Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires
Esta não é a primeira vez que estão em jogo modelos diferentes na Colômbia, mas é a primeira em que as propostas são antagônicas ao extremo do espectro ideológico, com reformas que podem colocar as instituições democráticas à prova.
"Mas é também uma oportunidade para as instituições democráticas demonstrarem sua capacidade de moderar esses pacotes de reformas. O atual Congresso, eleito há três meses, está fragmentado, dificultando a aprovação de iniciativas de risco. Também a Justiça tem seu peso para impedir determinados excessos", afirma à RFI Humberto Librado, diretor do Departamento de Ciência Política da Universidade Javeriana de Bogotá.
Para o cientista político, a presença de projetos tão divergentes trouxe à discussão pública temas que antes não eram debatidos, como a agenda conservadora pró-família, os grupos armados ilegais, a imigração, a defesa da pátria, a reforma constitucional e os direitos indígenas.
"Vemos claramente certos temas que antes não eram abordados por serem considerados tabu. O debate na Colômbia sempre foi moderado. Agora, esses assuntos são muito mais visíveis, marcando a posição de cada campo político. Essa é uma diferença desta eleição", aponta Librado.
De um lado, o ultraliberal Abelardo de la Espriella, de 47 anos, advogado criminalista e empresário que fundou o partido Defensores da Pátria há apenas um ano, propõe um programa de ajuste fiscal, desregulamentação econômica e "linha dura" contra o tráfico de drogas e a corrupção.
Espriella utiliza um discurso semelhante ao de líderes como o norte-americano Donald Trump, o argentino Javier Milei e o salvadorenho Nayib Bukele, combinando ajuste fiscal, valores conservadores e "mão de ferro" contra o crime. Ele afirma que esta eleição é a batalha dos "nunca" (os que nunca tiveram chances) contra os "de sempre".
Em resumo, nos próximos quatro anos, Espriella quer um Estado 25% menor do que o atual.
Já o senador e filósofo Iván Cepeda, de 63 anos, integra o esquerdista Pacto Histórico, do atual presidente Gustavo Petro, responsável pelo primeiro governo de esquerda da Colômbia. Ele propõe reformas sociais, redistribuição de terras, programas para jovens e o combate à corrupção e ao tráfico de drogas com políticas de prevenção e inteligência.
Cepeda foi um dos artífices do Acordo de Paz com os guerrilheiros, assinado em 2016. Ele quer rever os tratados de livre-comércio firmados pela Colômbia, especialmente com os Estados Unidos, para proteger a produção nacional. Em síntese, defende um Estado com papel estratégico na economia.
Abelardo de la Espriella surpreendeu há três semanas ao vencer o primeiro turno com 43,7% dos votos, cerca de 660 mil votos a mais do que Iván Cepeda, que obteve 40,9%.
Vantagem para Espriella
Das últimas cinco pesquisas, quatro apontam para a vitória do candidato da extrema direita. Apenas uma indica que Iván Cepeda tem uma vantagem de alguns décimos, dentro da margem de erro, caracterizando um empate técnico.
A empresa de consultoria Celag Data aponta para uma vitória de Iván Cepeda com 40,8%, enquanto Abelardo de la Espriella apareceria logo atrás, com 39,7%. Apenas 1,1 ponto percentual de diferença, enquanto os votos brancos e nulos somariam 7,6%.
Todas as demais pesquisas preveem vitória de Espriella. A consultoria CB é a que atribui a menor vantagem ao candidato da extrema direita: cinco pontos percentuais. Já o instituto brasileiro de opinião pública AtlasIntel é o que aponta a maior vantagem para Espriella, com oito pontos de diferença. Ele obteria 52,4% dos votos válidos, enquanto Iván Cepeda ficaria com 44,4%.
Há três semanas, no primeiro turno, todas as pesquisas indicavam a vitória de Iván Cepeda, o que não se confirmou.
Linha dura x estratégia
Espriella afirma que vai destruir 330 mil hectares de coca, desmontar as milícias e criar um órgão de combate à corrupção comandado pelo próprio presidente, o que significa que ele dificilmente será investigado.
Entre as propostas mais chamativas para combater a sonegação, ele pretende extinguir o órgão de controle de impostos e alfândega, substituindo-o por sistemas de inteligência artificial. Para enfrentar o crime, promete seguir o modelo do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, construindo dez penitenciárias e combatendo os grupos armados com operações militares.
Iván Cepeda também propõe criar uma unidade de investigação contra a corrupção. Em relação ao combate ao crime organizado e ao conflito armado, prefere investir na prevenção para impedir que jovens sejam recrutados por grupos armados e combater as economias ilegais que alimentam o tráfico de drogas.
