Estudo do Hospital Moinhos de Vento validou a eficácia da dose única contra o HPV, apontando queda de até 81% na circulação do vírus entre mulheres vacinadas no Brasil e gerando imunidade coletiva. Apesar dos avanços, a cobertura vacinal segue abaixo da meta da OMS de 90%, com atraso crítico entre os homens devido à desinformação sobre outros cânceres associados ao vírus. Especialistas defendem o retorno da vacinação nas escolas e a educação preventiva precoce para ampliar a proteção.
Um estudo conduzido pelo Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, ao longo da última década, demonstrou que a vacinação contra o Papilomavírus Humano (HPV) reduziu de forma expressiva a circulação do vírus no Brasil. Entre as mulheres, a prevalência dos tipos contemplados pela vacina caiu de 15,64% na primeira fase da pesquisa para 5,92% na segunda. Nas análises ajustadas, a redução foi de 81% entre as mulheres vacinadas e de 33% entre as não vacinadas, evidência de um forte efeito de proteção indireta, ou seja, de que quem não se vacinou também se beneficia da imunização coletiva.
A pesquisa reuniu dois estudos transversais realizados entre 2016-2017 e 2020-2023, com mais de 16 mil jovens de 16 a 25 anos (11 mil mulheres e quase 5 mil homens), faixa que coincide com o pico de transmissão no início da vida sexual. O trabalho foi realizado em parceria com o Ministério da Saúde por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (PROADI-SUS) e será publicado na íntegra na revista internacional npj Vaccines, do Grupo Nature, com prévia já disponível no site do periódico.
O Rio Grande do Sul aparece em posição de destaque no cenário nacional. Segundo dados do painel de vacinação do Ministério da Saúde, o estado registra 80,63% de cobertura entre meninas e 72,86% entre meninos, patamar que já supera a marca dos 80% no público-alvo feminino, mas que ainda está abaixo da meta global de 90% de cobertura para meninas até os 14 anos, estabelecida pela Organização Mundial da Saúde.
"O RS está em uma boa posição comparativamente, mas 'melhor que a média' não é o mesmo que 'suficiente'. Enquanto não chegarmos a 90%, seguimos deixando uma parcela dos nossos jovens desprotegida justamente na idade em que a vacina é mais eficaz", afirma a dra. Eliana Wendland, pesquisadora do Hospital Moinhos de Vento e autora principal do estudo.
A escola é a principal alavanca para o estado
Para a epidemiologista, há um caminho já testado e com resultado comprovado para o RS fechar essa lacuna, que é levar a vacinação de volta para dentro das escolas. "O primeiro ano de vacinação contra o HPV no Brasil foi feito na escola, e a cobertura foi muito alta. Ela caiu quando a aplicação passou para as unidades de saúde. Esse mesmo padrão se repete em todos os lugares do mundo onde a estratégia escolar é adotada - Chile, Inglaterra e outros. Utilizar a escola como ponto de vacinação com certeza aumentaria a taxa de cobertura no estado", avalia.
Além disso, a pesquisadora recomenda que a Secretaria Estadual da Saúde e as secretarias municipais invistam em prevenção combinada, oferecendo educação em saúde sexual e reprodutiva precocemente para que os jovens já iniciem a vida sexual sabendo como prevenir e distribuir preservativos de forma ampla. "O HPV é adquirido logo no começo da atividade sexual. Por isso, a comunicação, a educação e a vacinação, sempre juntas e sempre antes, são o melhor caminho."
Gargalo no público masculino
Entre os principais achados, o estudo traz evidências clínicas que referendam a atual estratégia do Ministério da Saúde de dose única no público-alvo de que não há diferença significativa de eficácia entre uma ou duas doses na população geral. Apenas grupos especiais, como imunossuprimidos e pessoas vivendo com HIV, mantêm a recomendação de três doses. A vacina quadrivalente protege diretamente contra os tipos 16 e 18, responsáveis por 70% dos casos de câncer de colo do útero.
O contraste entre os sexos, porém, é o alerta mais duro da pesquisa. Entre os homens, a queda na prevalência do vírus foi muito mais tímida: de 13,81% para 10,39%. No RS, a diferença de quase oito pontos percentuais entre a cobertura de meninas e meninos reproduz localmente esse gargalo nacional.
Segundo a Dra. Eliana, a defasagem é alimentada por desinformação e pela crença equivocada de que o imunizante previne apenas o câncer de colo do útero. "As pessoas esquecem que existem vários outros tipos de câncer associados ao HPV, como os de cabeça, pescoço e região anal, que têm alta incidência na população masculina. A eliminação do vírus reduziria drasticamente esses casos, um cenário que parece distante, mas já é realidade em países como Austrália e Dinamarca."