Leoa do samba, mulher dos terços e mamãe: Solange Cruz tirou Mocidade Alegre do jejum em meio ao luto

Em entrevista ao Terra, ela fala sobre passado, sucessão e o que a move

13 fev 2026 - 04h58
(atualizado em 14/2/2026 às 03h40)
Solange Cruz é puro amor pela Mocidade Alegre
Solange Cruz é puro amor pela Mocidade Alegre
Foto: Beatriz Araujo/Terra

Uma vaia ecoou em meio à arena da Mocidade Alegre lotada, em São Paulo, no último ensaio antes do desfile deste ano. Solange Cruz, de 60 anos, presidente da escola, apresentava um grupo de advogadas que atuam em uma ação contra assédio no carnaval. Nada passa despercebido por ela, é o que todos falam. E assim aconteceu mais uma vez. Ela parou o que estava fazendo, deu um ‘fecho’ no homem e foi aclamada pela multidão. Solange se apresenta como uma mulher brava, detalhista e que sempre se posiciona. Mas, para além da ‘leoa do samba’ e da 'mulher dos terços' nos dias de apuração, ela também tem um lado sensível, que lidou com lutos e perdas ao dedicar sua vida ao carnaval, além de ser vista como uma figura materna por quem caminha ao seu lado desfile após desfile.

  • Essa reportagem faz parte da série Donas da Folia, que traz os bastidores da participação feminina no carnaval; leia também o custo de ser musa

Não foi fácil conseguir um horário em sua agenda faltando poucos dias para a escola desfilar no sambódromo do Anhembi. No último domingo, 8, enquanto a quadra da Mocidade Alegre era agitada por uma roda de samba, Solange chegava em seu camarote pelos fundos, em uma sala de acesso restrito. Lá, com sorriso no rosto, nos recebeu. 

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Todo tempo é precioso. Dormir é raro. Nessa fase, qualquer ida ao banheiro de madrugada com o celular na mão se torna hora de trabalho. Tomar ansiolítico também faz parte da rotina. E é assim há 23 anos, desde que Solange assumiu a presidência da Mocidade Alegre em 2004, após a morte da irmã, Elaine, por complicações relacionadas ao diabetes. A escola, que começou como um bloco organizado pelo seu pai e dois tios por volta da década de 1950, nunca saiu da mão da família. Solange não era a primeira opção da sucessão, mas era quem estava ali para assumir de imediato o cargo. Foi ela na presidência que  a Mocidade Alegre renasceu e voltou a vencer o carnaval paulistano após 24 anos de jejum.

“A mocidade Alegre tem 58 anos, eu tenho 60. Então é desde a barriga da minha mãe que eu faço parte dessa trajetória” -- Solange Cruz em entrevista ao Terra

Sentada ao lado das imagens de Nossa Senhora e de terços que sempre a acompanham, Solange relembra de quando, em meio à época da censura, os antigos Juizados de Menores batiam na quadra e ela tinha que se fugir junto as outras crianças. “A gente se escondia debaixo da saia das baianas, corria pro quartinho das fantasias. Hoje é engraçado, mas na época não era. A gente vê o quanto evoluiu e ainda estamos nessa luta de se fazer entender que o carnaval é cultura”.

Mistura

Não existe Solange Cruz sem carnaval e sua história se mistura com a de sua escola do coração, de laços de sangue. Antes de ser presidente, ela passou por diversos departamentos na escola: ala das miudinhas, da igualdade, foi destaque de ala, chefe de ala, diretora de eventos e assim por diante. Nunca ficou um carnaval sequer longe disso tudo. Quando assumiu a presidência, a primeira coisa que fez foi criar uma comissão de carnaval para ouvir, entender, e depois falar. “Eu falava: 'Se der certo, vai ser muito bom. Se não der, nós vamos cair no primeiro ano'. Mas deu muito certo, a escola foi campeã”, conta. Hoje, tudo passa por ela. Tudo, como frisou.

Quem é Solange Cruz, a 'mulher dos terços' que reergueu a Mocidade Alegre em meio ao luto
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Os mais de 20 anos como presidente foram de muitas alegrias, mas não foram só disso. Essa história também foi marcada pelo luto. Primeiro pela morte da irmã, que foi foi acompanhado por revolta por questões pessoais. “Nós sofremos por ela, e colocar a escola na Avenida era uma questão de honra”, diz, relembrando que tudo só foi possível por causa do trabalho em equipe da comunidade. Mas essa não foi a única perda. Seu tio Juarez, que foi o autor do apelido de leoa do samba, também partiu.

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Neste ano, a Mocidade Alegre terá o enredo “Malunga Léa - Rapsódia de uma Deusa Negra"
Foto: Beatriz Araujo/Terra

“Meu tio não falava comigo. Ele não entrava na quadra, ficava lá fora. Ele falava: ‘Essa menina é muito briguenta, não vai dar certo’. Mas aí a escola ganhou [no primeiro ano]”, conta. Nisso, um dia, "meu tio apareceu todo emocionado. Aí ele fala: ‘Poxa, você foi a pessoa certa, no momento certo, para trazer a nossa escola de volta para a mídia, para o carnaval, para o campeonato. Eu comecei a ver uma escola com orgulho de vestir a camisa, de começar um resgate diferenciado’. E daí em diante meu tio passou a me ajudar, até 2009, quando o enredo da escola fala do coração e ele infarta no dia da apuração”. 

