é ético?
Dahmer: Um Canibal Americano definitivamente foi um fenômeno. Lançado na Netflix em 2022 e estrelado por Evan Peters, a série criada por Ryan Murphy e Ian Brennan acumulou 11 indicações ao Globo de Ouro. As famílias das vítimas de Dahmer, contudo, criticaram duramente a forma como a produção tratou o caso. Elas sequer souberam do projeto antecipadamente e só descobriram a série quando os jornais entraram em contato pedindo comentários.
Para piorar, inicialmente a Netflix classificou a história como uma "obra LGBTQIA+", sendo que Dahmer assassinou, de forma brutal, 17 rapazes gays e bissexuais, a maioria não-brancos. Ainda que a empresa tenha removido a classificação após críticas, o assunto aqueceu um debate que já vinha ocorrendo: seria o gênero true crime antiético e uma exploração da dor e sofrimento em troca de dinheiro?
Não necessariamente
Uma obra de true crime, quando elaborada com sensibilidade, pode inclusive ajudar a trazer justiça. No Brasil, temos o excelente exemplo do podcast e documentário O Caso Evandro (2021). Criado pelo jornalista Ivan Mizanzuk e disponível no Globoplay, a produção reuniu provas que inocentaram os condenados injustamente pelo crime. Uma delas, Beatriz Abagge, chegou a incluir trechos da produção em seu pedido de revisão de pena. "O cuidado a ser tomado em produções de true crime tem muito a ver com a revitimização das famílias e vítimas, por exemplo. Ao serem forçados a constantemente reviver o trauma, isso pode prejudicar a elaboração dessa dor", explica a médica psiquiatra Ayodele Cajuella.
Leninha Wagner, doutora em psicologia e perita judicial, complementa: "O limite dessas adaptações deve estar na forma como o conteúdo é abordado. Quando a narrativa se concentra nos aspectos violentos ou grotescos, em vez de contextualizar os fatores sociais e psicológicos envolvidos, há uma tendência a dessensibilizar o espectador. Isso pode afastar a empatia pelas vítimas, gerando uma fascinação mórbida pelo agressor que desumaniza os envolvidos e prejudica a reflexão ética sobre o evento".
No caso de Dahmer, por exemplo, além de terem surgido "fantasias de Halloween" do assassino sendo vendidas em sites após o lançamento da série, a cantora Ariana Grande enfrentou uma chuva de críticas após admitir em entrevista sentir "vontade" de jantar com o assassino, ainda que ela tenha tentado contextualizar que queria entender como ele foi capaz de atitudes tão cruéis.
Consumir true crime faz mal?
De novo, depende. Leninha explica que, caso a pessoa já tenha tendência a transtornos de ansiedade, consumir demais conteúdos sobre crimes pode colaborar para uma sensação de alerta constante, o que, eventualmente, causaria prejuízos à saúde mental. "Na clínica, é comum ver indivíduos que se sentem constantemente inseguros devido à exposição repetida a esse tipo de conteúdo. Mesmo quando as estatísticas de criminalidade não justificam esse medo, a percepção de insegurança pode desencadear reações como o isolamento social e desconfiança excessiva, levando a problemas como ansiedade generalizada e pânico", adiciona.
Ayodele concorda. "Ficar exposto com muita frequência a conteúdos violentos pode aumentar a sensação de vigilância, como se o indivíduo estivesse o tempo todo submetido a uma ameaça. Isso pode ser adoecedor, aumentando sintomas ansiosos e sensação de medo constante", alerta a psiquiatra.
Afinal, por que somos obcecados por true crime?
Para o bem ou para o mal, o gênero se consolidou como um verdadeiro fenômeno nos últimos anos. A série sobre Dahmer na Netflix, por exemplo, alcançou um sucesso tão estrondoso que transformou o projeto em uma franquia de peso: a segunda temporada, lançada em 2024, abordou os crimes dos irmãos Menendez; a terceira, em 2025, focou em Ed Gein; e agora, em setembro, a produção estreia um novo capítulo focado em Lizzie Borden.
Segundo Leninha, o interesse por crimes bárbaros pode estar ligado à necessidade de entender comportamentos fora das normas sociais, como uma forma de proteger-se de potenciais ameaças. "O conteúdo de crimes desperta curiosidade e ativa mecanismos psicológicos de enfrentamento do medo, permitindo ao indivíduo vivenciar essas emoções em um ambiente seguro. Além disso, essa exposição controlada pode oferecer uma catarse, ajudando as pessoas a lidarem indiretamente com suas inseguranças", explica a doutora.
Ayodele concorda e ilustra ainda que, na verdade, o ser humano sempre teve tendência a querer saber mais sobre crimes bárbaros. "Antigamente existiam as execuções em praça pública e centenas de pessoas iam assistir, por exemplo. Eu apontaria dois aspectos importantes nesse contexto: um deles é o prazer em ver algum tipo de justiça sendo feita a quem comete violências, e o segundo é se diferenciar do 'mal' que é personificado no outro. Essa curiosidade e revolta diante de um comportamento desviante explica em parte por que tantas pessoas gostam de saber mais sobre crimes bárbaros", finaliza.