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Brasil tem juros mais altos que pares, mas inflação sistematicamente supera meta, diz Galípolo

Segundo presidente do BC, últimos quatro grandes choques de oferta (covid, guerra da Ucrânia, tarifas e, agora, Oriente Médio) aumentaram os preços e colocaram novos desafios

19 mai 2026 - 11h31
(atualizado às 11h49)
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O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo
Foto: Wilton Junior/Estadão / Estadão

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta terça-feira, 19, que é fato que o Brasil sustenta taxas de juros sistematicamente e historicamente mais altas do que os seus pares. Apesar disso, a inflação tem sistematicamente superado a meta no País.

"Quando a gente olha o resultado da política monetária, estou comparando desde 2020, percebemos que só não houve uma carta aberta — que é quando o Banco Central tem que comunicar ao Ministério da Fazenda que não conseguiu cumprir a meta — em 2020 e em 2023. Ou seja, nesses seis anos, em quatro anos, o Banco Central não cumpriu a meta", pontuou, durante participação em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado.

Segundo Galípolo, a convivência desses dois fatores levanta uma questão de ordem estrutural: "Por que no Brasil é necessário fazer um esforço maior de política monetária para se conseguir o mesmo efeito que se consegue em outros países?"

Ele emendou que, entre os temas relevantes para essa questão, está o debate sobre os núcleos de inflação. Galípolo mencionou que hoje o BC analisa os núcleos de inflação e observou que a média desses núcleos atualmente já roda no mesmo nível que a inflação cheia.

Busca por crédito

Ao comentar os choques de oferta recentes, Galípolo relembrou que, em 2020, em função da pandemia, houve uma queda muito grande na atividade econômica no mundo e que os BCs colocaram as taxas de juros em níveis também historicamente baixos.

"Lá fora chegaram em patamares negativos e aqui no Brasil chegou próximo de 2%", disse. Nesse cenário, afirmou, faz sentido imaginar que quem perdeu renda em função da queda da atividade econômica busque sustentar o consumo com algum tipo de financiamento.

"Tem vários estudos internacionais mostrando que a relação das pessoas com o cartão de crédito subiu de dois, três para cinco cartões de crédito ao longo desse período, o que envolve um financiamento maior relativo a cartão de crédito. Esse fenômeno global é acentuado no Brasil, curiosamente, por um processo de bancarização que se relaciona inclusive com o Pix", mencionou.

Choques de oferta

O presidente do Banco Central observou que o misery index, que considera o nível de desemprego e de inflação, está no menor valor da série histórica no Brasil, mas que os choques de oferta recentes levaram a uma queda de correlação com o bem-estar.

"Após quatro choques de oferta, o nível de preço subiu. Raramente você vai perguntar para alguém e ele vai saber qual é a inflação daquele mês ou qual é o núcleo de inflação daquele mês, mas a pessoa sabe quanto custa a carne, quanto custa o leite, quanto custa o ovo", disse.

Galípolo afirmou que essa questão tem levantado uma questão em nível internacional, que vem sendo chamada de affordability. "É difícil para os bancos centrais porque a função do BC é justamente não deixar que essa elevação de preço vire uma espiral preço-remuneração que propague a inflação e faça uma inflação perder controle", disse.

Galípolo repetiu que os últimos quatro grandes choques de oferta — a covid-19, a guerra da Ucrânia, as tarifas americanas e, agora, a guerra do Oriente Médio — aumentaram os níveis de preços e colocaram novos desafios para as autoridades monetárias do mundo.

Ele disse que os aumentos sequenciais dos níveis de preços levam a um desconforto da população. O BC, por outro lado, só pode reagir à inflação, que é a variação nos preços, e isso causa uma "dissonância", porque as pessoas percebem o custo de vida mais alto.

"A cada choque de oferta desse, você mudou o nível de preço, e o Banco Central trabalha com um sistema de metas de inflação; ele está olhando variação. Então você pode ter tido uma mudança no nível de preço em um ano e, no ano seguinte, a variação cair de volta para dentro do centro da meta. Porém, as pessoas convivem com o nível de preço", disse.

Hoje, segundo Galípolo, dois choques de oferta estão atuando nas economias: o aumento dos preços do petróleo, por causa da guerra no Irã, e a possibilidade de um El Niño mais forte. "Qual é o principal desafio para nós aqui, no Banco Central? É conseguir segregar o que é uma elevação de preços decorrente desses choques de oferta e o que são efeitos de segunda ordem", disse.

Ele destacou que a economia brasileira está aquecida, com o menor desemprego da história e forte crescimento da renda, o que aumenta a complexidade na reação do BC à desancoragem das expectativas. Galípolo chamou atenção para o aumento das expectativas para 2028, que já estavam parcialmente desancoradas e têm avançado mais depois do choque de oferta.

Real e petróleo

O presidente do Banco Central afirmou que o câmbio vem se comportando bem, com o real sendo a moeda que mais tem se apreciado em comparação não só aos pares, mas aos países avançados.

Do ponto de vista doméstico, ele destacou que o real tem se apreciado pelo fato de o Brasil ser exportador líquido de petróleo e pelo diferencial de juro. Do ponto de vista regional, ressaltou que as moedas latino-americanas recentemente têm se apreciado em momentos de aversão a risco.

"É algo relativamente novo a gente ver a aversão a risco subir e as moedas de países latino-americanos se apreciarem; geralmente costumava ser o contrário", ponderou.

Em relação ao comportamento do dólar, Galípolo observou que, embora a curva futura de juros norte-americana venha se comportando bem, diante do otimismo do mercado com os ganhos de produtividade relacionados à inteligência artificial, o dólar tem registrado desvalorização frente à maior parte das moedas.

Esse cenário, afirmou, tem beneficiado o Brasil. "Quando o conflito se intensifica, o Brasil é visto como um porto seguro por ser exportador líquido de petróleo. Quando arrefece o conflito, também se vê o Brasil como uma boa oportunidade em função da situação em que eles se encontram. Então, o real vem se beneficiando duplamente nesse processo", afirmou.

Dívida pública

Galípolo disse que a discussão sobre os impactos da política monetária na dívida pública é principalmente brasileira, por causa da emissão de títulos indexados à Selic.

O banqueiro central citou as Letras Financeiras do Tesouro (LFT) como um fator que levou à indexação da dívida pública à Selic. Por serem indexados à taxa básica, esses papéis aumentam a renda dos seus detentores sempre que os juros sobem, ao contrário do que acontece no restante do mundo.

"Se o Tesouro decidiu ligar 50% da dívida pública à Selic e 20% ao IPCA, é porque essa taxa era a mais barata que ele encontrava para rolar a sua dívida", disse o presidente do BC. "Essa discussão sobre relação entre taxa de juros e evolução da dívida pública é uma discussão bastante brasileira, é uma coisa muito particular do Brasil."

Estadão
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