O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esteve reunido por cerca de três horas com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em sua primeira visita oficial à Casa Branca durante a gestão trumpista.
Os dois fariam uma declaração conjunta à imprensa do Salão Oval após o encontro, mas a coletiva de imprensa foi cancelada.
Ao falar a jornalistas da embaixada do Brasil após o encontro, Lula disse ter saído "muito satisfeito da reunião" e comentou sobre as imagens do encontro, em que ele e o presidente americano posam sorridentes.
"Eu sempre acho que a fotografia vale muito. Eu fiz questão de dizer: 'Ria'. É importante. Alivia. Alivia a nossa alma a gente rir um pouco", comentou durante a coletiva de imprensa.
Segundo Lula, os falaram sobre terras raras e minerais críticos, as tarifas americanas aos produtos brasileiros importados pelos EUA e estratégias de combate ao crime organizado.
A possibilidade de os EUA classificarem facções criminosas brasileiras como organizações terroristas não esteve entre os assuntos da reunião, ainda segundo o presidente brasileiro. O Pix, alvo de uma investigação pelas autoridades americanas, também não foi discutido entre os dois.
"Ele não tocou no assunto do Pix, então eu também não toquei", comentou Lula.
Trump se manifestou por meio das redes sociais. Em um post na rede Truth Social, elogiou Lula, chamando-o de "dinâmico", afirmou que a reunião havia sido "muito produtiva" e destacou o tema das tarifas entre os tópicos que discutiram.
"Acabei de concluir minha reunião com Luiz Inácio Lula da Silva, o dinâmico presidente do Brasil. Discutimos diversos temas, incluindo comércio e, mais especificamente, tarifas. A reunião foi muito boa", escreveu o presidente americano na rede Truth Social.
Trump também ressaltou que representantes dos dois países deverão ter novos encontros para tratar de temas relevantes na agenda bileteral.
"Nossos representantes têm reuniões agendadas para discutir alguns pontos-chave. Outras reuniões serão agendadas nos próximos meses, conforme necessário", disse Trump.
Como foi a reunião de Lula e Trump
Lula chegou à Casa Branca por volta de 12h20 (horário de Brasília) e foi recebido por Trump diante da residência oficial do presidente americano, onde trocaram cumprimentos.
O brasileiro foi acompanhado dos ministros Márcio Rosa (Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), Alexandre Silveira (Minas e Energia do Brasil), Dario Durigan (Fazenda), Wellington César (Justiça e Segurança Pública) e Mauro Vieira (Relações Exteriores).
Já o americano levou seu vice, J. D. Vance, a chefe de gabinete, Susie Wiles, os secretários de Comércio e do Tesouro, Howard Lutnick e Scott Bessent, e Jamieson Greer, representante comercial dos EUA.
A agenda inicial previa que os dois líderes falariam primeiro com a imprensa e depois seguiriam para a reunião bilateral. Mas a ordem foi alterada a pedido da delegação brasileira.
Segundo apurou a BBC News Brasil, a alteração ocorreu após a experiência da viagem de Lula à Malásia, em outubro do ano passado, quando Lula e Trump tiveram seu primeiro encontro oficial.
Na ocasião, a conversa com a imprensa aconteceu antes da reunião oficial entre os presidentes e foi marcada por muitas perguntas dos repórteres.
Na Malásia, o presidente brasileiro demonstrou incômodo com a situação. Em um dos momentos, Lula interrompeu a sessão de perguntas e afirmou que era preciso primeiro realizar a reunião "para poder ter o que falar".
A avaliação do governo brasileiro, segundo fontes ouvidas pela reportagem, foi a de que faria mais sentido inverter a dinâmica desta vez, com conversa reservada dos presidentes antes de responder às perguntas da imprensa.
Na reunião, Lula e Trump conversaram por pouco mais de uma hora a portas fechadas. Como ressaltou Trump, os temas tratados foram variados, com destaque para questões de comércio e, particularmente, tarifas comerciais.
O presidente americano também levou Lula para fazer um pequeno tour pela parte de fora da Casa Branca. No local, há retratos de todos os presidentes norte-americanos. Nas fotos do momento, é possível ver Lula e Trump dando risadas em frente aos retratos.
Em seguida, Lula e Trump seguiram para o almoço. De entrada, foi servida uma salada de alface-romana, jicama, gomos de laranja, abacate com molho cítrico. O prato principal foi bife grelhado com purê de feijão-preto, mini pimentões-doces e relish de rabanete com abacaxi. De sobremesa, pêssegos caramelizados e torta de panna cotta com mel, acompanhados de sorvete de crème fraîche.
Encerrado o almoço, havia a expectativa de uma declaração conjunta à imprensa, que foi cancelada — o motivo não foi informado até o momento pela Casa Branca ou o Planalto.
O que Lula e Trump queriam deste encontro
A gestão Lula tinha duas prioridades nesta reunião com Trump: evitar a imposição de novas tarifas contra produtos brasileiros e conseguir algum tipo de parceria na área de combate ao crime organizado.
Uma das intenções da comitiva era apresentar um novo plano para o combate à lavagem de dinheiro e combate ao tráfico de armas, iniciativa que vem sendo trabalhada pela equipe técnica do Itamaraty, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, do Ministério da Fazenda e da Receita Federal.
A ideia do governo era se antecipar à intenção de parte do governo Trump de designar facções criminosas brasileiras como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
Esse era considerado um dos temas mais sensíveis na relação entre os dois governos, especialmente diante da divulgação na quarta-feira (6/5) da nova estratégia de contraterrorismo americana, que passou a considerar os cartéis de drogas como alvo principal, à frente, por exemplo, de milícias jihadistas como Estado Islâmico (EI) e Al Qaeda.
Há meses Trump tem defendido que organizações criminosas ligadas ao narcotráfico sejam consideradas terroristas.
A medida, na visão do Planalto, abriria espaço para interferências dos Estados Unidos em território brasileiro, como ocorreu no ano passado com embarcações venezuelanas, bombardeadas sob acusação de estarem transportando drogas, algo que não foi comprovado.
Depois desses ataques, o governo americano invadiu a Venezuela e prendeu o presidente Nicolás Maduro em janeiro.
Nos últimos meses, interlocutores do presidente Lula também vinham afirmando que um encontro entre Lula e Trump poderia ajudar o governo brasileiro a diminuir a influência que a ala bolsonarista sediada nos Estados Unidos tem sobre o governo norte-americano.
Esta ala é liderada pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e pelo empresário e jornalista Paulo Figueiredo.
A interpretação do governo é de que essa ala foi a principal responsável por influenciar o governo Trump a impor o tarifaço sobre produtos brasileiros em julho de 2025 sob a justificativa de que ele era uma resposta a uma suposta "caça às bruxas" política contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Do outro lado do encontro, Trump tem interesses que convergem com os do Brasil, apontam analistas à BBC Brasil.
Trump quer reduzir o preço da carne, e o Brasil é um dos maiores produtores globais.
O governo americano também deseja ter acesso privilegiado às reservas brasileiras de minerais críticos ou mesmo alguma garantia de fornecimento com exclusividade do Brasil para os EUA.
O Brasil é detentor da segunda maior reserva mundial de terras raras, minerais considerados essenciais para a transição energética e para a produção de equipamentos de alta tecnologia como telefones celulares, computadores e até mísseis.
Neste ponto, segundo analistas ouvidos pela BBC News Brasil, pode haver divergência entre os interesses dos dois países, porque que o governo Lula já afirmou que não deseja que o Brasil se torne fornecedor exclusivo de um país.
A visita também pode gerar dividendos políticos e simbólicos para Trump em um momento em que sua liderança internacional é contestada, entre outros motivos, pelo prolongamento da guerra contra o Irã.
O encontro poderia reforçar a narrativa de que ele está organizando as cadeias de suprimento críticas com grandes produtores de alimentos e minerais para conseguir competir com a China e passar uma imagem de pragmatismo internacional ao aparecer ao lado de um líder de esquerda.
A China é apontada pelo governo americano como a principal ameaça geopolítica dos Estados Unidos. Neste aspecto, o Brasil tem sido apontado por oficiais do governo dos EUA como um parceiro estratégico.
De 'nenhuma relação' à reunião na Casa Branca
Em setembro passado, Lula declarou à BBC, em entrevista exclusiva, que não tinha "nenhuma relação" com Donald Trump.
Essa declaração foi apenas o mais recente episódio de uma troca de farpas entre os dois líderes desde que Trump impôs uma alta tarifa — de 50% — sobre produtos brasileiros em abril de 2025.
"O povo americano pagará pelos erros que o presidente Trump está cometendo em sua relação com o Brasil", disse Lula na ocasião. Ele também acusou Trump de interferência estrangeira e de se comportar como um "imperador".
Trump já havia afirmado que Lula poderia "ligar para ele a qualquer momento". Mas Lula insistiu que membros do governo Trump "não querem conversar".
Parte da razão para as altas tarifas de Trump sobre o Brasil foi o julgamento e a condenação de Jair Bolsonaro, que tinha uma relação próxima com Trump, por golpe de Estado.
"A relação dele é com Bolsonaro, não com o Brasil", disse Lula sobre Trump.
Mas, após um breve encontro na Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York, em setembro, as relações pareceram descongelar.
Lula e Trump se cruzaram nos bastidores da reunião e conversaram por alguns segundos. Momentos depois, em seu discurso, Trump disse que teve uma "química excelente" com Lula e disse que o presidente brasileiro lhe pareceu "um cara muito agradável"
Os dois conversaram por telefone no mês seguinte, uma conversa que ambos os líderes descreveram como positiva e amigável. Trump disse em suas redes sociais que a ligação havia sido "focada principalmente na economia e no comércio entre nossos dois países".
"Teremos novas conversas e nos reuniremos em breve, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos."
O primeiro encontro formal entre os dois aconteceu em em Kuala Lumpur, na Malásia, em outubro de 2025, durante a 47ª reunião da Associação das Nações do Sudeste Asiático.
Uma nova reunião vinha sendo negociada desde janeiro deste ano e chegou a ser prevista para março.