Anvisa não recolheu produtos da Ypê 'sem provas'; inspeção conjunta apontou risco sanitário

VISTORIA, FEITA EM PARCERIA COM VIGILÂNCIAS SANITÁRIAS DO GOVERNO DE SÃO PAULO E DA PREFEITURA DE AMPARO, ENCONTROU INCONFORMIDADES EM PROCESSOS, ALÉM DE RISCO DE CONTAMINAÇÃO; EMPRESA APRESENTOU RECURSO

12 mai 2026 - 17h12

O que estão compartilhando: que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mandou recolher produtos da marca Ypê com uma justificativa que "fala vagamente em risco de contaminação, sem provas".

Decisão da Anvisa não foi uma acusação “sem provas”, e sim baseada nos resultados de uma inspeção
Decisão da Anvisa não foi uma acusação “sem provas”, e sim baseada nos resultados de uma inspeção
Foto: Reprodução/Instagram / Estadão

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. A medida da Anvisa se baseou nos resultados de uma inspeção feita em uma fábrica da Ypê entre os dias 27 e 30 de abril de 2026, em conjunto com o Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo (CVS-SP) e a Vigilância Sanitária de Amparo (Visa-Amparo).

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As agências nacional, estadual e municipal constataram "descumprimentos relevantes em etapas críticas do processo produtivo" que comprometem o cumprimento de requisitos essenciais de Boas Práticas de Fabricação (BPF) e indicam risco à segurança sanitária dos produtos, além da possibilidade de contaminação microbiológica.

No dia 8 de maio, a Ypê entrou com um recurso que suspendeu as determinações da Anvisa. Mas a agência e o CVS-SP reforçaram que não recomendam o uso dos produtos dos lotes indicados e que as conclusões da inspeção, por enquanto, permanecem as mesmas.

Saiba mais: A Anvisa determinou, no último dia 5 de maio, o recolhimento de lava-louças, detergente líquido para roupas e desinfetantes da marca Ypê de lotes terminados com o número 1.

Esta não é a primeira vez que produtos da Ypê são retirados de circulação por risco de contaminação. Em novembro do ano passado, a própria empresa identificou a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em dois lotes de lava-roupas líquido da marca.

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Após a inspeção, a Anvisa também determinou o recolhimento dos produtos. A bactéria encontrada na época é mais perigosa para pessoas com o sistema imunológico fragilizado e pode ser resistente a antibióticos.

A Ypê não é a única a passar por inspeções nem por determinações de suspensão de venda ou fabricação de alguns produtos.

Somente nas duas últimas semanas, a Anvisa determinou o recolhimento de produtos como canela em pó, canetas emagrecedoras sem registro sanitário, produtos irregulares a base de cannabis, extratos de cogumelos, itens irregulares de farmácias de manipulação, um tipo de medicamento para arritmia cardíaca, sardinha contaminada com salmonella, protetores solares e repelentes sem registro, além de fubá de origem desconhecida.

Por que a Anvisa determinou a suspensão de produtos da Ypê?

Entre os dias 27 e 30 de abril deste ano, a Anvisa e as vigilâncias sanitárias do Estado de São Paulo e do município de Amparo fizeram uma inspeção nas instalações da Ypê. O conteúdo do relatório é restrito, segundo a Anvisa.

Tanto a agência nacional quando o CVS-SP afirmaram que foram identificados descumprimentos de etapas essenciais da produção, além de falhas que indicam risco de contaminação por micro-organismos patogênicos em alguns produtos. "Mesmo produtos de limpeza podem ser contaminados por micro-organismos quando há falhas na produção. E a falta de controle sobre a contaminação de produtos de uso doméstico por bactérias, vírus ou fungos é um evento grave, que oferece risco para a saúde das pessoas", disse a Anvisa em nota.

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No dia 8 de maio, a Ypê entrou com um recurso que terminou por suspender os efeitos da Resolução da Anvisa. Mas a recomendação de não utilizar os produtos dos lotes mencionados (os terminados em 1) permanece.

O Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo informou que continua fazendo o acompanhamento técnico do caso e, assim como a Anvisa, mantém a avaliação técnica sobre o risco sanitário dos produtos constatados durante a inspeção. "Quem tiver esses produtos em casa deve acionar o Serviço de Atendimento ao Consumidor da empresa para receber orientações e providências cabíveis", comunicou, em nota.

Segundo o CVS-SP, o recurso apresentado pela empresa segue o rito determinado na legislação e ainda será analisado. Enquanto isso, os órgãos de vigilância seguem avaliando medidas de readequação e regularização apresentadas pela empresa.

No dia 7 de maio, a Ypê publicou uma nota oficial dizendo ter "fundamentação científica robusta, baseada em testes e laudos técnicos independentes atestando que seus produtos das categorias lava-louças, lava-louças concentrado, lava-roupas líquido, e desinfetante, são seguros e não representam risco ao consumidor".

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A empresa diz que mantém diálogo com a Anvisa e se compromete a "incorporar imediatamente eventuais aprimoramentos e recomendações regulatórias da Agência ao seu Plano de Ação e Conformidade Regulatória".

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O que a Ypê tem a ver com Bolsonaro?

Apoiadores de Jair Bolsonaro têm afirmado nas redes sociais que a decisão da Anvisa sobre a Ypê foi política porque a marca seria "de direita" e seus sócios apoiaram o ex-presidente em 2022.

A suspensão da venda de produtos seria, para essas pessoas, um boicote do governo Lula à empresa. Por isso, muitos aparecem em vídeos ignorando as recomendações das equipes técnicas e usando os produtos dos lotes suspeitos para lavar louça e tomar banho. Alguns usuários até se filmaram aparentemente bebendo detergente.

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Vídeos que viralizaram em redes como o Facebook e o Instagram atribuem a suspensão da venda de produtos a uma doação de R$ 1 milhão por parte da empresa a Bolsonaro. Na realidade, quatro integrantes do Conselho de Administração da Ypê doaram à campanha do ex-presidente em 2022, somando R$ 1,5 milhão.

A maior doação foi feita por Jorge Eduardo Beira, que é sócio, conselheiro e Chief Operating Officer (COO) da Ypê. Ele doou R$ 750 mil à campanha. Outras três pessoas doaram, cada uma, R$ 250 mil. Esses aportes vieram de Ana Maria Veroneze Beira (sócia e conselheira), Antônio Ricardo Beira (sócio e conselheiro) e Waldir Beira Júnior (sócio, conselheiro e presidente executivo).

Mas não há evidência de que a suspensão dos produtos tenha motivação política. A recomendação não partiu apenas da Anvisa, mas também da Vigilância Sanitária de São Paulo, órgão vinculado à Secretaria de Saúde do governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), e da vigilância municipal de Amparo.

O prefeito de Amparo, Carlos Alberto Martins (MDB), até mesmo usou o Instagram para sair em defesa da Ypê. Segundo ele, a empresa apresentou laudos técnicos atestando a segurança de seus produtos.

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A Anvisa alertou para o risco de desinformação em torno do caso da Ypê. "Prejudica o próprio consumidor, induzindo a erros e expondo a saúde dessas pessoas a riscos desnecessários", comunicou. "A desinformação pode causar prejuízos graves e até mesmo irreversíveis à saúde. Em momentos como este, é necessário ter prudência, responsabilidade e respeito à saúde pública."

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