Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires
Após 11 dias fechada, sala de imprensa da Casa Rosada voltou a ser reaberta pelo presidente Javier Milei, com a retomada do acesso de jornalistas à sede do governo argentino. Durante o período, as credenciais de cerca de 60 profissionais foram suspensas. A liberação, no entanto, ocorreu sob fortes restrições, com circulação limitada e acesso reduzido às fontes oficiais.
"Comunicamos que o seu credenciamento anual para a entrada à Casa Rosada foi aprovado", informou o governo aos jornalistas proibidos de entrar na sede do governo desde o dia 23 de abril.
"O credenciamento concedido habilita os profissionais da comunicação e representantes dos órgãos à sala de imprensa, à sala de conferências e aos demais salões onde houver atividades para as quais forem convidados", esclarece a nova regra, que limita o movimento de jornalistas pelo palácio.
A partir de agora, os profissionais de imprensa ficam proibidos de circular pelos corredores e de ter acesso às salas onde ficam as fontes de informação. Eles não podem permanecer no chamado "Pátio das Palmeiras", área central da Casa Rosada de onde se pode observar o movimento de assessores, secretários e ministros.
A sala de imprensa, localizada no primeiro andar do edifício e com vista para o pátio interno, passou por alterações para limitar a atuação dos jornalistas. Um vidro fosco foi instalado para impedir a visão da circulação de servidores públicos. Além disso, a porta de acesso ao local foi definitivamente fechada. Nos últimos meses, a passagem já vinha sendo bloqueada sempre que o presidente Javier Milei entrava ou saía do palácio. Três salões que antes eram acessíveis à imprensa já haviam sido interditados.
Restrições inéditas
"Desde o primeiro dia, este governo abriu as portas ao jornalismo. Sob nenhum outro governo, os jornalistas tiveram tanta liberdade para dizer o que quisessem, quando e onde quisessem. Somos o governo que mais impulsionou a liberdade de imprensa", afirmou nesta segunda-feira, dia 4, Manuel Adorni, chefe do gabinete de ministros e porta-voz do presidente Javier Milei.
Apesar da declaração, nunca antes um governo democrático havia proibido o acesso da imprensa à Casa Rosada nem restringido a circulação de jornalistas dentro do palácio presidencial.
Na história argentina, a sala de imprensa permaneceu fechada apenas por alguns dias logo após o golpe militar de 24 de março de 1976. Mesmo o então ditador Jorge Videla concedia entrevistas coletivas, algo que Javier Milei ainda não fez em dois anos e meio de governo.
O próprio Manuel Adorni havia interrompido as coletivas de imprensa em 25 de março, após uma série de reportagens investigativas que resultaram em denúncias de corrupção. As entrevistas conduzidas pelo principal porta-voz do governo Milei sempre foram marcadas por ironias e deboches dirigidos aos jornalistas presentes.
Desde então, os profissionais passaram a entrar na Casa Rosada por uma porta lateral, enquanto antes utilizavam a entrada principal. Eles são submetidos a revistas manuais, escâneres e detectores de metais, em um procedimento endurecido sob a justificativa da "segurança nacional".
Há um ano, o governo Milei já havia endurecido as exigências para o credenciamento de jornalistas, o que deixou de fora da cobertura diversos profissionais e veículos de menor porte.
"Depois de uma semana de avaliação, foi adotado um novo protocolo. Isto não é ameaçar o jornalismo. Não é ameaçar a liberdade de expressão. Estamos a favor da liberdade de imprensa. Tudo é a favor da segurança do presidente e do cuidado da Casa de Governo", afirmou Manuel Adorni.
Fúria contra imprensa
O argumento utilizado pelo governo para fechar a sala de imprensa foi uma gravação classificada como "clandestina". Um jornalista do canal TN, o principal canal de notícias do país, gravou imagens do interior da Casa Rosada com óculos equipados com câmera.
Segundo o governo, as imagens colocariam em risco a segurança do presidente. O canal foi denunciado criminalmente sob acusação de "espionagem ilegal". A emissora entregou todo o material gravado e afirmou que apenas áreas comuns foram filmadas. As imagens divulgadas são semelhantes às registradas por visitantes em visitas guiadas ao palácio e às disponíveis no Google Street View.
A decisão de suspender as credenciais dos 60 jornalistas autorizados a cobrir a Casa Rosada provocou repúdio generalizado de entidades do jornalismo, veículos de comunicação, lideranças da oposição, câmaras empresariais, organizações da sociedade civil e até da Conferência Episcopal Argentina.
Recorde de ataques
Paralelamente, o presidente Javier Milei intensificou ataques diários à imprensa em redes sociais e discursos públicos, frequentemente citando jornalistas pelo nome.
"Lixos imundos", "lixos repugnantes", "corruptos", "delinquentes" e "ladrões" estão entre os insultos proferidos pelo presidente, que acusa "95% dos jornalistas" de receber subornos. "Não odiamos os jornalistas o suficiente" é uma frase repetida com frequência por Milei.
Na semana passada, o Foro de Jornalismo Argentino, o FOPEA, divulgou seu relatório anual de Monitoramento da Liberdade de Expressão, que registrou 278 ataques contra jornalistas ao longo de 2025, um aumento de 55% em relação a 2024. Foi o maior número desde o início do levantamento, em 2008.
Assim como no ano anterior, Javier Milei foi identificado como o principal agressor, responsável por 119 ataques.
No ambiente digital, o crescimento da violência estatal ou paraestatal foi de 137,6%.
"A presença da imprensa é insubstituível. Se eventualmente houver uma suposta 'má prática' jornalística, ela deve ser investigada. De nenhuma maneira pode haver uma sanção coletiva. O único responsável por garantir a liberdade de expressão é o governo. O que está sendo feito é um bloqueio físico e um apagão informativo na Casa Rosada", afirmou o presidente do FOPEA, Fernando Stanich.
Em 2025, foram registrados 20 processos judiciais contra jornalistas, número recorde desde o retorno da democracia. O levantamento também aponta 28 restrições de acesso à informação, dez casos de censura, quatro ataques a bens de jornalistas ou de veículos de comunicação e quatro episódios de abuso de poder estatal, incluindo prisões ilegais e ações excessivas das forças de segurança.
No livro O insulto como estratégia, lançado pelo FOPEA, foram analisadas 113.649 publicações feitas por Milei na rede X entre 10 de dezembro de 2023, data de sua posse, e 15 de setembro de 2025.
Desse total, 16.806 publicações, o equivalente a 15,2%, contêm conteúdo ofensivo. O presidente publicou em média 406 mensagens por dia, sendo cerca de 60 com insultos, muitas delas em momentos de anúncios econômicos relevantes. Setenta por cento das mensagens ofensivas tiveram como alvo 44 jornalistas.