Ciência revela como o cérebro interpreta a beleza artística

Um estudo usando ressonância magnética se concentrou nas redes cerebrais que estão na base da apreciação coletiva da arte

8 set 2026 - 11h14
(atualizado às 11h54)
Resumo
Um estudo publicado na Nature Communications revelou que o cérebro divide a apreciação artística em duas vertentes: o conteúdo visual, processado pelas vias visuais, e o valor hedônico, ligado aos circuitos de recompensa e prazer. Usando ressonância magnética e algoritmos de recomendação, os cientistas notaram que a expertise em artes altera a rede neural ligada à autorreflexão e ao significado, mostrando que a educação artística molda fisicamente como interpretamos a beleza.

Fique diante do quadro "Sun Rising Over Water" (1825-30), de Joseph Mallord William Turner, e algo estranho costuma acontecer. A pintura prende sua atenção, mesmo que você tenha dificuldade em dizer o porquê. Talvez seja a cor, o equilíbrio, a composição ou a estranha quietude que a obra parece transmitir.

Seja o que for, você sente isso muito antes de conseguir explicar. E a pessoa desconhecida ao seu lado, olhando para a mesma tela com o mesmo espanto nos olhos, muito provavelmente também sente isso.

Publicidade

Costumamos dizer que "a beleza está nos olhos de quem vê". Mas mostre a praticamente qualquer pessoa uma paisagem montanhosa enevoada chinesa da dinastia Song ou a figura delicadamente pintada da Mona Lisa, e quase todos concordam que algo impressionante está se revelando diante deles.

A beleza parece algo intensamente particular e, ao mesmo tempo, continuamos descobrindo que a compartilhamos coletivamente. Essa contradição é um dos enigmas de longa data da "neuroestética" — a ciência que estuda como o cérebro responde à arte e à beleza. Como nosso senso de beleza realmente se forma no cérebro?

Em nosso estudo mais recente, publicado na revista científica Nature Communications, tentamos mapear essa experiência compartilhada. Descobrimos que, em vez de representá-la como uma entidade única, o cérebro divide a experiência estética em duas vertentes principais. Uma vertente lida com o que uma imagem mostra, seja uma paisagem, um objeto ou uma figura.

A outra vertente analisa o quanto isso nos proporciona prazer, recorrendo aos mesmos circuitos que respondem à comida ou ao dinheiro. Esses dois sistemas neurais distintos se combinam para moldar cada julgamento de beleza que fazemos ao observar obras de arte visuais.

Publicidade

Os neurocientistas há muito discutem essa questão, a partir de posições que competem tão frequentemente quanto se sobrepõem. Um grupo concentra-se principalmente na percepção, em como o cérebro assimila a composição, o contraste e a forma.

Outro enfatiza a avaliação e a recompensa, situando a beleza nos circuitos de valor do cérebro. Um terceiro grupo analisa os sistemas cerebrais por trás da imaginação e da autorreflexão. Cada uma dessas visões captura algo real, mas raramente foram testadas juntas em um único estudo.

Algoritmos para a arte

Pedimos a 34 voluntários que observassem 96 pinturas tradicionais chinesas em aquarela dentro de um aparelho de ressonância magnética de 7T, potente o suficiente para detectar pequenas variações no fluxo sanguíneo que indicam a atividade cerebral. Ao saírem do aparelho, cada participante avaliou como as pinturas os faziam se sentir.

Em vez de trabalhar diretamente com essas avaliações brutas, no entanto, recorremos a uma ferramenta de uma fonte menos óbvia: os mecanismos de recomendação que alimentam serviços como Netflix e Spotify.

Publicidade

Conhecidos como algoritmos de filtragem colaborativa, essas ferramentas se destacam na detecção de padrões de concordância ocultos nas preferências das pessoas. Quando aplicados às nossas avaliações estéticas, eles identificaram duas dimensões subjacentes às respostas de todos.

A primeira classificou as pinturas das que mais se assemelhavam a figuras às que mais se assemelhavam a paisagens, uma medida do que cada imagem representa conceitualmente. A segunda as classificou das menos apreciadas às mais apreciadas entre todos os participantes, uma medida do valor emocional, ou valor hedônico (o prazer sensorial que alguém obtém de uma experiência).

Apesar de sua contribuição complementar para a experiência estética geral, o cérebro manteve essas duas dimensões notavelmente separadas. O conteúdo visual era interpretado ao longo das vias visuais, os circuitos familiares que nos permitem distinguir um rosto de uma cena.

O valor hedônico, por outro lado, era decodificado em outro lugar, em regiões mais profundas do cérebro que lidam com recompensa e prazer. Em termos simples, o cérebro parece julgar uma obra visual com praticamente o mesmo mecanismo que usa para julgar o resto do mundo ao nosso redor.

Publicidade

Mudando o cérebro

Também descobrimos que a intensidade com que o cérebro codificava esse panorama estético bidimensional dependia da expertise da pessoa em artes visuais. Em particular, a diferença se manifestou na chamada "rede do modo padrão" (default mode network, no original em inglês), um sistema de conexões no cérebro ligado à imaginação, à consciência, à autorreflexão e à construção de significado — que várias teorias importantes situam no cerne da experiência estética.

Esses resultados sugerem que, além da mera exposição, o treinamento em artes visuais parece alterar, desde o início, a forma como o cérebro representa a beleza.

Esse último ponto tem grande importância. Se a experiência estética possui uma estrutura mensurável no cérebro, e se a criação e a apreciação da arte podem remodelá-la, então a educação artística passa a parecer menos um enriquecimento cultural e mais um tipo de treinamento que altera a forma como a percepção, a emoção e o significado se interligam. As implicações clínicas seguem a mesma linha.

Terapias baseadas na arte para depressão, trauma e demência há muito são valorizadas com base no instinto e em relatos isolados. Uma explicação neural mais clara nos oferece uma maneira de testá-las e aprimorá-las. Por fim, à medida que mais imagens ao nosso redor — na publicidade, no design e em nossas telas — são geradas por máquinas, saber como a beleza se apresenta dentro do cérebro humano é mais importante do que nunca.

Publicidade

Na maioria das vezes, tendemos a tratar a beleza como algo puramente pessoal e presumimos que fazer perguntas científicas sobre ela é perder o foco. Com base em trabalhos pioneiros no campo da neuroestética, nossos resultados sugerem o contrário.

A beleza tem uma estrutura, e essa estrutura diz algo sobre o tipo de criatura em que nos tornamos ao longo de incontáveis anos de evolução. Não nos limitamos a olhar para o mundo. Pelo contrário, parece que não conseguimos parar de julgá-lo por sua beleza.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Deniz Vatansever recebe financiamento do Ministério da Ciência e Tecnologia da República Popular da China.

Xinyu Liang recebe financiamento da Fundação Chinesa de Ciência para Pós-doutorado e é pesquisador visitante no Clare Hall e na Divisão de Anestesia da Universidade de Cambridge.

Emmanuel A Stamatakis não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

Publicidade
Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se