Referência mundial em cirurgia oncológica apresenta telecirurgia, vírus oncolíticos e robótica em Porto Alegre

Yuman Fong, chefe do Departamento de Cirurgia do City of Hope (EUA), foi o convidado do Grand Round que inaugurou o Núcleo de Cirurgia Oncológica do Hospital Moinhos de Vento

26 ago 2026 - 16h29
Resumo
Porto Alegre sedia a apresentação de uma referência mundial em cirurgia oncológica, com foco nos mais recentes avanços médicos contra o câncer. O evento destaca inovações cruciais para o setor da saúde, abordando a prática da telecirurgia, o uso terapêutico de vírus oncolíticos e as aplicações de ponta da robótica cirúrgica, promovendo o debate sobre o futuro do tratamento oncológico.

Nas últimas quatro décadas, a cirurgia oncológica passou por uma profunda transformação. Procedimentos antes considerados de alto risco tornaram-se mais seguros e menos invasivos, enquanto o avanço das terapias sistêmicas ampliou as possibilidades de tratamento mesmo para pacientes com doença avançada.

Foto: Divulgação/Critério / Porto Alegre 24 horas

Essa evolução foi o ponto de partida da conferência "Cirurgia Oncológica: passado, presente e futuro", ministrada nesta terça-feira (25) pelo Dr. Yuman Fong, chefe do Departamento de Cirurgia do City of Hope, nos Estados Unidos, e membro da National Academy of Medicine. O especialista foi o convidado do Grand Round que marcou a inauguração do Núcleo de Cirurgia Oncológica do Hospital Moinhos de Vento, dentro das comemorações pelos dez anos do Centro de Oncologia da instituição.

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Ao revisitar a evolução do tratamento dos tumores hepáticos desde sua formação, em 1984, Fong destacou mudanças como os avanços na prevenção e no tratamento das hepatites e a maior segurança das cirurgias do fígado. Atualmente, segundo o especialista, procedimentos hepáticos podem ser realizados com mortalidade operatória em torno de 1%, com taxas de cura superiores a 40% em diferentes situações oncológicas.

Durante o Grand Round, Fong destacou que o papel do cirurgião oncológico também se expandiu. Se historicamente a cirurgia estava concentrada principalmente no tratamento de tumores localizados, hoje os cirurgiões participam do cuidado de pacientes em diferentes momentos da doença.

Na doença metastática, por exemplo, terapias-alvo e imunoterapias podem permitir que determinados pacientes inicialmente considerados inoperáveis se tornem candidatos à cirurgia. Na outra ponta, a identificação e retirada precoce de algumas lesões pré-malignas pode impedir a evolução para o câncer.

O especialista também chamou a atenção para o crescimento da incidência do câncer colorretal entre adultos mais jovens. Segundo dados apresentados, o número de casos aumenta cerca de 3% ao ano entre pessoas com menos de 50 anos, em contraste com a redução observada nas faixas etárias mais avançadas.

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Autor da primeira ressecção hepática robótica, realizada em 2003, Fong apresentou exemplos de como a tecnologia vem permitindo procedimentos menos invasivos e recuperações mais rápidas. Em algumas cirurgias, pacientes já podem receber alta no mesmo dia ou no dia seguinte.

A telecirurgia também integrou a apresentação. Em um experimento conduzido por sua equipe, um pequeno robô enviado à Estação Espacial Internacional foi operado remotamente a partir da Terra. A experiência aponta para possibilidades futuras de suporte especializado e realização de procedimentos a distância, especialmente em regiões com menor acesso a especialistas.

Outra frente destacada foi a pesquisa com vírus oncolíticos, geneticamente modificados para atacar células tumorais. Fong atua há cerca de 25 anos nessa área e participou do desenvolvimento do CF33, que atualmente está sendo avaliado em ensaios clínicos conduzidos em dez centros no mundo. "A cirurgia continua sendo central para a cura do câncer e vai continuar sendo. Mas não basta curar: é preciso tornar o tratamento menos invasivo e disponível para todos", ressalta o chefe do departamento de Cirurgia do City of Hope.

Novo Núcleo integra especialistas e protocolos assistenciais

A importância da concentração de experiência e do volume de procedimentos também esteve entre os temas do Grand Round. Fong apresentou dados de um estudo realizado nos Estados Unidos sobre cirurgia pancreática, no qual centros de alto volume registraram mortalidade operatória de 2%, ante 8% nos demais serviços. A diferença também se refletiu na sobrevida dos pacientes no longo prazo.

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Esse é um dos princípios que orientam a atuação do Núcleo de Cirurgia Oncológica do Hospital Moinhos de Vento, apresentado pelo superintendente médico da instituição, Dr. Luiz Antônio Nasi, e coordenado pelo Dr. Vinicius Grando Gava.

O Núcleo reúne 13 cirurgiões especializados no tratamento de tumores do aparelho digestivo, sarcomas, melanoma, neoplasias peritoneais e tumores raros. A estrutura conta com cirurgia robótica Da Vinci Xi, terapias regionais como HIPEC, protocolos ERAS e discussão multidisciplinar de casos complexos.

A proposta é integrar ainda mais a jornada do paciente dentro de uma estrutura que reúne diagnóstico, cirurgia, tratamento clínico, radioterapia e reabilitação. "O Núcleo dá identidade e método a um trabalho que já existia: concentrar volume, padronizar protocolos e medir nossos desfechos. É assim que se constrói um centro de referência", destaca o coordenador do  Núcleo.

O superintendente do Hospital Moinhos de Vento, Dr. Luiz Antônio Nasi, salientou ainda a frente de pesquisa em vacinas contra o câncer que a instituição está estruturando em parceria com a Universidade de Oxford, o A.C.Camargo Cancer Center, a Fiocruz e o Ministério da Saúde. "O Hospital Moinhos de Vento participa dessa iniciativa como uma instituição que também produz conhecimento e pesquisa, e não apenas aplica aquilo que é desenvolvido por outros centros", afirmou.

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