Venezuela exuma restos de preso político morto sob custódia após meses de silêncio oficial

O Ministério Público da Venezuela iniciou nesta sexta-feira (8) a exumação dos restos mortais de Víctor Hugo Quero Navas, menos de 24 horas após o governo reconhecer oficialmente a morte do preso político, ocorrida em julho de 2025, enquanto ele estava sob custódia do Estado.

8 mai 2026 - 16h12

A medida foi ordenada pela Procuradoria-Geral da República e faz parte de uma investigação penal aberta para esclarecer as circunstâncias da morte. Peritos da Direção-Geral de Apoio às Investigações Criminais conduzem o procedimento de acordo com o Código de Processo Penal, com apoio de agentes do Corpo de Investigações Científicas, Criminais e Forenses (CICPC).

Peritos forenses exumam o corpo do preso político Victor Navas no cemitério Parque Jardin La Puerta, em Caracas, em 8 de maio de 2026.
Peritos forenses exumam o corpo do preso político Victor Navas no cemitério Parque Jardin La Puerta, em Caracas, em 8 de maio de 2026.
Foto: AFP - STRINGER / RFI

A exumação ocorre no cemitério Jardín La Puerta, no município de Baruta. Quero Navas estava detido desde 3 de janeiro de 2025 no Centro Penitenciário Rodeo I e morreu em 24 de julho do mesmo ano no Hospital Militar Dr. Carlos Arvelo, em Caracas, segundo informações oficiais. Durante mais de um ano, seu paradeiro foi desconhecido, conforme denunciou a família.

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No local do enterro, há poucos indícios da sepultura: um punhado de pedras e uma chapa de ferro enferrujada cravada em um terreno vazio. Em letras impressas em computador, aparece o nome completo de Quero Navas ao lado do de uma mulher. A data registrada no local indica 27 de julho de 2025, três dias após a data oficial do óbito informada pelo governo.

Reconhecimento da morte

Na quinta-feira (7), o governo venezuelano reconheceu a morte de Quero Navas, nove meses após o falecimento e depois de mais de um ano de denúncias de desaparecimento forçado. O preso político, de 51 anos, havia sido excluído da anistia impulsionada pela presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, de acordo com sua defesa.

A mãe de Quero Navas, Carmen Navas, de 81 anos, passou meses buscando informações sobre o filho sem sucesso. Na tarde de quinta-feira, ela foi levada por autoridades ao local do sepultamento, onde depositou flores e pediu a realização de um exame de DNA para confirmar a identidade do corpo.

Em comunicado, o Ministério de Serviços Penitenciários afirmou que Quero Navas faleceu "por insuficiência respiratória", após ser transferido ao hospital com quadro de hemorragia digestiva superior e síndrome febril aguda. O Ministério Público anunciou, na mesma nota, o início formal de uma investigação penal e determinou a exumação "com prontidão".

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Ainda segundo o Ministério de Serviços Penitenciários, Quero "não forneceu dados sobre filiação" e "nenhum familiar se apresentou para solicitar visita formal", razão pela qual teria sido sepultado em 30 de julho de 2025, "em cumprimento aos protocolos legais".

A justificativa é rejeitada por organizações de defesa dos direitos humanos. "É um caso gravíssimo", afirmou à AFP Alfredo Romero, diretor da ONG Foro Penal. "O próprio comunicado oficial é indignante. Diz que ninguém o procurou, quando a mãe passava meses buscando informações e ninguém lhe dizia nada", declarou.

O advogado e ex-preso político Eduardo Torres classificou o caso como desaparecimento forçado seguido de violação do direito à vida, o que, segundo ele, configura crime contra a humanidade. "Infelizmente, ele já estava morto, como vários companheiros de prisão nos haviam relatado", disse.

Desaparecimentos forçados

Organizações de direitos humanos denunciam há anos práticas de desaparecimento forçado na Venezuela. Em janeiro, semanas após a captura do então presidente Nicolás Maduro por forças americanas, ativistas afirmaram que cerca de 200 pessoas se encontravam nessa situação no país.

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"Isto não é apenas uma tragédia; é um crime contra a humanidade executado com impunidade absoluta", afirmou a líder opositora e Prêmio Nobel da Paz venezuelana María Corina Machado, em mensagem publicada na rede social X.

Após a captura de Maduro, o governo interino promoveu uma lei de anistia para presos políticos. Desde janeiro, segundo o Foro Penal, 776 detentos foram libertados, sendo 186 após a promulgação da lei, em fevereiro.

De acordo com a mesma fonte, 19 presos políticos morreram sob custódia do Estado venezuelano desde 2014. No fim de abril, a ONG contabilizava 454 presos políticos no país.

(Com AFP)

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