América do Sul vira 'novo eldorado do petróleo' como alternativa viável em meio à crise no Golfo

A guerra no Oriente Médio e o bloqueio do estreito de Ormuz recolocaram a América do Sul no centro do mapa energético global, com países como Brasil, Argentina e Guiana emergindo como fornecedores relevantes em um momento de busca por alternativas ao petróleo do Golfo. Reportagem do jornal francês Les Echos, publicada nesta sexta-feira (15), aponta que a região vive um novo ciclo de valorização, impulsionado pela instabilidade geopolítica e pela elevação dos preços internacionais.

15 mai 2026 - 08h21

Segundo o diário, o bloqueio da principal rota mundial de escoamento de petróleo levou a uma disparada do preço do Brent, principal referência internacional do preço da commodity, que saiu de cerca de US$ 65 para mais de US$ 100 por barril em apenas três meses. O choque expôs a vulnerabilidade da oferta global e empurrou governos a diversificar fornecedores.

Uma plataforma da Petrobras no Rio de Janeiro.
Uma plataforma da Petrobras no Rio de Janeiro.
Foto: REUTERS/Bruno Domingos / RFI

Nesse cenário, países como Brasil, Argentina e até a Venezuela passaram a ser vistos como opções mais seguras, tanto do ponto de vista geopolítico quanto produtivo. A mudança já se reflete em decisões concretas: o Japão indicou que pode ampliar compras de petróleo latino-americano, enquanto a Coreia do Sul negocia com produtores da região, incluindo Brasil e México.

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A reportagem ressalta que o movimento não ocorre por acaso. Projeções indicam que a produção de petróleo da América do Sul deve crescer de forma expressiva até o fim da década, colocando a região entre as principais responsáveis pela expansão da oferta global. 

Nesse novo mapa energético, o Brasil aparece como peça central. O país já é o maior produtor da região e vem acelerando sua capacidade, impulsionado pelo pré-sal. De acordo com Les Echos, a produção brasileira cresceu 14,6% entre 2025 e 2026 e atingiu, em fevereiro, um recorde de 5,3 milhões de barris por dia, um patamar que consolida sua relevância internacional. O petróleo também se consolidou como principal item de exportação brasileira, ampliando o peso do setor na balança comercial e na estratégia econômica do país. 

Os números do protagonismo sul-americano

As projeções para os próximos anos reforçam esse protagonismo. Estimativas apontam que a produção de petróleo na América do Sul deve passar de 7,4 milhões para 9,6 milhões de barris por dia até 2030, ritmo considerado um dos mais acelerados do mundo. Segundo dados da consultoria Rystad Energy citados pelo Les Echos, a região pode responder por cerca de 44% do crescimento global da oferta no período, posicionando-se como uma das principais fontes de expansão fora da Opep. 

O avanço brasileiro se concentra sobretudo nas bacias de Campos e Santos, responsáveis por grande parte da produção. A combinação de tecnologia em águas profundas e investimentos contínuos da Petrobras tem permitido ganhos de produtividade e redução de custos, fatores que tornam o petróleo do país competitivo mesmo em cenários de volatilidade.

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Além do Brasil, outros polos ganham relevância. A Guiana, com novos campos em operação, e o Suriname, ainda em fase de desenvolvimento, são apontados como fronteiras promissoras. A Argentina, com a exploração de petróleo não convencional em Vaca Muerta, também aparece como vetor de crescimento. Até a Venezuela, apesar das limitações estruturais, volta a ser considerada no médio prazo como potencial fonte adicional de oferta.

Aposta na diversificação de fornecedores

Para especialistas, o ponto central não é a substituição de uma região por outra, mas a construção de um sistema mais diversificado. Ainda assim, há limites claros. Mesmo com crescimento acelerado, a produção da América do Sul está longe de compensar, no curto prazo, eventuais interrupções prolongadas no fluxo do Golfo. A escala das exportações que passam por Ormuz permanece incomparável, o que garante ao Oriente Médio um papel central no mercado global.

O que muda, portanto, é a correlação de forças. A combinação entre crise geopolítica, expansão produtiva e demanda por segurança energética projeta a América do Sul, e especialmente o Brasil, como peça cada vez mais relevante em um sistema que busca reduzir riscos sem abrir mão do fornecimento.

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