Sara Menai, correspondente da RFI em Londres e AFP
O comunicado da polícia britânica informou que "um homem de 45 anos foi indiciado" por "duas acusações de tentativa de homicídio" e por "porte de objeto cortante em local público". Segundo o texto, o suspeito, Essa Suleiman, é um cidadão britânico nascido na Somália.
O autor do ataque chegou ao Reino Unido ainda criança, na década de 1990, detalhou a ministra do Interior, Shabana Mahmood. Ele deve comparecer nesta sexta-feira ao Tribunal de Westminster, em Londres.
Na quinta-feira, 30 de abril, o Reino Unido elevou a ameaça terrorista no país em um grau, que passou para o nível "severo". A medida foi tomada tanto pelo ataque antissemita ocorrido na véspera quanto pelo aumento da "ameaça islâmica e de extrema direita".
O ataque de quarta-feira faz parte de uma série de agressões contra a comunidade judaica no Reino Unido. Desde o fim de março, incêndios e tentativas de incêndio visaram, entre outros locais, sinagogas em vários bairros do noroeste de Londres, onde vive uma importante comunidade judaica.
O primeiro desses atos ocorreu no início da ofensiva americana contra o Irã e atingiu ambulâncias pertencentes a uma associação beneficente judaica, estacionadas na calçada em frente ao local onde ocorreu o atentado com faca de quarta-feira.
Os dois homens esfaqueados na quarta-feira, Shloime Rand e Moshe Shine, têm respectivamente 34 e 76 anos. O mais jovem já recebeu alta do hospital, enquanto o segundo permanece internado "em estado estável", segundo a polícia.
Preocupação da comunidade judaica de Londres
A tensão é grande no bairro de Golders Green, no norte da capital. O novo ato de violência antissemita aumenta a preocupação da comunidade judaica no Reino Unido. O ataque de quarta-feira foi classificado como "terrorista" pela polícia, mas os moradores estão revoltados com as autoridades, acusadas de não oferecer proteção suficiente à população.
Na quinta-feira, manifestantes aguardavam o primeiro-ministro Keir Starmer, a deputada Sarah Sackman e o chefe da Polícia Metropolitana de Londres, Sir Mark Rowley, no local do ataque. Starmer foi vaiado pelos moradores ao visitar o local.
Apesar do anúncio do governo trabalhista de mobilizar £ 28 milhões (R$ 168,6 milhões) adicionais para garantir a segurança da comunidade judaica, reforçando, entre outras medidas, a presença policial no bairro, a indignação dos moradores não diminuiu.
"São apenas promessas, não houve de fato medidas concretas", lamentou uma manifestante ao microfone da correspondente da RFI em Londres, Sara Menai.
"Não é possível colocar um policial em cada esquina o tempo todo", acrescentou um britânico. "É dramático chegar a esse ponto; precisamos de mais patrulhas policiais, mas não dá para continuar assim", denunciou.
"Pandemia de antissemitismo"
Depois da visita ao bairro Golders Green, o primeiro-ministro Keir Starmer pediu que o país "se una para combater o antissemitismo", em um pronunciamento solene em Downing Street. Ele mencionou especialmente os slogans entoados durante marchas pró-palestinas, realizadas regularmente nas grandes cidades do país desde a guerra em Gaza, deflagrada após o ataque de 7 de outubro de 2023 perpetrado pelo Hamas.
"Estamos enfrentando uma espécie de pandemia de antissemitismo na sociedade", alertou também nesta sexta-feira o chefe da Polícia Metropolitana, Mark Rowley, em entrevista à rádio Times Radio, acrescentando que recursos adicionais estão sendo mobilizados em alguns bairros de Londres.
Um grupo obscuro, chamado "Harakat Ashab al-Yamin al-Islamiyya" (Hayi), que seria pró-Irã, reivindicou os incêndios e tentativas de incêndio ocorridos em Londres nas últimas semanas, bem como outros ataques em diferentes pontos da Europa. Na quarta-feira, o grupo saudou o ataque com faca em Golders Green e o atribuiu a seus "lobos solitários".
Sem citar esse grupo diretamente, Keir Starmer prometeu na quinta-feira agir "para enfrentar a ameaça representada por Estados como o Irã". "Sabemos perfeitamente que eles querem prejudicar os judeus britânicos", afirmou o líder trabalhista, que recentemente prometeu apresentar um projeto de lei destinado a proibir a Guarda Revolucionária do Irã, o exército ideológico do regime iraniano.
RFI e AFP