No México, paixão por tudo que é sul-coreano dura só até o pontapé inicial

18 jun 2026 - 13h00

Primeiro vieram as fábricas, depois ‌a comida e, em seguida, as músicas pop tomaram conta do país. O entusiasmo pela Coreia do Sul no México vem se formando há anos, transformando-se em um movimento de massa que já levou a presidente Claudia Sheinbaum a compartilhar uma varanda com a banda BTS, a realeza do K-pop, e fez com que os torcedores visitantes da Copa do Mundo fossem recebidos com o canto: "Coreano, meu irmão, agora você é mexicano".

Mas essa relação em ascensão será posta à prova em Guadalajara nesta quinta-feira, quando os dois países ⁠se enfrentarem em uma partida da fase de grupos da Copa do Mundo.

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"Coreanos e mexicanos são como irmãos e irmãs", disse Annie, uma sul-coreana ‌que veio da Califórnia para assistir ao jogo em Guadalajara.

O vínculo entre a Coreia do Sul e o México é uma das mais inusitadas histórias de aproximação geocultural do mundo. Embora os dois sejam separados pelo idioma, 12 mil quilômetros e uma diferença de ‌fuso horário de 15 horas, a influência sul-coreana, mesmo assim, ganhou espaço.

"O K-pop ‌é a porta de entrada, mas o resultado final é que muitos jovens acabam se interessando pelo idioma, pela educação ⁠e pela cultura", disse Erika Garza, diretora de Estudos Asiáticos da Universidade Autônoma de Nuevo León.

Em nenhum lugar essa influência sul-coreana é mais evidente do que no centro industrial mexicano de Monterrey, onde a chegada da Kia e de outras grandes empresas da Coreia do Sul na última década trouxe um influxo de milhares de sul-coreanos.

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A estudante Yoona Jwa, de 19 anos, fez parte dessa onda quando sua família se mudou da Coreia do Sul para Monterrey por causa do trabalho do pai, quando ela tinha 8 anos. Sem falar o ‌idioma nem estar familiarizada com a cultura mexicana, ela descobriu que uma das poucas coisas que inicialmente a ajudaram a se adaptar foi ‌jogar futebol.

Mas, mais recentemente, são os amigos ⁠mexicanos que estão aprendendo sobre a ⁠cultura dela, e não o contrário.

"Certa vez, eu estava dirigindo com meus amigos e eles cantavam uma música que eu não reconhecia; então percebi que ⁠estavam cantando em coreano!", disse ela.

Sinais do fenômeno cultural coreano estão espalhados por ‌todo o centro de Monterrey, onde donos de ‌lojas vendem bonecos em tamanho real da boy band sul-coreana Stray Kids e almofadas com os rostos das superestrelas do BTS.

Do lado de fora de uma loja de K-pop, o mexicano Christopher Elizondo, de 18 anos, disse que se tornou tão fã do ritmo e da coreografia da música sul-coreana que nem tem mais certeza de quem vai torcer na partida da ⁠Copa do Mundo desta quinta-feira.

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Ele planeja assistir em casa, onde o resto da família estará torcendo pelo México.

"Vai ser um pouco desconfortável", disse ele.

ALIANÇA TAMBÉM EM CAMPO

Os destinos do México e da Coreia do Sul na Copa do Mundo já se entrelaçaram antes. Em 2018, os dois países também estiveram no mesmo grupo. O México parecia estar fora da competição após perder por 3 x 0 para a Suécia, mas foi salvo por uma vitória impressionante da Coreia do ‌Sul sobre a Alemanha no último suspiro, que levou o "El Tri" para a fase eliminatória.

Torcedores eufóricos se reuniram em frente à embaixada da Coreia do Sul na Cidade do México, de onde o cônsul saiu, vestindo uma camisa da seleção mexicana, para cumprimentar ⁠a multidão. A cervejaria Cuauhtémoc Moctezuma, com sede em Monterrey, enviou um caminhão cheio de cerveja para a fábrica local da Kia para comemorar.

Desta vez, México e Coreia do Sul estão em primeiro e segundo lugar em seu grupo, respectivamente — ambos com três pontos —, antes do jogo desta quinta-feira. O México espera que a torcida local possa funcionar a seu favor, mesmo que haja mais do que alguns fãs de K-pop presentes.

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Yoona Jwa disse que, desde o início da Copa do Mundo, vem recebendo mais carinho dos mexicanos, mesmo que as duas seleções estejam prestes a se enfrentar. Durante a primeira partida em Monterrey, no domingo, ela foi levantada no ar na Fanfest; no início desta semana, uma mulher ofereceu tostadas de graça para sua família em um mercado e desejou boa sorte a todos no jogo de quinta-feira.

Mas o espírito competitivo está esquentando.

Na quarta-feira, em um restaurante coreano nos arredores de Monterrey, Kevin Kim, sul-coreano radicado no Texas, almoçou com seu parceiro de negócios mexicano, Humberto Osuna. Os dois trabalham no setor de tecnologia e eletrônicos e fazem negócios juntos há anos, segundo eles.

"Somos bons amigos", disse Osuna.

Mas tudo isso pode mudar depois do pontapé inicial, acrescentou ele.

"Aí, seremos inimigos."

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