Se não pode vencê-los, junte-se a eles. É na pegada desse ditado popular que a Volkswagen planeja seus próximos passos no Brasil. Diante do avanço das marcas chinesas, o CEO da companhia no País, Ciro Possobom, admitiu que a montadora vai passar a vender no mercado brasileiro projetos desenvolvidos por suas bases de engenharia na China.
"A Volkswagen tem 36 fábricas lá. Vamos trazer modelos que sejam simples de adaptar à realidade brasileira e adequados ao consumidor local", revelou o executivo em conversa com a imprensa durante o Anfavea Visions, em São Paulo, na quarta-feira, 10. Ele enfatizou que, embora o desenvolvimento inicial seja internacional, o objetivo final é a produção nacional em larga escala: "Quando fazemos um carro, não vamos produzir 10 mil unidades por ano. Queremos fazer 50 mil."
'Não vamos dever em nada aos chineses'
O executivo se diz otimista com a nova geração de modelos e mandou um recado direto à concorrência: "Não vamos dever em nada em preço e tecnologia para os chineses". Segundo ele, o setor automotivo exige investimentos massivos e vive uma evolução constante, e não saltos tecnológicos repentinos.
"Temos os produtos certos, mas há um desafio cultural de combinar a vocação alemã de engenharia da Volkswagen com a agilidade chinesa de ciclos mais curtos de desenvolvimento, além do jeitinho e da flexibilidade brasileiros", analisou Possobom.
Ele admitiu que a montadora alemã não costuma ser a mais ágil do mercado para estrear em novos segmentos, mas que dita o ritmo quando entra. "Levamos mais tempo para lançar SUVs, mas quando aconteceu, fizemos muito bem. O mesmo funciona para picapes", ponderou. Os próximos passos da marca no País estão voltados à eletrificação através de modelos híbridos flex.
A guerra contra os importados e o estoque de 300 mil carros
Como tem feito em suas falar públicas recentes, Possobom não perdeu a oportunidade de criticar a estratégia das novas marcas baseada em veículos importados. "Existe um risco real de desindustrialização por causa da importação de carros e de peças voltadas para fazer apenas a montagem final aqui."
Para o CEO, as políticas públicas vigentes, como o programa Mover, ainda não são capazes de conter a agressividade das marcas entrantes, o que pode sufocar o modelo de negócios de quem investe em fábricas completas no País.
"Há hoje 300 mil veículos importados em estoque no Brasil. Desse total, 60% são de marcas chinesas", aponta. Com esse volume armazenado nos portos e pátios, a nova alta do Imposto de Importação para carros elétricos e híbridos, que passa a valer agora em julho, deve demorar a fazer efeito prático no mercado. "E ainda seguiremos com o desconto no imposto de importação para kits desmontados (CKD) e semidesmontados (SKD), que fica em 14% até o fim do ano", lembrou o executivo.
Lucratividade recorde e saldo no azul
Apesar das duras críticas ao cenário de concorrência, o presidente da Volkswagen Brasil tem números robustos para comemorar dentro de casa. Enquanto as vendas gerais de veículos leves no Brasil cresceram 18% de janeiro a maio, os emplacamentos da Volkswagen saltaram 20% no mesmo período. "Estamos em um dos momentos de melhor resultado financeiro e comercial da nossa história no Brasil", celebrou.
Para Possobom, a própria competição feroz tem um lado positivo ao forçar a queda dos preços médios e atrair novos consumidores para as concessionárias. Os bons resultados são impulsionados também pela maior oferta de crédito e pelas vendas corporativas (frotas). Entre dores e conquistas, o saldo da alemã fica no azul: "Estou muito otimista com o que está por vir", concluiu.