Com a chegada das primeiras semanas de fevereiro, o brasileiro entra oficialmente em “modo curtição”, ritmo que deve perdurar pelas próximas três semanas. Apesar de o Brasil não ser apenas “o país do Carnaval”, um de seus vários apelidos adotados no exterior, a folia por aqui não é tratada só como mais um feriado, mas representa uma forte tradição popular e faz parte da cultura local. Mas como cada religião lida com a festa? O Terra reuniu líderes e estudiosos das principais religiões do país para explicar como cada doutrina entende e lida com o período
Segundo o Ministério do Turismo, a estimativa é que mais de 60 milhões de pessoas participem do período de festa deste ano, entre bloquinhos de rua, desfiles e shows. No entanto, a prática não é regra para todo mundo.
Catolicismo
A história do Carnaval no Brasil está fortemente atrelada à influência da Igreja Católica. Segundo historiadores e teólogos, a tradição do festejo veio da Europa com os portugueses durante a colonização, marcando a “despedida da carne” antes do início da Quaresma.
“O carnaval, como nós sabemos, é a festa da carne. Ou seja, da carne que se vai. [Antigamente] os cristãos, logo após a festa do carnaval, começavam a celebrar aquilo que nós chamamos do período da Quaresma, um período de reconhecimento, um período penitencial e isso foi se concretizando cada vez mais na história. Com o encerramento do carnaval, logo após a Igreja nos chama ao recolhimento, à penitência, à oração, que é a quarta-feira de cinzas. E começa, então, o período quaresmal”, explicou o professor de teologia Pe. Rodrigo Arnoso, C.Ss.R. (Congregação do Santíssimo Redentor).
O avanço da tradição católica para a cultura popular de rua também data do mesmo período. No entanto, apenas no século 20 foram incorporados os elementos africanos que moldaram a festa como ela é hoje.
Sendo a religião mais seguida entre os brasileiros — representando 56,7% da população (cerca de 100,2 milhões de pessoas), de acordo com dados do IBGE —, o carnaval não é visto com maus olhos pelo catolicismo, apesar de fiéis mais tradicionais desaprovarem a celebração.
Arnoso explica que, por muitos anos, alguns segmentos da Igreja “satanizaram” a festa. A desaprovação se dava por considerarem o período impróprio, mas, hoje, o tema é tratado com mais serenidade.
“Nós podemos entendê-lo como uma festa em que as pessoas celebram a cultura, a alegria e fazem as suas homenagens. Hoje, podemos até dizer que, aqui no Brasil, os desfiles das escolas de samba são verdadeiras aulas de história e até mesmo de cultura, nos campos da música, do teatro e da pesquisa. Por isso, hoje a Igreja tem um olhar diferente para o carnaval”, pontuou o padre.
Ele destaca que os cristãos aproveitam o feriado para celebrar à sua própria maneira, em comunidade, e também para realizar ações de evangelização. “Nós precisamos superar a ideia de que o carnaval é uma festa que nos distancia de Deus, nós temos que perceber que nós também nos aproximamos de Deus através da nossa cultura. Por isso, hoje a Igreja também respeita essa manifestação e, claro, nos convida a vivê-la de uma forma saudável”, disse.
“Muitos, às vezes, confundem carnaval com promiscuidade. Essa não é a finalidade da festa. Não tem nenhum documento que normalize a frequência dos cristãos na folia, o que a igreja sempre pede é que os cristãos saibam desfrutar deste momento à luz do Evangelho. Então, não cometam nenhum ato que possa não estar de acordo com a própria palavra de Deus”, ressaltou Arnoso.
Igrejas protestantes e evangélicas
Em expansão nos últimos anos, as igrejas evangélicas, que representam cerca de 26,9% da população (47,4 milhões de fiéis), possuem posicionamentos variados em relação ao carnaval. A opinião varia de denominação para denominação, tendo como principal ponto em comum as críticas aos excessos praticados no período.
De acordo com o pastor da Online World Church (OWC), Lucas Santos, ainda que muitos vejam a festa como uma expressão folclórica ou cultural, para os evangélicos o carnaval entra em conflito direto com princípios ensinados na Bíblia — como santidade, domínio próprio e a separação entre a Igreja e o mundo — e, por esse motivo, não é celebrado.
Santos destacou que as raízes desse entendimento estão no livro de 1ª João: “Não ameis o mundo, nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo”.
