Hidrogênio verde: a oportunidade brasileira na transição energética

Com uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo, o Brasil pode transformar sua vantagem natural em liderança industrial, energética e agrícola

26 ago 2026 - 16h34
Resumo
Com uma matriz elétrica quase 90% renovável, o Brasil tem uma posição estratégica para liderar a produção de hidrogênio verde, amônia e combustíveis sustentáveis. Além de mitigar emissões globais de carbono, essa vantagem energética viabiliza o desenvolvimento de insumos vitais, como fertilizantes verdes para o agronegócio. Essa transição fortalece a competitividade industrial do país, amplia a segurança alimentar e garante protagonismo brasileiro nas novas cadeias globais de valor sustentável.

Com uma matriz elétrica majoritariamente renovável e uma base industrial e agrícola de escala global, o Brasil reúne condições raras para converter sua vantagem energética em liderança na produção de hidrogênio verde, amônia, combustíveis sustentáveis e fertilizantes de baixo carbono. A questão central, então, já não é apenas ambiental: trata-se de competitividade, segurança energética, segurança alimentar e inserção estratégica do país nas novas cadeias globais da transição energética.

É cada vez mais difícil negar que o clima do planeta está mudando — e que essa mudança está associada ao aquecimento global provocado pelo aumento dos gases de efeito estufa na atmosfera.

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Mas, afinal, o que são os gases de efeito estufa (GEE) — e por que eles estão no centro do debate sobre energia, indústria e desenvolvimento?

O principal gás de efeito estufa liberado pelas atividades humanas é o dióxido de carbono (CO2), gerado principalmente pela queima de combustíveis fósseis, como gasolina, diesel, carvão mineral e gás natural, além de queimadas e alguns processos industriais.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), principal referência científica internacional sobre o tema, afirma que o aumento das concentrações atmosféricas de CO2, metano (CH4) e óxido nitroso (N2O) desde o período pré-industrial é inequivocamente causado por atividades humanas. Outros gases também contribuem para esse fenômeno, entre eles o metano (CH4), o óxido nitroso (N2O), o ozônio (O3), o vapor d'água (H2O), compostos fluorados e clorofluorcarbonos.

Energia, carbono e a vantagem comparativa do Brasil

Os combustíveis fósseis são, por natureza, misturas ricas em hidrocarbonetos — moléculas formadas principalmente por carbono e hidrogênio. Quando esses combustíveis são queimados para produzir energia, o resultado inevitável é a emissão de CO2 e vapor d'água, contribuindo para o aumento da concentração de gases de efeito estufa.

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Uma das formas mais relevantes de reduzir essas emissões é ampliar o uso de energia elétrica gerada por fontes renováveis. Hidrelétricas, parques eólicos, usinas solares e biomassa, quando bem planejados e operados, permitem produzir eletricidade com baixíssima emissão direta de gases de efeito estufa.

O Brasil possui uma vantagem estrutural única na transição energética. Enquanto muitos países ainda dependem fortemente de combustíveis fósseis para geração elétrica, a matriz elétrica brasileira manteve 86,8% de participação de fontes renováveis em 2025, de acordo com o Relatório Síntese do Balanço Energético Nacional 2026, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

O mesmo levantamento mostra que a matriz energética nacional como um todo manteve patamar de renovabilidade próximo de 50% em 2025, posicionando o Brasil entre as economias com maior participação de fontes renováveis no consumo total de energia.

Matriz elétrica e matriz energética: conceitos diferentes

Embora os termos sejam frequentemente usados como sinônimos, eles representam conceitos bastante diferentes.

A matriz elétrica considera apenas as fontes utilizadas para gerar eletricidade. Incluem-se, nesse caso, fontes como hidrelétricas, eólicas, solar fotovoltaica, biomassa, gás natural, nuclear e carvão. A matriz energética, por sua vez, é mais ampla. Ela considera toda a energia consumida pela sociedade, incluindo eletricidade, gasolina, diesel, etanol, gás natural, GLP, carvão mineral, biomassa, querosene de aviação e combustíveis industriais.

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Por isso, a participação de renováveis é menor. No Brasil, as fontes renováveis representam aproximadamente 50% da matriz energética, valor excepcionalmente elevado quando comparado ao restante do mundo. Como o país dispõe de energia renovável em abundância e a custos competitivos quando comparado a muitas economias desenvolvidas, a eletrificação dos transportes e de parte da indústria pode contribuir de forma relevante para a redução das emissões.

Em termos práticos, um mesmo carro elétrico rodando no Brasil tende a apresentar uma pegada de carbono menor do que em regiões onde a eletricidade ainda depende fortemente de combustíveis fósseis. Isso ocorre porque a participação de fontes renováveis na matriz elétrica brasileira é significativamente superior à média de muitas economias industrializadas.

Quando eletrificar não basta

Então, como reduzir as emissões de gases de efeito estufa em escala global? Uma parte importante da resposta está em tornar a matriz energética mundial menos dependente de hidrocarbonetos, substituindo combustíveis fósseis por eletricidade renovável sempre que possível. Mas nem todo lugar do mundo tem uma geografia que permita a instalação de usinas hidrelétricas, sol e vento em abundância para geração solar e eólica que possibilite ter uma matriz energética renovável.

É nesse ponto que entra o hidrogênio verde

O hidrogênio verde pode ser obtido por meio da eletrólise, processo que utiliza água (H2O) e energia elétrica renovável. Em termos simples, trata-se de transformar o elétron em molécula: 2H2O(l) + energia elétrica → 2H2(g) + O2(g). Com isso, a energia renovável pode ser armazenada e transportada na forma de hidrogênio.

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Mas essa solução traz desafios. O hidrogênio é um gás muito leve, de difícil armazenamento, exige infraestrutura específica e, quando combinado com oxigênio em determinadas condições, pode formar misturas inflamáveis. Uma alternativa é convertê-lo em outra molécula de manuseio mais simples, como a amônia (NH3). Ao combinar hidrogênio com nitrogênio retirado do ar, forma-se uma molécula já amplamente conhecida pela indústria e transportada globalmente: N2 + 3H2 → 2NH3

A comparação abaixo ajuda a entender por que a amônia pode ser mais viável do que o hidrogênio puro sob a ótica do transporte e da logística:

hidrogênio
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Foto: Perfil Brasil

A amônia é frequentemente vista como um vetor de transporte de hidrogênio, não necessariamente como combustível final. Nesse contexto, a amônia funciona como um "contêiner químico" de hidrogênio. Ela pode ser produzida onde há energia renovável competitiva, transportada por navio e posteriormente reconvertida em hidrogênio por meio do craqueamento catalítico.

A Agência Internacional de Energia (IEA) observa que o transporte marítimo de hidrogênio, quando exige liquefação ou reconversão — como no caso da amônia — pode envolver custos e consumo energético relevantes, mas também se beneficia da existência de infraestrutura portuária e logística para derivados como amônia e metanol. Ainda assim, a facilidade de armazenamento e transporte mantém essa rota entre as mais promissoras para o comércio global de hidrogênio verde.

Do hidrogênio aos combustíveis e fertilizantes verdes

Além de exportar energia renovável sob a forma de hidrogênio ou amônia, o Brasil pode utilizá-los diretamente em cadeias industriais estratégicas. O hidrogênio, quando combinado com CO2 capturado de processos industriais, pode se transformas em e-metanol (CH3OH), um combustível sustentável com aplicações relevantes no transporte marítimo e na indústria química: CO2 + 3H2 → CH3OH + H2O

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Nesse processo, 44 kg de CO2 e 6 kg de H2 produzem 32 kg de e-metanol e 18 kg de água. Ou seja, é possível capturar CO2 de processos industriais, reduzir emissões e gerar um combustível de menor impacto climático.

Com a amônia (NH3), também é possível produzir fertilizantes nitrogenados — insumo essencial para o agronegócio brasileiro e hoje amplamente dependente de importações.

O processo industrial de produção de amônia é semelhante, mas a origem do hidrogênio faz toda a diferença. Na amônia cinza, o hidrogênio vem do gás natural; na amônia verde, vem da eletrólise da água com energia renovável.

A rota tradicional de produção de hidrogênio utiliza gás natural por meio da reforma a vapor do metano. Assim, gera aproximadamente 4 moléculas de H2 para cada molécula de CH4 processada, porém com formação concomitante de CO2. De acordo com a Agência Internacional de Energia, essa tecnologia ainda é a base da indústria global de amônia e fertilizantes, setor que depende majoritariamente de combustíveis fósseis para obter hidrogênio.

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CH4 + 2H2O → CO2 + 4H2

Substituição do hidrogênio verde

Ou seja, podemos considerar que cada tonelada de amônia cinza emite tipicamente entre 1,6 e 2,5 toneladas de CO2. Isso depende, contudo, da rota tecnológica, eficiência da planta e fonte de energia utilizada. A própria IEA estima que a produção convencional de amônia apresenta intensidade média próxima de 2,4 tCO2 por tonelada de amônia, uma das maiores entre produtos químicos básicos. Para diferentes fertilizantes, teremos a seguinte ordem de grandeza de emissões de CO2:

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Foto: Perfil Brasil

Substituir hidrogênio produzido a partir de gás natural por hidrogênio verde não é apenas uma escolha tecnológica. É uma decisão industrial, climática e estratégica, capaz de reduzir emissões em cadeias intensivas em carbono e, ao mesmo tempo, criar novas oportunidades de investimento, emprego qualificado e agregação de valor no país.

Há ainda uma dimensão que vai além da agenda ambiental: segurança energética e segurança alimentar. Em um mundo marcado por tensões geopolíticas, volatilidade de preços e disputa por insumos estratégicos, reduzir dependências externas e fortalecer cadeias produtivas locais deixou de ser apenas uma vantagem competitiva — tornou-se uma necessidade nacional.

O Brasil já possui uma das melhores bases renováveis do mundo. Portanto, a decisão que se impõe agora é transformar essa vantagem em indústria, tecnologia, exportações e desenvolvimento. Se souber combinar energia limpa, capacidade industrial e visão estratégica, o país poderá deixar de ser apenas fornecedor de recursos naturais para se tornar protagonista das novas cadeias globais da transição energética. O hidrogênio verde, nesse contexto, não é apenas uma promessa do futuro: é uma agenda de competitividade para o presente.

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Conheça Marcelo Perpetuo

Marcelo Perpetuo é Diretor de Hidrogênio Verde, Power-to-X e Combustíveis Renováveis da ANDRITZ Brasil, liderando iniciativas de desenvolvimento de mercado, descarbonização industrial e infraestrutura para a economia do hidrogênio. Com quase 40 anos de experiência internacional, atua na concepção e implementação de projetos industriais, energéticos e de transição energética em diversos setores.

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