O que estão compartilhando: vídeo afirma que seria possível proteger o coração contra infarto com uso de três suplementos: magnésio glicinato, taurina e nattokinase.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. Não há evidências clínicas de que essas substâncias reduzam o risco de infarto ou outras doenças cardiovasculares. Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que a prevenção passa pelo controle do colesterol LDL, da pressão arterial, do diabetes, do tabagismo, do peso e de outros fatores de risco bem estabelecidos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) considera que "suplementos alimentares não são medicamentos e, portanto, não servem para prevenir ou curar doenças".
Saiba mais: Publicado no Facebook, o vídeo teve mais de 30 mil curtidas e 3,8 mil compartilhamentos. O autor é Renato Silveira dos Reis, que tem mais de 6,1 milhões de seguidores no Instagram e se apresenta como "doutor Renato". No entanto, não há registro com o nome dele no Conselho Federal de Medicina. No site de Silveira, ele se apresenta como farmacêutico e menciona ser "mestre em Medicina".
Ele foi procurado, mas não respondeu.
Sem evidências científicas
Não há evidências para recomendar o uso de magnésio glicinato, taurina e nattokinase para proteger o coração contra infartos ou outras doenças cardiovasculares, segundo os especialistas consultados pelo Estadão Verifica.
O médico André Zimerman, doutor em Cardiologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e cardiologista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, explica que para afirmar que um produto reduz o risco de infarto ou arritmias são necessários estudos amplos e consistentes.
Isso não existe para esses suplementos. De acordo com ele, as alegações se baseiam em evidências frágeis e indiretas, apoiadas em hipóteses ou estudos preliminares, sem comprovação de benefício clínico em humanos.
O cardiologista Roberto Rocha Giraldez, do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), destaca que a indicação de tratamentos segue critérios rigorosos de comprovação.
"Quando prescrevo um medicamento para colesterol, pressão ou diabetes, estou amparado por diversos estudos. Não é um estudo isolado, são dezenas que mostram redução importante no risco de doença cardiovascular", detalhou.
Segundo ele, esse tipo de evidência, baseado na comparação entre grandes grupos de pacientes, não existe para os suplementos citados no vídeo.
"Não há estudos populacionais que comparem quem usa e quem não usa essas substâncias. O que existe é um racional teórico, mas nenhuma base científica de porte que sustente o uso", frisou.
O autor do vídeo chega a dizer que medicamentos como ácido acetilsalicílico (AAS ou aspirina) e estatinas não seriam eficazes para proteger o coração. Mas é justamente o contrário: segundo Zimerman, eles tiveram a eficácia comprovada em estudos de grande porte. Essas pesquisas demonstraram redução de infarto, AVC e mortalidade em pacientes de risco.
Cuidado com cura milagrosa
Ambos os especialistas destacam a preocupação com conteúdos que prometem uma "cura milagrosa". Eles podem gerar uma falsa sensação de proteção e levar ao abandono de tratamentos eficazes.
"O maior problema é a pessoa acreditar que está protegida e, com isso, adiar uma avaliação médica ou até deixar de seguir terapias que realmente funcionam", afirmou Zimerman, citando o uso de AAS e de estatinas, apresentados de forma equivocada no vídeo como ineficazes.
Giraldez classifica o impacto desse tipo de desinformação como grave. "É completamente nocivo", disse. "Não se trata apenas de recomendar suplementos, mas de sugerir que as pessoas deixem de usar medicamentos como aspirina e estatinas, que, em determinadas situações, previnem infarto e AVC".
O cardiologista relata que situações como essa têm se tornado frequentes na rotina clínica. "Muitos pacientes chegam ao consultório com essas informações e querem seguir esse protocolo milagroso, e cabe ao médico explicar que não existe solução milagrosa", disse.
Suplementos têm riscos
Segundo a Anvisa, suplementos são destinados a pessoas saudáveis e têm a função de complementar a alimentação. De acordo com a agência, o setor lidera as denúncias por infrações sanitárias no Brasil: entre 2020 e 2025, 63% dos processos de investigação abertos pela Anvisa envolveram esses produtos — mais da metade dos casos relacionada à propaganda enganosa em plataformas digitais.
Segundo Zimerman, o uso indiscriminado de suplementos pode trazer consequências sérias, sobretudo para pessoas que já apresentam fatores de risco. O cardiologista chama atenção para possíveis efeitos adversos.
"Em excesso, essas substâncias podem trazer riscos diretos. O magnésio e a taurina, por exemplo, não são isentos de efeitos colaterais. Mas o maior perigo continua sendo abandonar terapias comprovadamente eficazes", explicou.