Segundo o pastor, o posicionamento não se restringe ao carnaval, mas se estende a outras celebrações que não estão mencionadas na Bíblia.“Dentro da nossa compreensão bíblica na OWC, a igreja da qual sou pastor, priorizamos e celebramos aquilo que é ensinado nas Escrituras, como as festas e os princípios estabelecidos por Deus, e evitamos qualquer tipo de flexibilização em relação a festas de origem pagã ou mundana. Por essa razão, não aderimos nem incentivamos celebrações como festas juninas, o Natal, que é de cunho meramente comercial e pagão, ou o próprio carnaval”, afirmou.
Há grupos e denominações mais liberais, que incentivam a comemoração de maneira moderada, aproveitando o feriado para que os fiéis não fiquem de fora da folia — com bloquinhos gospel, músicas adaptadas, entre outras iniciativas.
Espiritismo
Para o Espiritismo, a terceira religião com mais adeptos no país, a festa é tratada como um período de maior influência espiritual. De acordo com o vice-presidente da Federação Espírita Brasileira (FEB), Geraldo Campetti, os fiéis reconhecem a importância cultural da celebração, mas não incentivam os excessos cometidos durante o período, pois estes geram consequências negativas.
“É algo muito bonito no aspecto artístico, mas, em termos de comportamento, vemos excessos e abusos. As pessoas acabam extravasando nessa festança toda, o que gera desorganização emocional e psíquica, além de consequências físicas”, explicou Campetti.
Segundo ele, todos são livres para escolher, mas são responsáveis por suas ações. “O Espiritismo não condena o carnaval, mas, também, não estimula suas festividades”, pontuou.
A Tom Maior, campeã de 2025 do Grupo de Acesso I de São Paulo, levará ao Sambódromo do Anhembi uma homenagem ao médium Chico Xavier com o enredo Chico Xavier: nas entrelinhas da alma, as raízes do céu em Uberaba, que abordará sua trajetória. A escolha gerou críticas online de adeptos do Espiritismo. Campetti, no entanto, afirmou que a doutrina preza pela liberdade com responsabilidade e que a atitude também pode ser vista como uma forma de divulgação da fé.
“Chico Xavier é uma personalidade que até transcende, digamos assim. Porque as pessoas que também não são espíritas e são de outras religiões, gostam de Chico. Então, quando vemos uma homenagem, pode ser contraditório [para os fiéis]. Não é que vamos aprovar e aplaudir, mas também não vamos condenar”, destacou.
Religiões de Matriz Africana
Segundo o babalorixá, professor de cultura iorubá e autor da obra Orí: A Cabeça Como Divindade, Márcio de Jagun, o Carnaval não faz parte da liturgia afro-brasileira, mas carrega um “DNA dos terreiros” e desempenha um papel importante na celebração da herança africana.
“O samba, que é a espinha dorsal do Carnaval, nasce dentro dos terreiros. A própria expressão ‘samba’ deriva do vocábulo ‘semba’ [que quer dizer] diversão, alegria, conforme os idiomas de origem banto. [...] O templo afro-brasileiro não é forjado no Brasil como um lugar exclusivamente voltado ao culto. Ele é o lugar da fé, é o lugar da habitação, do acolhimento da diversão. Depois das celebrações, se faziam as rodas de samba e se faziam os batuques. O carnaval brasileiro tem o DNA dos terreiros de candomblé”, afirmou.
O especialista explicou que essa influência é perceptível nas escolas de samba, onde as baterias utilizam ritmos dedicados a entidades como Oxóssi e Iansã, também chamada de Oyá, entre outras.
“Os orixás celebrados naqueles terreiros passam a ser patronos das escolas de samba. E os ritmos típicos da celebração desses deuses é demarcado como uma identidade na bateria dessas escolas. Não tem como 'desmacumbizar' o samba, o carnaval brasileiro. É identidade, são nascidos da mesma fonte. São lapidados a partir de vários formatos de resistência. E uma resistência que é luta, mas também é sorriso”, explicou.
Segundo De Jagun, apesar das reverências às homenagens típicas da festividade no Brasil serem um ponto em comum, não há um posicionamento único entre as lideranças das religiões de matriz africana. “Em alguns casos, o sincretismo afrocatolíco é mais presente, [onde] a gente pode notar comportamentos ou restrições ao carnaval muito inspiradas pelo cristianismo e outros não”, pontuou o babalorixá.
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