Alemanha cobra reforço de segurança da Otan após EUA anunciarem retirada de tropas do país

A Alemanha reagiu neste sábado (2) ao anúncio dos Estados Unidos de retirar cerca de 5.000 soldados do país dentro de um ano, afirmando que a Europa precisa assumir mais responsabilidades por sua própria segurança. A decisão, tomada em meio às tensões entre Washington e aliados europeus por causa da guerra no Irã, levou a Otan a pedir esclarecimentos ao governo norte‑americano.

2 mai 2026 - 11h12

O Pentágono estima concluir a redução de tropas em até doze meses, enquanto Berlim alerta para riscos à estabilidade regional.

Imagem de arquivo mostra um helicóptero de ataque AH‑64 Apache posicionado diante de um avião de transporte C‑5 Galaxy na Base Aérea dos EUA em Ramstein, no oeste da Alemanha, em 22 de fevereiro de 2017.
Imagem de arquivo mostra um helicóptero de ataque AH‑64 Apache posicionado diante de um avião de transporte C‑5 Galaxy na Base Aérea dos EUA em Ramstein, no oeste da Alemanha, em 22 de fevereiro de 2017.
Foto: AFP - MARTIN GOLDHAHN / RFI

Berlim tomou conhecimento da medida neste sábado e reagiu pedindo que a Europa fortaleça sua própria segurança, enquanto a Otan afirmou que vai dialogar com Washington para "compreender melhor" a decisão.

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O ministro alemão da Defesa, Boris Pistorius, afirmou que a saída de tropas dos Estados Unidos da Europa "já era esperada", em comentário enviado à AFP por seu ministério. Para ele, o anúncio reforça a necessidade de que "os europeus assumam mais responsabilidades" pela própria defesa.

A decisão ocorre em um momento de tensão entre Washington e Berlim. Donald Trump havia expressado seu descontentamento com o chanceler alemão por causa da guerra no Irã, ampliando o atrito político entre os dois países.

Com os esforços diplomáticos paralisados, o presidente norte‑americano tem criticado aliados europeus, acusando‑os de falta de apoio à ofensiva lançada no fim de fevereiro contra a República Islâmica. Esse desgaste transatlântico serve de pano de fundo para a retirada militar anunciada.

Retirada de tropas e incertezas estratégicas

A Otan afirmou que está "trabalhando" com os Estados Unidos para "compreender melhor" a decisão de retirar parte das tropas estacionadas na Alemanha. Washington prevê reduzir em cerca de 15% o contingente atual de 36.000 soldados, operação que o Pentágono estima concluir "nos próximos seis a doze meses", segundo o porta‑voz Sean Parnell.

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O anúncio veio após críticas do chanceler Friedrich Merz, que declarou que "os norte‑americanos aparentemente não têm nenhuma estratégia" no Irã e que Teerã "humilhava" os Estados Unidos.

Trump respondeu dizendo que Merz "não sabe do que está falando" e insinuou que o chanceler seria complacente com a possibilidade de o Irã obter armas nucleares.

Sem confrontar diretamente o presidente norte‑americano, Merz pediu na quinta‑feira "uma parceria transatlântica confiável", sinalizando preocupação com o rumo da relação bilateral.

Trump ameaça tarifas sobre carros europeus

Na sexta‑feira, Trump ampliou a pressão sobre a Alemanha ao anunciar que pretende elevar para 25% "na próxima semana" as tarifas sobre veículos importados da União Europeia. A medida atinge diretamente a indústria automobilística alemã, um dos pilares econômicos do país.

O presidente norte‑americano acusa a UE de não cumprir o acordo comercial firmado no verão passado, embora o processo de validação ainda não tenha sido concluído pelos 27 países do bloco. A delegação europeia em Washington respondeu que está "implementando os compromissos assumidos" e mantendo o governo dos EUA informado sobre cada etapa.

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A UE advertiu que, se Washington descumprir sua parte, "todas as opções permanecerão abertas" para proteger os interesses europeus.

Impacto econômico e risco de escalada comercial

A presidente do lobby automobilístico alemão (VDA), Hildegard Müller, afirmou que tarifas adicionais trariam "custos enormes" para a indústria alemã e europeia, já pressionada por condições econômicas difíceis. Ela pediu "desescalada urgente" e a abertura imediata de negociações entre EUA e UE.

A reação do setor reflete o temor de que a disputa comercial se some à tensão militar, ampliando a instabilidade entre parceiros que historicamente sustentam a arquitetura de segurança e comércio do Atlântico Norte.

Presença militar dos EUA segue central para a Europa

Desde o fim da Guerra Fria, a presença militar norte‑americana na Alemanha diminuiu, mas continua sendo um elemento central da defesa europeia, especialmente após a invasão russa da Ucrânia. Além do papel estratégico, as bases norte‑americanas sustentam milhares de empregos e contratos em uma economia alemã fragilizada.

Pistorius afirmou que a presença dos EUA é "do interesse da Alemanha e dos Estados Unidos", pois funciona como "dissuasão coletiva" diante da ameaça russa.

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O senador democrata Jack Reed criticou duramente a decisão de Trump, afirmando que reduzir tropas "enquanto as forças russas continuam atacando a Ucrânia sem piedade" é "um presente inestimável para Vladimir Putin" e sugere que o compromisso norte‑americano com a Otan depende "do humor do presidente".

Possíveis reduções também na Itália e na Espanha

Trump mencionou ainda a possibilidade de reduzir tropas na Itália e na Espanha, que no fim de 2025 abrigavam respectivamente 12.662 e 3.814 militares norte‑americanos, segundo dados oficiais.

A União Europeia destacou que a presença militar dos EUA no continente também serve "aos interesses dos Estados Unidos em sua atuação global", reforçando que a cooperação transatlântica continua essencial para a estabilidade internacional.

Com AFP

A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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