Ele nunca assistia à apuração. Quando chegava esse dia, costumava ir para o cinema e sabia do resultado só após o filme, quando tudo já estava definido. A abertura das notas sempre o deixou nervoso. Mas, naquele ano, ele foi para a Mocidade para acompanhar com a escola. O enredo era: Da Chama da Razão ao Palco das Emoções, Sou Máquina, Sou Vida, Sou Coração Pulsando Forte na Avenida” Solange estava no Anhembi e, pela transmissão que filmava a quadra, viu que uma ambulância entrou no lugar. A escola da Zona Oeste saiu com o título de campeã e, após o tumulto, Solange soube que era seu tio que tinha sido levado. Ele morreu após o desfile das campeãs. 

“Eu sabia que eu tinha que me dedicar mais. Minha irmã se foi, meu tio se foi, meu pai se foi, mas eu tô aqui, continuo esse legado, e continuo fortalecendo a minha escola, trazendo ela pra cima. É isso que eu penso, é isso que me motiva” -- Solange Cruz

Trajetória

Sob o comando de Solange, a Mocidade já conquistou 8 títulos do Grupo Especial de São Paulo. Em meio a isso, já foi usada como exemplo em salas de aula, foi enredo do carnaval de Santos e do Rio de Janeiro, apareceu na Forbes, fez palestras sobre sua trajetória e muito mais. Tudo isso custou, e custa, tempo. Hoje, olhando para tudo que viveu, reconhece ter sido “um pouco falha” na criação de seu filho, Carlos, agora com 25 anos. 

Em seu camarim, Solange guarda com carinho uma bandeira com a foto do neto
Foto: Beatriz Araujo/Terra

Emocionada, ela relembra de quando o filho contou em uma entrevista que era difícil a mãe ir às suas reuniões da escola, e que quem o buscava todo dia era o pai. “Eu deixei muito mais para o pai do que para mim. Porque a Mocidade me consumia muito. E eu acho que agora quero reverter isso para o meu neto, né. Que é uma pessoa que eu amo demais-- mas que, por ironia do destino, é grudado com o meu marido também”, conta Solange. 

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“São várias coisas que agora mexem no meu íntimo. É muito diferente com os netos. A gente quer estragar,. Dar presente, fazer tudo o que eles querem. Eu só tive um filho e, por enquanto, só tenho um neto, que é o Marquinhos [agora com 3 anos]. Mas tomara que eles me deem mais uma netinha, ou um netinho. O que vier, vai ser bem-vindo”. Agora, seu sonho é ver seu neto crescer, com saúde, e poder acompanhar tudo de perto.

Filhos da escola

Não é apenas com o neto que Solange ‘compensa’ seu lado mãe. No dia a dia na Mocidade Alegre ela foi ganhando filhos --pessoas que trabalham lado a lado da presidente, e que, no íntimo, a chamam até de mamãe. Uma delas é Sandra da Costa, de 49 anos, que trabalha diretamente com Solange há 12 anos. Ela veio do Amazonas para atuar na cozinha do antigo barracão da agremiação. Elas se deram bem, se aproximaram, e agora ela trabalha também na casa de Solange. Outra que faz parte do grupo da “mamãe” é Rosemi Camargo, integrante da escola há 18 anos.

De acordo com as "filhas", Solange está sempre atenta com todos, é muito observadora e caprichosa, gosta de agregar famílias e faz questão de comparecer tanto às festas que é chamada, quanto de ir a velórios quando alguém da comunidade parte, além de ser allguém com capacidade de se transformar em questões de segundos nos momentos de dor.

Sandra e Rosemi contam que Solange é chorona e também é brava, mas que não deixa ninguém desassistido
Foto: Beatriz Araujo/Terra

Momentos difíceis

Em 2012, o barracão da Mocidade pegou fogo antes do carnaval. Tanto fantasias quanto troféus e memórias pessoais da família foram levadas pelas chamas. “Eu olhava para a Solange, no canto, e via a tristeza. Eu tentava imaginar o que estava passando na cabeça dela naquele momento. E aí veio uma pessoa para tirar foto com ela. Ela se transformou, sorriu e tirou a foto”, contou Rosemi, que brincou que, depois da princesa Diana, Solange é a pessoa mais clicada. 

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Foi em momentos difíceis que Solange fortaleceu amizades, com o vínculo com Angelina Basílio, presidente da Rosas de Ouro. O pai de amiga morreu no mesmo ano que sua irmã e suas histórias se cruzaram. Desde então, elas seguem se fortalecendo para além da competição nos desfiles.

Por mais que ainda sejam minoria, há outras mulheres que "fazem acontecer" no carnaval. Como sua tia Laila, que foi presidente da Mocidade Alegre antes de sua irmã, e também Erica Ferro, presidente da Camisa Verde e Branco. No começo, Solange conta que a Liga-SP era muito machista, mas que ela nunca se intimidou.

