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Com áreas precárias e falta de testes, Rio e DF disputam pior resultado do Brasil

Rio também sofreu com suspeitas de corrupção na Saúde; no DF, governador mudou desistiu de isolamento no meio da pandemia

10 out 2020
14h25
atualizado às 21h09
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RIO E BRASÍLIA - Entre as unidades do Brasil, Distrito Federal e Rio de Janeiro se alternam na pior colocação no critério de mortes por milhão de habitantes. Apesar das particularidades de cada local, especialistas apontam aspectos em comum que ajudam a explicar o mau desempenho no combate à covid-19: a falta de testes e a presença de áreas pobres, com carência de atendimento médico básico e dificuldade para fazer isolamento social.

Com mais de 18,5 mil mortes notificadas, o Rio proporcionalmente se equipara a regiões mais duramente atingidas pela infecção, como a Lombardia, na Itália, e Nova Jersey e Nova York, nos Estados Unidos. Para se ter ideia, levantamento do grupo Covid-19 Analytics, formado por especialistas da PUC-Rio e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), aponta que San Marino, com população de apenas 33,7 mil habitantes, que nem sequer daria para encher o Maracanã, é o único país do mundo com taxa de óbito superior ao Estado.

Não há consenso entre especialistas para explicar a situação do Rio. Entretanto, todos são unânimes em afirmar que o número de testagem e rastreamento de casos é baixo e que faltou coordenação entre autoridades federais, estaduais e municipais, para dizer o mínimo.

Segundo a pneumologista Margareth Dalcolmo, da Fiocruz, até as informações para entender o modelo de comportamento da covid-19 no Estado são insuficientes. "Não sabemos explicar as diferenças regionais. Por exemplo, não sabemos dizer o que caracteriza o recrudescimento da epidemia, se ele está ligado ao relaxamento do isolamento ou se há um papel importante da questão ambiental", diz.

Integrante do Centro de Gestão em Saúde da Coppead/UFRJ, Chrystina Barros avalia que o Rio também sofre com questões políticas e suspeitas de desvio de recursos públicos. "Temos um governador (Wilson Witzel) afastado, um secretário de Saúde preso, outro secretário que pediu exoneração e um terceiro que não estabeleceu nenhum canal de comunicação com a população", enumera. "E temos Estado e capital enfrentando problemas seríssimos de corrupção."

Atualmente, o Estado do Rio vive aumento no número de internações na rede pública e privada que pode indicar o início de uma nova onda de coronavírus - embora isso ainda não esteja caracterizado. Em paralelo, houve registro de aglomerações irregulares em praias e bares nas últimas semanas. Mesmo assim, a reabertura de serviços não essenciais segue acontecendo.

"Há indicadores concretos de que a doença continua se espalhando e, em nenhum momento, vemos ações coerentes para o relaxamento do isolamento ou fiscalização de medidas", afirma Chrystina. "Ou seja, um caldeirão perfeito para termos um dos piores cenários do Brasil, apesar de sermos o cartão postal do País no mundo."

Para o infectologista Roberto Medronho, coordenador do grupo de trabalho multidisciplinar de enfrentamento à covid-19 da UFRJ, embora o Rio tenha uma das maiores redes de hospitais públicos do País, eles não foram devidamente preparados para a pandemia. Além disso, recursos que poderiam ter sido investidos na rede, deixando um legado, foram para os hospitais provisórios de campanha.

"Ao longo dos últimos anos, especialmente na gestão atual, houve uma subvalorização da estratégia de saúde da família, com a demissão de várias equipes", diz. "Levando-se em conta que de 80% a 90% da população apresenta a forma mais branda da doença, esses profissionais seriam centrais para a detecção e isolamento de pacientes, evitando a sobrecarga das UPAs, o que acabou ocorrendo."

Outro ponto citado por especialistas é que quase um terço da população do Rio mora em comunidades e bairros onde há um grande adensamento populacional, o que favorece a disseminação do vírus. "Temos muita gente vivendo em áreas muito densas, onde a quarentena não foi 100% respeitada. Quando o vírus entra, acaba contaminando muitas pessoas", afirma o professor de economia da PUC Marcelo Medeiros, coordenador do Covid-19 Analytics. "Mas a verdade é que no Rio tem muito achismo, é difícil dizer exatamente."

