O que estão compartilhando: que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mandou recolher produtos da marca Ypê com uma justificativa que "fala vagamente em risco de contaminação, sem provas".
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. A medida da Anvisa se baseou nos resultados de uma inspeção feita em uma fábrica da Ypê entre os dias 27 e 30 de abril de 2026, em conjunto com o Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo (CVS-SP) e a Vigilância Sanitária de Amparo (Visa-Amparo).
As agências nacional, estadual e municipal constataram "descumprimentos relevantes em etapas críticas do processo produtivo" que comprometem o cumprimento de requisitos essenciais de Boas Práticas de Fabricação (BPF) e indicam risco à segurança sanitária dos produtos, além da possibilidade de contaminação microbiológica.
No dia 8 de maio, a Ypê entrou com um recurso que suspendeu as determinações da Anvisa. Mas a agência e o CVS-SP reforçaram que não recomendam o uso dos produtos dos lotes indicados e que as conclusões da inspeção, por enquanto, permanecem as mesmas.
Saiba mais: A Anvisa determinou, no último dia 5 de maio, o recolhimento de lava-louças, detergente líquido para roupas e desinfetantes da marca Ypê de lotes terminados com o número 1.
Esta não é a primeira vez que produtos da Ypê são retirados de circulação por risco de contaminação. Em novembro do ano passado, a própria empresa identificou a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em dois lotes de lava-roupas líquido da marca.
Após a inspeção, a Anvisa também determinou o recolhimento dos produtos. A bactéria encontrada na época é mais perigosa para pessoas com o sistema imunológico fragilizado e pode ser resistente a antibióticos.
A Ypê não é a única a passar por inspeções nem por determinações de suspensão de venda ou fabricação de alguns produtos.
Somente nas duas últimas semanas, a Anvisa determinou o recolhimento de produtos como canela em pó, canetas emagrecedoras sem registro sanitário, produtos irregulares a base de cannabis, extratos de cogumelos, itens irregulares de farmácias de manipulação, um tipo de medicamento para arritmia cardíaca, sardinha contaminada com salmonella, protetores solares e repelentes sem registro, além de fubá de origem desconhecida.
Por que a Anvisa determinou a suspensão de produtos da Ypê?
Entre os dias 27 e 30 de abril deste ano, a Anvisa e as vigilâncias sanitárias do Estado de São Paulo e do município de Amparo fizeram uma inspeção nas instalações da Ypê. O conteúdo do relatório é restrito, segundo a Anvisa.
Tanto a agência nacional quando o CVS-SP afirmaram que foram identificados descumprimentos de etapas essenciais da produção, além de falhas que indicam risco de contaminação por micro-organismos patogênicos em alguns produtos. "Mesmo produtos de limpeza podem ser contaminados por micro-organismos quando há falhas na produção. E a falta de controle sobre a contaminação de produtos de uso doméstico por bactérias, vírus ou fungos é um evento grave, que oferece risco para a saúde das pessoas", disse a Anvisa em nota.
No dia 8 de maio, a Ypê entrou com um recurso que terminou por suspender os efeitos da Resolução da Anvisa. Mas a recomendação de não utilizar os produtos dos lotes mencionados (os terminados em 1) permanece.
O Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo informou que continua fazendo o acompanhamento técnico do caso e, assim como a Anvisa, mantém a avaliação técnica sobre o risco sanitário dos produtos constatados durante a inspeção. "Quem tiver esses produtos em casa deve acionar o Serviço de Atendimento ao Consumidor da empresa para receber orientações e providências cabíveis", comunicou, em nota.
Segundo o CVS-SP, o recurso apresentado pela empresa segue o rito determinado na legislação e ainda será analisado. Enquanto isso, os órgãos de vigilância seguem avaliando medidas de readequação e regularização apresentadas pela empresa.
No dia 7 de maio, a Ypê publicou uma nota oficial dizendo ter "fundamentação científica robusta, baseada em testes e laudos técnicos independentes atestando que seus produtos das categorias lava-louças, lava-louças concentrado, lava-roupas líquido, e desinfetante, são seguros e não representam risco ao consumidor".
A empresa diz que mantém diálogo com a Anvisa e se compromete a "incorporar imediatamente eventuais aprimoramentos e recomendações regulatórias da Agência ao seu Plano de Ação e Conformidade Regulatória".
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O que a Ypê tem a ver com Bolsonaro?
Apoiadores de Jair Bolsonaro têm afirmado nas redes sociais que a decisão da Anvisa sobre a Ypê foi política porque a marca seria "de direita" e seus sócios apoiaram o ex-presidente em 2022.
A suspensão da venda de produtos seria, para essas pessoas, um boicote do governo Lula à empresa. Por isso, muitos aparecem em vídeos ignorando as recomendações das equipes técnicas e usando os produtos dos lotes suspeitos para lavar louça e tomar banho. Alguns usuários até se filmaram aparentemente bebendo detergente.
Vídeos que viralizaram em redes como o Facebook e o Instagram atribuem a suspensão da venda de produtos a uma doação de R$ 1 milhão por parte da empresa a Bolsonaro. Na realidade, quatro integrantes do Conselho de Administração da Ypê doaram à campanha do ex-presidente em 2022, somando R$ 1,5 milhão.
A maior doação foi feita por Jorge Eduardo Beira, que é sócio, conselheiro e Chief Operating Officer (COO) da Ypê. Ele doou R$ 750 mil à campanha. Outras três pessoas doaram, cada uma, R$ 250 mil. Esses aportes vieram de Ana Maria Veroneze Beira (sócia e conselheira), Antônio Ricardo Beira (sócio e conselheiro) e Waldir Beira Júnior (sócio, conselheiro e presidente executivo).
Mas não há evidência de que a suspensão dos produtos tenha motivação política. A recomendação não partiu apenas da Anvisa, mas também da Vigilância Sanitária de São Paulo, órgão vinculado à Secretaria de Saúde do governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), e da vigilância municipal de Amparo.
O prefeito de Amparo, Carlos Alberto Martins (MDB), até mesmo usou o Instagram para sair em defesa da Ypê. Segundo ele, a empresa apresentou laudos técnicos atestando a segurança de seus produtos.
A Anvisa alertou para o risco de desinformação em torno do caso da Ypê. "Prejudica o próprio consumidor, induzindo a erros e expondo a saúde dessas pessoas a riscos desnecessários", comunicou. "A desinformação pode causar prejuízos graves e até mesmo irreversíveis à saúde. Em momentos como este, é necessário ter prudência, responsabilidade e respeito à saúde pública."