Moradores do Jaguaré, bairro da zona oeste de São Paulo atingido por uma explosão na segunda-feira, 11, relatam que já sentiam um "cheiro de gás" desde o início da tarde, horas antes do acidente. Contam ainda que, em contato com funcionários da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), que trabalhavam em uma obra na região, receberam a orientação para não acender a luz ou o fogão sob o risco de ocorrer algum tipo de detonação.
"Eu estava a 50 metros com o meu filho e com a minha vizinha, que mora aqui, quando explodiu tudo. Eu estava a 50 metros de distância e observando o serviço dos caras. Deu cinco horas vazando gás (sic). Começou uma hora da tarde. Às 17h explodiu isso daí", disse o pizzaiolo Ednaldo dos Santos Vieira Filho.
Ele conta que, antes de tudo acontecer, ele ajudava o filho com a lição de casa quando começou a "sentir um forte cheiro de gás". "Dava náusea. Eu estava passando mal", lembra. Ednaldo, então, foi com a criança para a rua e lá conversou com uma equipe de funcionários da Sabesp, que trabalhava na região. Segundo ele, havia cerca de 15 pessoas da companhia.
O pizzaiolo afirma que um dos técnicos da Sabesp o orientou até a não acender nenhuma luz. "Um deles ainda falou para mim: 'Não acende nenhuma luz na sua casa que pode ter o risco de uma explosão'. E não foi só para mim que eles falaram. Foi para mais umas 10 pessoas", acrescentou.
O morador rechaça a versão de que a explosão foi causado por um botijão de gás. "É mentira. Foi perfurado. Eles falaram para mim. Todos eles (funcionários da Sabesp) falaram que acharam uma tubulação".
Em nota conjunta, a Comgás, responsável pela distribuição de gás, e a Sabesp informaram que o acidente aconteceu durante uma obra de remanejamento de tubulação de água, quando uma rede de gás foi atingida. "As empresas adotaram imediatamente todos os protocolos de segurança", disseram.
As companhias anunciaram a disponibilização de R$ 2 mil para os moradores que precisaram deixar suas casas e informaram que os desabrigados serão encaminhados para hotéis. Segundo Sabesp e Comgás, o valor será uma ajuda de custo emergencial até a conclusão do levantamento completo dos prejuízos.
Aos jornalistas, Ednaldo disse que chegou a reformar a casa há dois meses, mas que o acidente destruiu o imóvel inteiro. "Acabou tudo", lamentou.
Outro morador, um professor de dança que optou por se identificar apenas como William, apresentou um relato semelhante ao de Ednaldo. Ele passou a sentir um forte cheiro de gás dentro de casa e desceu até a rua para conversar com a equipe da Sabesp.
"Os próprios rapazes da Sabesp falaram assim: 'Não liga luz, não liga fogão', nada que tivesse fogo. Mas também não pediram para ninguém evacuar", disse William. Ele disse que chegou a ouvir de um funcionário que ia "desligar" a rede de gás, o que o deixou mais tranquilo. O professor voltou para a casa e deitou na cama.
"Quando deu uns 10, 15 minutos que eu deitei, veio a explosão. Eu olhei pela janela, os vidros dos prédios estavam caindo. Eu fui ajudar a socorrer uma vizinha, que acabou ficando presa. E aí estava o caos já", lembra o professor, que também teve a casa atingida.
Entenda o caso
O acidente ocorreu na comunidade Senhora das Virtudes II, em uma área próxima à Rua Dr. Benedito de Moraes Leme e à Rua Piraúba, atrás do Condomínio Morada do Parque. A explosão provocou a morte de um homem de 50 anos, e deixou outras três pessoas feridas.
Segundo o Corpo de Bombeiros, 10 imóveis foram interditados e 36 foram atingidos indiretamente. E, segundo a última atualização da corporação, cerca de 160 pessoas ficaram desalojadas. Os moradores de um prédio de 320 apartamentos, que também foi afetado, precisaram ser retirados. Mais tarde, receberam autorização da Defesa Civil para retornar às suas casas.
Nesta terça-feira, 12, a Defesa Civil de São Paulo faz uma inspeção na área atingida. O órgão descartou risco de novas explosões na tubulação de gás, mas alertou para a possibilidade de desabamentos de estruturas de imóveis atingidos pela explosão.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), comprometeu-se a ressarcir os prejuízos dos moradores atingidos. "Convoquei reunião imediata com as empresas envolvidas, no Palácio dos Bandeirantes, para discutir a pronta resposta e o acolhimento de todos os afetados pela explosão", afirmou Tarcísio, em publicação no X.
"Nossa prioridade neste momento é garantir o rápido alojamento e acolhimento daqueles que tiveram suas casas impactadas, além da segurança de todos e de seus pertences. Todos terão seus prejuízos ressarcidos e suas residências devidamente recuperadas", acrescentou o governador.
A Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) informou que equipes técnicas fiscalizaram a atuação das concessionárias e que abrirá, em conjunto com as autoridades, uma investigação para apurar as causas do acidente.
"A Arsesp solicitará às concessionárias todos os documentos e registros operacionais relacionados à prestação dos serviços no local, bem como informações específicas sobre a manutenção realizada no endereço nesta segunda-feira", informou a agência, que afirmou ainda que poderá punir as empresas caso sejam identificadas irregularidades.