O candidato da esquerda aposta no diálogo para incluir a guerrilha do Exército de Libertação Nacional no Acordo de Paz, do qual participam, desde 2016, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).
Impacto regional
Uma das principais diferenças entre os dois candidatos está na política externa. Espriella avisou que vai restabelecer as relações diplomáticas com Israel, rompidas há dois anos por Gustavo Petro devido aos ataques à Faixa de Gaza. Ele também pretende transferir a Embaixada da Colômbia de Tel Aviv para Jerusalém, seguindo os passos de Donald Trump.
Já Iván Cepeda rejeita qualquer tipo de intervenção militar estrangeira, como a defendida por Trump para a Venezuela, e aposta na integração latino-americana, tendo o presidente Lula como aliado estratégico.
O cientista político Humberto Librado entende que quem vencer a eleição na Colômbia terá peso regional, posicionando-se a favor ou contra Lula nas eleições brasileiras. Para ele, Cepeda poderá ser uma peça regional importante para Lula, enquanto Espriella poderá desempenhar papel semelhante para Flávio Bolsonaro.
"Há uma identificação entre os projetos progressistas dos presidentes Gustavo Petro e Lula. Em vários momentos de crise na Venezuela, Petro e Lula se aproximaram. Mas esses projetos progressistas fracassaram na leitura da direita. Assim, o que acontece na Venezuela ou em Cuba também é associado a Petro e a Lula dentro dessa narrativa", avalia o especialista.
"A vitória de um candidato reforça os eleitores que têm essa tendência ideológica. E, quando o discurso tem um caráter regional, ganha projeção. Em sociedades muito divididas como as nossas, essas vitórias fortalecem nos cidadãos a disposição de votar em determinado projeto político", observa.
A eleição na Colômbia, portanto, pode consolidar um bloco cada vez maior de países alinhados à extrema direita, formando uma aliança regional com Donald Trump, nos Estados Unidos, Javier Milei, na Argentina, José Antonio Kast, no Chile, Keiko Fujimori, no Peru, e Daniel Noboa, no Equador.
"Se a extrema direita vencer, como indicam as pesquisas, haverá uma consolidação regional dessa tendência. Vemos uma aposta regional nessa linha, na qual a Colômbia passaria a ser um ator relevante. O alinhamento regional, em uma espécie de cruzada pelas ideias conservadoras e pela liberalização da economia, ficará muito mais evidente no mapa político da região", afirma Humberto Librado.
Javier Milei manifestou publicamente seu apoio a Abelardo de la Espriella, com quem conversou nesta semana. A interferência política de integrantes do governo dos Estados Unidos nas eleições colombianas levou mais de 20 legisladores norte-americanos a publicar cartas questionando a legalidade do apoio explícito de Trump ao candidato da extrema direita.
Política em plena Copa do Mundo
A exemplo do que o ex-presidente Jair Bolsonaro fazia ao usar a camisa da seleção brasileira como símbolo político, Espriella passou toda a campanha vestindo a camisa da seleção colombiana. A questão chegou aos tribunais, e uma decisão judicial permitiu que ele continuasse utilizando o uniforme.
Depois disso, já neste segundo turno, Iván Cepeda também passou a vestir a camisa amarela da seleção colombiana de futebol.
"Em um país apaixonado por futebol, Abelardo de la Espriella utilizou a camisa da seleção como forma de exaltar valores patrióticos. Incluiu atletas e famílias ligadas ao futebol colombiano. Procurou mobilizar o eleitorado por meio das emoções", interpreta Librado.
Nesta semana, quando os comícios estavam proibidos, os candidatos encontraram uma forma de convocar militantes e eleitores. Na quarta-feira (17), Cepeda promoveu um "bandeiraço", aproveitando a estreia da Colômbia na Copa do Mundo. Os apoiadores se reuniram para supostamente torcer pela seleção, mas acabaram fazendo campanha para o candidato.
Para não ficar de fora da iniciativa, na quinta-feira (18), Espriella também promoveu um "bandeiraço" para supostamente comemorar a vitória da seleção colombiana, mas, na prática, também fez campanha.
"As vitórias no futebol exacerbaram os sentimentos nacionalistas, atingindo seu ponto máximo durante a Copa do Mundo. É uma tentação para a política capitalizar esse sentimento. E uma campanha realizada em meio a um Mundial é o cenário perfeito para fundir futebol e política", conclui Humberto Librado.