'A gente precisa ser bem maluco nos dias de hoje para a inovação acontecer', diz cofundador da Dengo
De cacau premium à inteligência artificial na saúde, CEOs contam como inovam sem perder a coerência
"Inovação é tornar óbvio o que é nada óbvio". Foi assim que o cofundador da Dengo, Estevan Santorelli, respondeu ao ser questionado sobre o que significa inovação. No painel "CEOs redefinindo o amanhã", no São Paulo Innovation Week, lideranças compartilharam como inovar nasce, muitas vezes, de ideias simples, escolhas desconfortáveis, decisões impopulares, coragem e uma certa dose de inconformismo.
Santorelli relembrou a criação da empresa, em que decidiu apostar no mercado de cacau, mesmo sabendo que é dominado por players gigantes com idade média de 140 anos que concentram mais de 80% do setor global. Para o Brasil, encontrou duas brechas: "O produtor de cacau era mal remunerado no campo e o consumidor não tinha acesso ao chocolate mais saudável, sem gordura hidrogenada."
Foi dessa percepção que nasceu a empresa e de uma série de decisões consideradas improváveis. "A gente precisa ser bem maluco nos dias de hoje para a inovação acontecer", disse.
O São Paulo Innovation Week, maior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até sexta-feira, 15.
Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias do evento estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre muitas outras.
No Einstein Hospital, uma das decisões impopulares veio com a ampliação da inteligência artificial. Hoje, a instituição soma 130 algoritmos que auxiliam o corpo médico na operação do dia a dia.
Antes disso, enquanto parte do mercado apostava que a IA poderia "roubar" empregos de médicos, por exemplo, Sidney Klajner, presidente do hospital, investia na implementação para melhoria dos processos com a participação direta de médicos, inclusive.
Foi quando também começou a utilizar o conceito de "inteligência aumentada" no hospital. "Aquilo que as pessoas colocam como ameaça não vai roubar emprego. Vai permitir que você tenha qualquer emprego."
Durante a palestra, o executivo citou pesquisas que mostravam pacientes que utilizam IA generativa para consultas teriam resultados menos resolutivos do que buscas no Google. "Criamos soluções para que o médico tenha mais capacidade resolutiva e mais tempo para o paciente."
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Sustentando o argumento, o executivo também relembrou uma conversa que teve com Bill Gates na casa do magnata. Na ocasião, Gates afirmou que o médico estaria no bolso das pessoas no futuro, em alusão ao avanço da tecnologia. O presidente do Einstein, que também é médico por formação, discordou de imediato da análise feita por Gates.
Coerência em tempos de crise
Para redefinir o amanhã, os painelistas relembraram como agiram em momentos difíceis. Joca Oliveira, CEO da Unico Skill, empresa de benefícios em educação, escolheu abandonar negócios rentáveis para acelerar novas apostas. O maior exemplo veio quando a empresa perdeu o iFood, até então o principal cliente. "Aquilo forçou a gente a pivotar um produto que hoje faz sucesso. Dois anos depois eles estão voltando."
Já o cofundador da Dengo, citou os dois momentos mais difíceis da trajetória da Dengo: a pandemia e a alta histórica do cacau na bolsa de valores. "A crise passa, mas a coerência fica", resumiu. Mesmo diante do aumento explosivo do preço do cacau, a empresa decidiu não alterar formulações nem reduzir a qualidade dos ingredientes.
Em 2023, o preço do cacau encerrou o ano na Bolsa de Nova York cotado em torno de US$ 4 mil por tonelada. Nos últimos 12 meses, os preços dos bombons e ovos de chocolate subiram 16,7%, conforme levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV IBRE).
"A alta obrigou a repensar várias linhas do negócio, mas o que nunca abrimos mão foi da qualidade. Não tem nada de luxo em empreender. Se ficar citando somente os desafios, vamos fazer uma sessão de cortar os pulsos", disse em tom humorado. "Tem que ter muito fígado e estômago."
Para conseguir encarar tomadas de decisão impopulares e passar por momentos de crise, os três líderes citaram que o modelo de liderança tem impacto direto. Santorelli disse que "a liderança carreirista, que coloca os interesses pessoais acima do negócio e das pessoas, é devastadora." Na saúde, Klajner reforçou que inovar exige exemplo prático da alta gestão. "Tem que dar suporte necessário para inovar e participar", resumiu.
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