O Pentágono estima concluir a redução de tropas em até doze meses, enquanto Berlim alerta para riscos à estabilidade regional.
Berlim tomou conhecimento da medida neste sábado e reagiu pedindo que a Europa fortaleça sua própria segurança, enquanto a Otan afirmou que vai dialogar com Washington para "compreender melhor" a decisão.
O ministro alemão da Defesa, Boris Pistorius, afirmou que a saída de tropas dos Estados Unidos da Europa "já era esperada", em comentário enviado à AFP por seu ministério. Para ele, o anúncio reforça a necessidade de que "os europeus assumam mais responsabilidades" pela própria defesa.
A decisão ocorre em um momento de tensão entre Washington e Berlim. Donald Trump havia expressado seu descontentamento com o chanceler alemão por causa da guerra no Irã, ampliando o atrito político entre os dois países.
Com os esforços diplomáticos paralisados, o presidente norte‑americano tem criticado aliados europeus, acusando‑os de falta de apoio à ofensiva lançada no fim de fevereiro contra a República Islâmica. Esse desgaste transatlântico serve de pano de fundo para a retirada militar anunciada.
Retirada de tropas e incertezas estratégicas
A Otan afirmou que está "trabalhando" com os Estados Unidos para "compreender melhor" a decisão de retirar parte das tropas estacionadas na Alemanha. Washington prevê reduzir em cerca de 15% o contingente atual de 36.000 soldados, operação que o Pentágono estima concluir "nos próximos seis a doze meses", segundo o porta‑voz Sean Parnell.
O anúncio veio após críticas do chanceler Friedrich Merz, que declarou que "os norte‑americanos aparentemente não têm nenhuma estratégia" no Irã e que Teerã "humilhava" os Estados Unidos.
Trump respondeu dizendo que Merz "não sabe do que está falando" e insinuou que o chanceler seria complacente com a possibilidade de o Irã obter armas nucleares.
Sem confrontar diretamente o presidente norte‑americano, Merz pediu na quinta‑feira "uma parceria transatlântica confiável", sinalizando preocupação com o rumo da relação bilateral.
Trump ameaça tarifas sobre carros europeus
Na sexta‑feira, Trump ampliou a pressão sobre a Alemanha ao anunciar que pretende elevar para 25% "na próxima semana" as tarifas sobre veículos importados da União Europeia. A medida atinge diretamente a indústria automobilística alemã, um dos pilares econômicos do país.
O presidente norte‑americano acusa a UE de não cumprir o acordo comercial firmado no verão passado, embora o processo de validação ainda não tenha sido concluído pelos 27 países do bloco. A delegação europeia em Washington respondeu que está "implementando os compromissos assumidos" e mantendo o governo dos EUA informado sobre cada etapa.
A UE advertiu que, se Washington descumprir sua parte, "todas as opções permanecerão abertas" para proteger os interesses europeus.
Impacto econômico e risco de escalada comercial
A presidente do lobby automobilístico alemão (VDA), Hildegard Müller, afirmou que tarifas adicionais trariam "custos enormes" para a indústria alemã e europeia, já pressionada por condições econômicas difíceis. Ela pediu "desescalada urgente" e a abertura imediata de negociações entre EUA e UE.
A reação do setor reflete o temor de que a disputa comercial se some à tensão militar, ampliando a instabilidade entre parceiros que historicamente sustentam a arquitetura de segurança e comércio do Atlântico Norte.
Presença militar dos EUA segue central para a Europa
Desde o fim da Guerra Fria, a presença militar norte‑americana na Alemanha diminuiu, mas continua sendo um elemento central da defesa europeia, especialmente após a invasão russa da Ucrânia. Além do papel estratégico, as bases norte‑americanas sustentam milhares de empregos e contratos em uma economia alemã fragilizada.
Pistorius afirmou que a presença dos EUA é "do interesse da Alemanha e dos Estados Unidos", pois funciona como "dissuasão coletiva" diante da ameaça russa.
O senador democrata Jack Reed criticou duramente a decisão de Trump, afirmando que reduzir tropas "enquanto as forças russas continuam atacando a Ucrânia sem piedade" é "um presente inestimável para Vladimir Putin" e sugere que o compromisso norte‑americano com a Otan depende "do humor do presidente".
Possíveis reduções também na Itália e na Espanha
Trump mencionou ainda a possibilidade de reduzir tropas na Itália e na Espanha, que no fim de 2025 abrigavam respectivamente 12.662 e 3.814 militares norte‑americanos, segundo dados oficiais.
A União Europeia destacou que a presença militar dos EUA no continente também serve "aos interesses dos Estados Unidos em sua atuação global", reforçando que a cooperação transatlântica continua essencial para a estabilidade internacional.
Com AFP