Galípolo indica que fatia da dívida pública atrelada à Selic pode dificultar trabalho do BC

19 mai 2026 - 13h11

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, ‌indicou nessa terça-feira que a dependência do governo brasileiro de uma participação elevada de títulos atrelados à Selic na composição da dívida pública pode dificultar o trabalho da autarquia para controlar a inflação.

Presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galipolo, participa de uma coletiva de imprensa na sede do Banco Central do Brasil em Brasília, 26 de março de 2026. REUTERS/Adriano Machado
Presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galipolo, participa de uma coletiva de imprensa na sede do Banco Central do Brasil em Brasília, 26 de março de 2026. REUTERS/Adriano Machado
Foto: Reuters

Em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, Galípolo afirmou que esse fenômeno particular do Brasil faz com que elevações da Selic pelo BC aumentem a remuneração dos detentores desses títulos --Letra Financeira do Tesouro (LFT).

Publicidade

"Hoje nós temos 50% da dívida soberana 'linkada' à ⁠Selic... Quanto mais eu subo juros, mais renda o detentor de LFT tem", disse, indicando que uma elevação na renda ‌dos detentores pode atuar contra o trabalho do BC de arrefecer a atividade econômica para controlar a inflação.

Em março, a dívida pública federal tinha uma fatia de 47,7% de títulos atrelados à Selic em sua composição, segundo ‌dados do Tesouro Nacional.

A taxa Selic está atualmente em 14,50% ao ‌ano, enquanto o BC faz uma calibração dos juros com cortes graduais e promete encerrar o ciclo ⁠ainda em nível restritivo.

O presidente do BC acrescentou que o país tem registrado resiliência econômica, desemprego baixo e crescimento da renda dos trabalhadores acima da inflação apesar de juros "bastante restritivos".

Publicidade

"Toda vez que a gente tem esses indicadores mostrando uma economia que está bastante aquecida, com a demanda pressionando a oferta, e isso vem colocando a inflação mais distante da meta... a resposta que é demandada ao BC é colocar a taxa de juros num patamar mais ‌restritivo para tentar devolver a inflação à meta dentro do horizonte relevante", disse.

CHOQUES

Na apresentação, Galípolo avaliou ser "normal" que choques de ‌oferta gerem aumento das expectativas de ⁠inflação no curto prazo, mas ⁠chamou atenção para o fato de que as projeções de mercado para 2028 também estão aumentando, algo que não deveria acontecer ⁠apenas em decorrência dos choques.

Segundo ele, dois choques de oferta estão ‌impactando a economia: o do petróleo, ‌em meio à guerra no Oriente Médio, e o do El Niño.

"Também estamos vendo desancoragem das expectativas de inflação para 2028, que não deveria acontecer considerando apenas os efeitos dos choques atuais", afirmou Galípolo aos senadores.

Desde o início da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, no fim de fevereiro, ⁠as expectativas de inflação no Brasil estão subindo, na esteira da disparada dos preços do petróleo no mercado internacional.

Publicidade

No boletim Focus divulgado pelo BC na segunda-feira, a mediana das projeções dos economistas para a inflação em 2026 está em 4,92% e para 2027 em 4,00% -- bem acima dos 3,91% e dos 3,79% projetados antes da guerra, respectivamente.

Tem chamado a atenção dos dirigentes do BC, no entanto, ‌o fato de as expectativas para 2028 também estarem aumentando. No último Focus, a projeção de inflação para 2028 estava em 3,65%, contra 3,50% de antes da guerra.

A meta de inflação perseguida pelo BC é de ⁠3%, com tolerância de 1,5 ponto para mais ou para menos.

Ao tratar da inflação, Galípolo pontuou ainda que a média dos núcleos de inflação acompanhados pelo BC está atualmente nos mesmos níveis da inflação cheia. No mercado, há discussões sobre eventual vantagem em se adotar um núcleo de inflação -- que exclui preços mais voláteis -- como referência para cumprimento da meta, e não necessariamente o indicador cheio do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

BC ASFIXIADO

Publicidade

Ao defender novamente que o Congresso Nacional aprove a autonomia financeira do BC, Galípolo afirmou que a autarquia perdeu cerca de 1.300 servidores nos últimos dez anos, enquanto viu um salto no número de instituições financeiras a serem supervisionadas.

Segundo ele, com poucos recursos, a autoridade monetária terá que começar a escolher o que cobrir com seu "cobertor curto", e não conseguirá fiscalizar certas questões como deveria.

"Meu receio é que o fato de o Banco Central não negociar seu mandato faça o Banco Central ser asfixiado porque não entra no jogo político", disse.

Reuters - Esta publicação inclusive informação e dados são de propriedade intelectual de Reuters. Fica expresamente proibido seu uso ou de seu nome sem a prévia autorização de Reuters. Todos os direitos reservados.
TAGS
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações