A atuação do Banco Central (BC) no caso do Banco Master dominou a comissão que recebeu o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, no Senado nesta terça-feira, 19, em meio a questionamentos sobre falhas de supervisão, riscos ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e a relação entre dirigentes do banco e integrantes do BC.
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Em uma sessão marcada por embates com senadores, o presidente do BC afirmou que o principal problema do Master não estava na captação de recursos com garantia do FGC, mas na destinação dada ao dinheiro obtido pelo banco.
Segundo Galípolo, o Banco Central identificou um modelo de negócios baseado em descasamento entre passivos e ativos, quando uma instituição capta recursos de varejo garantidos pelo FGC para investir em ativos de maior risco e baixa liquidez, incompatíveis com o perfil tradicional de um banco comercial.
O presidente do BC citou exemplos como compra de precatórios, ativos estressados e aplicações em estruturas semelhantes às de fundos de hedge. “O problema não era o passivo, e sim o que se fazia com o dinheiro captado”, afirmou.
Ele detalhou que endureceu as regras para impedir a repetição desse modelo. Entre as medidas adotadas estão:
- o aumento das contribuições ao FGC para bancos com elevado volume de captação garantida
- exigência de esterilização de recursos excedentes em títulos públicos
- criação de limites sobre os ativos que podem servir de lastro para depósitos cobertos pelo fundo garantidor.
Galípolo explicou que, a partir de determinado nível de captação, os bancos são obrigados a aplicar o excedente em títulos públicos, criando uma “arbitragem negativa” que desestimula o crescimento desse tipo de operação. “Nenhum banco vai captar mais caro para aplicar mais barato”, disse.
Embates com senadores
A comissão também foi marcada por cobranças de senadores sobre a velocidade de crescimento do Banco Master e o impacto potencial sobre o FGC. Parlamentares afirmaram que a expansão do banco ocorreu “fora da curva” do sistema financeiro e questionaram se o BC falhou ao permitir que a instituição ampliasse sua exposição.
Galípolo reconheceu que o desafio da supervisão bancária é permanente e afirmou que o sistema financeiro sempre encontra formas de contornar regulações existentes. “Você coloca uma regra, o sistema encontra um jeito de construir algo ao redor dela e você precisa criar outra regra”, afirmou.
O presidente do BC também buscou separar a preservação da instituição financeira da responsabilização de gestores. Em resposta a críticas sobre decisões envolvendo o Banco Voiter e mudanças societárias relacionadas ao grupo Master, Galípolo afirmou que a liquidação de um banco não pode ser usada como instrumento punitivo contra seus controladores.
“O mandato do Banco Central é reduzir danos para a população e para o sistema financeiro”, declarou. Segundo ele, a eventual punição de responsáveis por irregularidades deve ocorrer nas esferas criminal e administrativa, sem comprometer correntistas e investidores da instituição.
Durante a sessão, Galípolo afirmou que o BC identificou indícios de possíveis irregularidades envolvendo o grupo em prazo considerado recorde pela autarquia. Segundo ele, em cerca de três meses houve identificação preliminar de indícios e, em seis meses, as informações já haviam sido encaminhadas ao Ministério Público.
Pressão sobre reuniões de Vorcaro no BC
Os senadores também pressionaram o presidente do BC sobre reuniões de executivos ligados ao Banco Master com integrantes do Banco Central, incluindo encontros do controlador Daniel Vorcaro com diretores. Galípolo afirmou que bancos em situação delicada costumam manter reuniões frequentes e prolongadas com áreas de supervisão, especialmente em cenários de risco financeiro.
Ele admitiu ainda que a instituição enfrenta dificuldades estruturais para supervisionar o sistema financeiro diante da redução do quadro de servidores e da falta de recursos tecnológicos. Segundo ele, o BC perdeu cerca de 1.200 funcionários nos últimos dez anos e atualmente opera com equipes muito menores do que as observadas em autoridades monetárias de outros países.
“Vai chegar um momento em que teremos de escolher o que conseguimos supervisionar e o que não conseguimos”, disse.
Galípolo afirmou que o Brasil possui um sistema financeiro particularmente complexo por operar um modelo de pagamentos instantâneos contínuo, o Pix, funcionando 24 horas por dia e sete dias por semana. Segundo ele, isso aumenta a necessidade de investimentos em tecnologia, inteligência artificial e supervisão automatizada.