Meta enfrenta processo nos EUA devido ao suposto potencial viciante do Instagram e de outras plataformas. Ao mesmo tempo, muitos países cogitam proibir o uso de redes por menores. O que dizem os especialistas?O CEO da Meta, Mark Zuckerberg, enfrenta, nos Estados Unidos, um julgamento de grande repercussão perante um júri. Pais e uma demandante, hoje com 20 anos, acusam a Meta e o Google de terem projetado suas plataformas de maneira proposital para viciar crianças e adolescentes e, como resultado, causar problemas psicológicos.

Mark Zuckerberg compareceu a tribunal de Los Angeles para esclarecer sobre dependência de adolescentes nas redes sociais
Mark Zuckerberg compareceu a tribunal de Los Angeles para esclarecer sobre dependência de adolescentes nas redes sociais
Foto: DW / Deutsche Welle

As declarações de Zuckerberg sobre o potencial viciante das plataformas Instagram e YouTube ganham destaque em um momento em que cada vez mais países discutem ou já implementaram proibições ou restrições abrangentes ao uso de redes sociais por menores de idade.

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Uma análise das pesquisas científicas revela paralelos claros entre o uso intensivo de redes sociais e o consumo de drogas - e adiciona urgência ao debate em torno da proibição.

Em um recente artigo de discussão, a Academia Nacional de Ciências Leopoldina da Alemanha destaca que uma parcela significativa de jovens no país apresenta padrões de uso semelhantes aos de um vício, com sinais de perda de controle, negligência de outras atividades e sofrimento psicológico mensurável, como transtornos de ansiedade e depressão.

Alterações cerebrais causadas pelas redes

No entanto, o vício em redes sociais ainda não é reconhecido como um diagnóstico oficial na medicina. Isso ocorre porque, apesar das crescentes evidências, o corpo científico de pesquisas sobre alterações cerebrais causalmente relacionadas ao uso de redes sociais permanece limitado.

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O psicólogo e especialista em vícios, Prof. Dr. Christian Montag, ex-chefe do Departamento de Psicologia Molecular da Universidade de Ulm e Professor Emérito em Macau, alerta para a necessidade de diferenciação. "O vício em redes sociais ainda não é um diagnóstico reconhecido pela medicina. Ainda faltam estudos de imagem abrangentes que comprovem analogias reais com a dependência da heroína. Uma comparação direta com a heroína cria mais pânico moral do que faz justiça à complexidade da questão."

"Na verdade, existe o risco de que os critérios de diagnósticos da área de dependências relacionadas a substâncias levem à patologização de comportamentos cotidianos, uma vez que as redes sociais se tornaram tão comuns. Portanto, são necessários critérios claros e específicos que realmente distingam o comportamento prejudicial do uso normal da internet", afirma Montag.

Vício em redes também atinge adultos

Se os hábitos normais de uso de smartphones por jovens forem prematuramente declarados como vício, ou seja, "patologizados", como afirma Montag, então o mesmo deveria se aplicar aos adultos, afinal, muitos deles também passam tempo considerável em seus smartphones todos os dias. Uma proibição, portanto, mascararia os problemas em vez de resolvê-los.

Além disso, os jovens perderiam a oportunidade de usar as mídias digitais de forma responsável, porque a alfabetização midiática estaria impedida de ser praticada no dia a dia.

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Até o momento, a ciência não conseguiu comprovar uma relação causal entre o uso de redes sociais por crianças e alterações cerebrais. Será que a mudança observada é realmente atribuível às redes ou teria outras causas? Fatores socioeconômicos, ambiente familiar, problemas de saúde mental preexistentes, privação de sono, falta de exercícios físicos e traços de personalidade individuais podem gerar interferências e levar a conclusões erradas.

Muitas pesquisas sobre o uso de redes sociais são baseadas em dados autodeclarados de crianças e pais, que podem estar sujeitos a erros, distorções e problemas de memória. Estudos de imagem que utilizam técnicas como a ressonância magnética também costumam ser correlacionais e não garantem que as alterações cerebrais medidas sejam de fato causadas pelo consumo de redes sociais.

Risco maior para crianças com TDAH

No entanto, o fato de uma relação causal ainda não ter sido comprovada conclusivamente não significa que ela não exista. Diversos estudos já indicam que as redes sociais podem afetar o cérebro dos jovens de forma semelhante às drogas. Com o uso intensivo, a área do cérebro responsável pelas sensações de felicidade e recompensa - o chamado sistema dopaminérgico - é ativada. Em particular, regiões cerebrais importantes como o corpo estriado, a amígdala, a ínsula e o córtex cingulado anterior são alteradas - áreas onde também são encontradas anormalidades em casos de dependência química.

Adolescentes com problemas de atenção, como o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), estão especialmente em risco. O uso intensivo de redes sociais pode agravar esses problemas.

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Alterações em certas regiões cerebrais também foram parcialmente detectadas por meio de ressonância magnética. Em particular, o volume de massa cinzenta diminui em áreas importantes para o controle e as emoções. Alterações semelhantes também são encontradas em pessoas viciadas em drogas como a heroína.

Perda de controle semelhante à dependência química

Além disso, estudos mostram, em alguns casos, processos semelhantes à dependência em adolescentes com uso constante de redes sociais. Com o tempo, eles experimentam cada vez menos "sentimentos de felicidade" com novas curtidas ou mensagens. O cérebro se torna dessensibilizado e anseia por cada vez mais estímulos, como é característico da dependência.

O especialista Montag também vê uma forte influência das redes sociais no cérebro adolescente. "Os aplicativos de redes sociais exercem, sem dúvida, uma forte atração sobre usuários muito jovens. Curtidas, comentários e recompensas algorítmicas desencadeiam processos viciantes em jovens, intensificados pelo fato de sua autorregulação ainda estar em desenvolvimento."

Os que utilizam redes sociais constantemente podem perder o controle, buscando incessantemente novos conteúdos e negligenciando outros aspectos da vida diária. Quando seus celulares são confiscados, frequentemente experimentam inquietação ou até mesmo pânico, que são sintomas semelhantes aos de abstinência. As consequências podem incluir problemas de sono, além de ansiedade e depressão.

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Dilema entre vício e liberdade

A discussão iniciada no Bundestag (Parlamento alemão) pelo líder da bancada do partido conservador União Democrata Cristã (CDU), Jens Spahn, é, portanto, totalmente justificada em termos científicos e extremamente relevante. Mas se a proibição das redes sociais para menores de 16 anos é a abordagem correta, isso continua sendo uma questão sociopolítica que deve continuar sendo debatida.

Ao analisarmos a situação legal, fica claro que uma proibição é atualmente pouco viável, tanto política quanto juridicamente. A Lei de Serviços Digitais da União Europeia (UE) restringe severamente as ações nacionais unilaterais. Uma proibição das redes sociais para jovens infringiria direitos fundamentais, além de não ser tecnicamente controlável nem pedagogicamente justificável.

A Academia Leopoldina também rejeita uma proibição geral das redes sociais para menores de 16 anos. Em vez disso, a instituição defende um princípio de precaução, que exige medidas de prevenção e proteção enquanto existirem incertezas científicas.

Especificamente, a Leopoldina recomenda uma verificação mais rigorosa da idade digital, restrições dependentes da idade e supervisão parental até pelo menos os 15 anos, além de uma melhor educação mediática e o fomento a competências digitais nas escolas e na sociedade.

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