"As nossas reuniões, às vezes, são um pouco acaloradas. No início eles gritavam, falavam palavrão, batiam na mesa e aí falavam: 'Ai, desculpa, agora tem mulher'. E eu falava: 'Gente, deixa eu falar uma coisa pra vocês. Eu também sei bater na mesa, também sei falar alto e também falo palavrão. Então tá tudo certo. Comigo vai ser de igual pra igual'. E é assim até hoje, eu não me intimido, eu não tenho receio, sou tranquila no que eu falo, apesar de ser Libriana, mas sou do signo da Justiça".

'Mulher dos terços'

Solange guarda todos os terços que ganha em casa, em caixas
Foto: Arquivo pessoal

O lado que talvez seja o mais conhecido de Solange é o da fé. Isso porque toda apuração é marcada por sua imagem segurando terços no Sambódromo. Ela conta que tudo começou de forma espontânea, com um simples terço para abençoar a abertura das notas. Conforme as pessoas foram percebendo, começaram a dar outros de presente. Assim, a cada ano, falta mão para tanto no terço. No fim, se tornou uma tradição para a própria escola.

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“Uma vez eu fui pra Fátima e jantando em um restaurante lá em Portugal uma mulher se levantou e foi até mim: ‘Moça, posso tirar uma dúvida? Você é a mulher dos terços?’. Isso é muito legal, às vezes as pessoas não sabem o meu nome, mas assimilam que sou a mulher dos terços.”

Solange não sabe dizer quantos terços já recebeu ao longo dos últimos anos, e que essa é a pergunta que todo mundo faz. Mas guarda tudo com carinho em caixas na sua casa. 

Ela é católica e entende a escola de samba como um lugar ecumênico. No aniversário da Mocidade Alegre eles fazem uma missa --“que tem o padre, mas também tem o pai Tinho”. “Tem minhas santas que também me acompanham. Proteção nunca é demais, até porque quem faz o bem, recebe o bem.”

Quem será o sucessor?

Ainda é cedo para pensar em um sucessor. Diferente de como aconteceu com seu pai e sua irmã, que morreram na cadeira da presidência, Solange vê que ainda tem uma trajetória para seguir. Talvez passar pela Baianas --o que pode ser difícil por conta de sua labirintite--, ou pela Velha Guarda. “Quem sabe”, disse. Mas quer se manter no cargo enquanto tiver tesão.

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“Quero continuar com essa palavra: tesão. Porque enquanto eu tiver tesão de estar nessa cadeira eu vou fazer o meu melhor. Eu quero ainda que a escola seja tetra. É uma batalha, uma luta, mas tamo ai. E o dia que eu não tiver tesão, eu tenho que levantar da cadeira e alguém tem que sentar, porque a minha escola merece o que tem de melhor.”

O neto de Solange, com o pai, enquanto brincava no camarim da avó
Foto: Beatriz Araujo/Terra

Solange só tem um filho. Pensando em manter a tradição, Carlos seria uma possibilidade de sucessor. Mas ela reconhece que ele é mais engrenado para o lado da música, tendo puxado ao pai. Atualmente ele é diretor de bateria na Mocidade, mas também atua como mestre de bateria na Pérola Negra --que é o seu trabalho, o que sustenta sua casa. 

Ele, ao menos por enquanto, não se vê na função. “Hoje a gente já tem o neto dela agora, que também é uma continuidade. Ainda vai demorar pra crescer um pouquinho, mas já é sangue do nosso sangue, não tem jeito, ele já gosta muito também”, analisa. “Vamos ver se até minha mãe parar ele já não fica grande e já passa na minha frente aí nessa bucha”, complementou, em meio a risadas.

Questionado sobre a figura da mãe, Carlos a vê como alguém que dedicou sua vida ao carnaval e reconhece que esse sucesso também a torna cada vez mais compromissada. Eles tentam separam as coisas e, em casa, buscam ter o máximo possível de uma relação mãe e filho “por mais que tenham momentos que são mais difíceis”.

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“Recentemente eu me tornei mestre de bateria de outra escola de samba, que é a Pérola Negra, e isso mexe com os dois lados do coração dela. O lado mãe e o lado presidente. Um orgulho danado, uma felicidade tremenda por ser minha mãe. Mas, por outro lado, ela sente um pouco daquilo: ‘Aí meu Deus, ele já não tá mais só aqui’”, conta Carlos. A expectativa, agora, é para saber como vai ser o próximo carnaval.

“Esse ano pode mudar muita coisa. A Pérola Negra está no grupo de acesso A, a escola pode subir. Inclusive, a gente está trabalhando muito, fazendo de tudo para que isso aconteça. E aí, se subir, eu quero ver o que vai acontecer. Aí só o tempo pra dizer”, brinca.

*A cobertura de carnaval do Terra tem apoio de Bluefit, Gol, Magalu, Mercado Pago, OMO e Popeye's #TerraNoCarnaval

Fonte: Portal Terra
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