Ivermectina não combate vírus nem fortalece imunidade, alertam especialistas e Ministério da Saúde

ESTUDOS CLÍNICOS NÃO DEMONSTRARAM AÇÃO ANTIVIRAL OU EFEITO IMUNOLÓGICO RELEVANTE DO MEDICAMENTO ANTIPARASITÁRIO; USO INDISCRIMINADO PODE TRAZER CONSEQUÊNCIAS NEGATIVAS

13 mai 2026 - 10h48

O que estão compartilhando: vídeo em que uma mulher afirma não ficar doente há um ano por tomar ivermectina "de forma preventiva, como antiviral e como suporte imunológico".

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: a alegada relação de causa é efeito é falsa. O Ministério da Saúde e especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que não há evidências científicas de que a ivermectina tenha ação antiviral ou fortaleça a imunidade contra infecções. Segundo os estudiosos, alguns testes laboratoriais identificaram efeitos in vitro, em células cultivadas em laboratório, mas esses resultados não foram confirmados em estudos clínicos, com pacientes. O ministério ressatou que o medicamento é um antiparasitário indicado para doenças como sarna. O uso indiscriminado do remédio pode causar efeitos adversos e trazer riscos à saúde.

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Saiba mais: Publicado no Facebook, o vídeo acumulou mais de 49 mil curtidas e 7 mil compartilhamentos na rede social. No Instagram, alcançou 200 mil curtidas.

A autora é Jéssika Martins, que soma mais de 325 mil seguidores no Instagram e se apresenta como formada em Educação Física e Biologia, além de pós-graduada em Nutrição Clínica e Metabolismo. Nenhuma das áreas de formação mencionadas a habilita a prescrever medicamentos ou indicar tratamentos diretamente a pacientes.

No material checado, a autora afirma que o uso da ivermectina para finalidades além do tratamento de parasitoses é um tema "polêmico". Em um trecho do vídeo, ela diz que não fica doente há mais de um ano porque utiliza o medicamento de forma preventiva, como antiviral e suporte imunológico.

Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que não há evidências científicas de que a ivermectina previna infecções virais ou atue como antiviral no organismo humano.

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Procurada pelo Verifica, Jéssika afirmou que em nenhum momento afirmou que a ivermectina tem eficácia clínica comprovada para prevenir ou tratar infecções virais em humanos. "O vídeo trata exclusivamente de mecanismos investigados em modelos experimentais e laboratoriais, o que está documentado na literatura científica", disse.

Ela afirmou que deixou explícito no próprio vídeo que "a ivermectina não substitui um terreno metabólico saudável, e que alimentação, sono e estilo de vida são a base da imunidade, sendo qualquer suplemento ou medicamento apenas um suporte secundário a esse contexto".

Sem evidências científicas contra infecções virais

Celso Granato, da Sociedade Brasileira de Infectologia e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), explica que revisões mais recentes da literatura científica não encontraram benefícios clínicos para o uso da ivermectina como antiviral.

Ele citou uma metanálise publicada em 2025, com 23 estudos e mais de 15 mil pacientes com covid-19, que não identificou redução em indicadores importantes, como hospitalização, necessidade de ventilação mecânica e internação em UTI. "Não existe evidência científica de que ocorra um efeito importante, significativo, que justifique o uso da ivermectina", pontuou.

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Segundo ele, embora alguns estudos antigos tenham apontado possível redução da replicação viral em laboratório, pesquisas posteriores mostraram que esse efeito estava relacionado à toxicidade celular. "Você vai diminuir a quantidade de vírus às custas de matar células. Então isso não faz sentido."

A infectologista Nancy Bellei, membro do Comitê de Vírus Respiratórios da Sociedade Brasileira de Infectologia, também destacou que estudos clínicos não demonstraram ação antiviral da ivermectina contra doenças respiratórias, arboviroses, hepatites ou outras infecções causadas por vírus.

Segundo ela, alguns experimentos laboratoriais identificaram efeitos in vitro, mas isso não significa que o medicamento funcione em pacientes. "O fato de algum agente farmacológico inibir determinada ação em laboratório não coincide com a atuação desse medicamento em estudos clínicos."

No vídeo checado, a influenciadora também alega que o remédio está sendo investigado como imunomodulador, com capacidade de estimular linfócitos T e células NK (ambas células de defesa do sistema imunológico), além de reduzir a inflamação crônica. Mas esse é outro efeito que só foi observado em estudos em laboratório, de acordo com Nancy.

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A infectologista explicou que as infecções virais envolvem mecanismos complexos e que os vírus conseguem escapar da resposta imunológica humana de diferentes formas. Bellei observou que, ao invadir as células humanas, os vírus se utilizam de diferentes proteínas e estratégias de replicação, o que torna complexo o combate à infecção.

É por isso que, segundo ela, mesmo quando um medicamento demonstra algum efeito em células cultivadas em laboratório, isso não garante que o mesmo resultado será observado em animais ou em seres humanos. "Embora se demonstre atividade in vitro, não conseguimos demonstrar evidência com a ivermectina tratando infecções virais", afirmou.

Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que a desinformação sobre o uso da ivermectina como antiviral ganhou força durante a pandemia, mas continua circulando nas redes sociais até hoje. O órgão ressaltou que a ivermectina é um antiparasitário indicado para doenças como estrongiloidíase, filariose e escabiose (sarna), e não para o combate a vírus. O ministério também citou estudos que não encontraram benefício do medicamento na prevenção da covid-19 em pessoas expostas ao vírus.

Uso indiscriminado de ivermectina pode ter consequências negativas

Os especialistas ouvidos pela reportagem e o Ministério da Saúde destacaram efeitos negativos que o uso indiscriminado de ivermectina pode trazer.

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Granato explicou que o uso de um medicamento sem benefício comprovado expõe pacientes a riscos desnecessários e pode causar efeitos colaterais sem qualquer ganho clínico. Ele ressaltou que a ivermectina é um antiparasitário importante e que o uso indiscriminado da substância pode contribuir para o desenvolvimento de resistência medicamentosa. "Você pode gerar uma possibilidade de resistência contra drogas antiparasitárias. E aí talvez não exista o benefício nem nas situações em que sabemos que ela funciona", alertou.

Bellei também alertou para os riscos do uso da ivermectina como prevenção contra infecções virais, sendo um dos principais problemas a falsa sensação de proteção, que pode levar pessoas a abandonarem medidas realmente eficazes. "O risco é alguém utilizar essa droga achando que está protegido, quando não está, o que gera risco de exposição, infecção e complicações", afirmou.

A especialista ressaltou que toda medicação pode provocar efeitos adversos e que o uso sem benefício comprovado expõe pacientes a riscos desnecessários. "O paciente acaba sofrendo esses efeitos sem obter o benefício da droga", complementou.

O Ministério da Saúde alertou que o uso indiscriminado da substância pode causar efeitos adversos como dores de cabeça, náusea, febre, dores musculares e reações cutâneas. Segundo a nota, casos graves de uso excessivo foram relatados em alguns estudos.

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