Em nota, a Secretaria de Saúde do Estado do Rio disse que desconhece os critérios de avaliação utilizados na pesquisa. "A área técnica da pasta sempre esteve disponível e mantendo contato ativamente com todas as autoridades e instituições relacionadas à Saúde do Rio de Janeiro desde o início da gestão", afirmou nota enviada pela SES. "A comunicação com a população está aberta e acessível desde o primeiro dia em que Carlos Alberto Chaves assumiu a SES-RJ. O secretário pretende manter dessa forma a administração da Saúde e aprimorar cada vez mais a relação com a população e demais gestores. O secretário tem investido na transparência dos atos de sua gestão, participando de reuniões com órgãos de controle como o Ministério Público Estadual, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública", concluiu a nota.

Integrantes das Forças Armadas realizam  descontaminação da Catedral de Brasília
Integrantes das Forças Armadas realizam descontaminação da Catedral de Brasília
Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil / Estadão

Diferenças sociais também são problema no DF

O Distrito Federal já contabiliza, em números absolutos, mais de 19o mil casos e 3,2 mil mortes em decorrência do novo coronavírus. Para pesquisadores, diferenças sociais e econômicas entre Brasília e regiões do entorno ajudam a explicar o cenário ruim.

"Temos serviço especializado basicamente no Plano Piloto, mas não temos tanto assim nas regiões administrativas periféricas. Estamos falando de Ceilândia, Samambaia, Riacho Fundo, Paranoá e outros mais que não têm a riqueza de tecnologia especializada e voltada à atenção desses pacientes", descreve o epidemiologista Wildo Navegantes de Araújo, professor da Universidade de Brasília (UnB).

Com a oferta precária, pacientes precisam recorrer às unidades do Plano Piloto. Um exemplo, cita o professor, é a Cidade Estrutural, região a cerca de dez quilômetros da Praça dos Três Poderes, que cresceu ao redor de um lixão. "Há apenas um centro de saúde dividido em dois prédios. E mais nenhum modelo de atenção, nenhum serviço de saúde ofertado para uma população praticamente 100% dependente do SUS."

Outro problema foi o Distrito Federal ter deixado de ofertar testes diagnósticos na mesma quantidade do início da pandemia. Segundo o epidemiologista, isso aumenta os riscos de atendimento tardio aos pacientes e, portanto, as chances de óbito.

Araújo analisa, ainda, que no início o governador Ibaneis Rocha (MDB) acertou ao fechar rapidamente atividades não essenciais, dando tempo para melhorar o sistema de saúde, mas depois acatou o discurso do presidente Jair Bolsonaro e passou a "abrir mão das medidas de controle de forma totalmente inexplicada, tecnicamente falando".

"Em um primeiro momento, ele fez um trabalho excepcional com sua equipe técnica, orientando o distanciamento social, o uso das máscaras e a não retomada de aglomerações", afirma. "De um tempo para cá, vai assumindo que essa doença já não era mais importante, que poderia estar associada a uma 'gripezinha'. E essa gripezinha faz com que hoje tenhamos no DF milhares de mortes, uma das taxas de mortalidade mais altas do Brasil."

Diretor científico da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, José David Urbaéz pondera que as características e o tamanho da unidade federativa, com população de 3 milhões de pessoas, podem causar distorções na comparação com outros Estados. "Há um viés muito grande. O Distrito Federal, na verdade, é uma cidade. (Há diferenças) em termos de território, populações, deslocamentos e até as próprias naturezas das atividades econômicas", diz.

Urbaéz também ressalta que, por ser uma unidade federativa mais nova, com poucas regiões e dispor de Sistema Único de Saúde (SUS) considerado robusto, o Distrito Federal tende a processar dados mais rapidamente comparado a outro lugares. No entanto, ele alerta que situação ainda inspira cuidados. "É importante lembrar que ainda estamos no pior momento da pandemia. O pior ainda não passou."

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Estadão
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