No Brasil, o Carnaval chega a partir de Portugal com o chamado Entrudo, uma brincadeira em que pessoas arremessavam água, laranjas e outros objetos umas nas outras nas ruas. Ao longo do período colonial e imperial, a prática foi se misturando às influências africanas e dando origem aos ritmos brasileiros. Assim nasce a festividade com instrumentos, marchinhas de Chiquinha Gonzaga, samba e, mais tarde, as escolas de samba.
Do ponto de vista etimológico, costuma-se associar a palavra ao latim carnivale, interpretado como "adeus à carne", em referência ao período da Quaresma. Ainda que essa etimologia seja discutida, ela abre espaço a uma reflexão mais profunda, que não diz respeito apenas ao alimento, mas aos prazeres carnais em geral, que encontram nesse período um tempo de liberação e catarse antes da contenção quaresmal.
Entretanto, o carnaval tem origens simbólicas antigas. Sempre houve festividades ligadas ao encerramento de ciclos, especialmente associadas à fertilidade e à chegada da Primavera. Após o Inverno, tempo de recolhimento e proximidade simbólica com a morte, celebrava-se a vida que retornava. No Egito Antigo, no templo de Hórus, por exemplo, havia cortejos sagrados ligados à natureza e ao renascimento. Não havia ali desordem ou grotesco, mas consagração e reverência à vida.
Já na tradição greco-romana surgem elementos mais próximos do carnaval atual. As festas dionisíacas, celebradas na Grécia e depois em Roma como bacanais e saturnálias, envolviam embriaguez, inversão da ordem social, máscaras e ruptura de normas. O objetivo simbólico era permitir que o homem fosse "possuído pelo deus", transcendendo a vida comum. Contudo, quando não há caminhos para que o elemento espiritual se manifeste, essa ruptura tende a liberar apenas a animalidade reprimida.
É nesse contexto que surge a ideia de catarse, uma liberação controlada das tensões psíquicas e instintivas, para evitar que elas transbordem de forma destrutiva ao longo do ciclo social. Na medicina, o termo "catártico" refere-se à purificação do corpo, no carnaval, essa purificação seria simbólica, ligada à psique humana.
Mas seria possível uma moral que não apenas reprima, mas transmute os instintos? Essa reflexão aparece nos festivais medievais, nos quais a máscara grotesca ridicularizava o cotidiano "normal", denunciando sua hipocrisia. O carnaval expunha uma moral que oculta, mas não transforma. Reprime por medo, mas não orienta a energia vital para algo mais elevado. Desta forma, cria-se apenas uma aparência de virtude, uma máscara, que o carnaval faz questão de satirizar.
Celebrar o carnaval não é um problema, pois a festa é uma expressão humana. O convite é mais sutil, refletir se nossas regras nos tornam realmente mais humanos ou apenas mais domesticados, se usamos máscaras por consciência ou por hipocrisia. Talvez o verdadeiro sentido do carnaval esteja em nos ajudar a retirar essas máscaras, não só por alguns dias, mas também no tempo comum da vida.