Cientista que desenvolveu a polilaminina diz que estudo revisado por pares está prestes a ser publicado
Ainda sem data para ser publicado, estudo avalia segurança e eficácia do tratamento para lesões na medula espinhal
A professora e pesquisadora Tatiana Sampaio, que lidera a equipe que desenvolveu a polilaminina, afirmou que o estudo revisado por pares sobre o tratamento experimental para lesões na medula espinhal está prestes a ser publicado. A informação foi divulgada, sem data para o lançamento, em entrevista à agência de notícias Reuters.
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Derivada da placenta humana, a substância tem como objetivo estimular a reconexão de neurônios danificados na medula espinhal, algo que, até agora, vinha sendo um dos maiores desafios da ciência médica.
O tratamento ganhou notoriedade no Brasil após resultado promissor em estudos com animais e a divulgação de um estudo preprint, promovido no ano passado pela empresa farmacêutica Cristália, que adquiriu a patente.
A cientista se tornou um fenômeno nacional e chegou a ser homenageada em um show do cantor João Gomes, que na ocasião disse: "Você é a maior celebridade que temos aqui hoje". Segundo ela, o entusiasmo é uma questão de orgulho nacional.
"Uma cientista mulher que fez uma grande descoberta para o mundo, e que é brasileira", declarou à agência sobre como é vista, ressaltando que a polilaminina ainda está sendo estudada para aprovação regulatória.
O Estudo
Conforme a Reuters, os primeiros ensaios em humanos com a substância envolveram oito pacientes com lesões completas na medula espinhal — metade paraplégicos, metade tetraplégicos —, tratados nos dias seguintes à lesão.
Dois deles acabaram morrendo em decorrência da gravidade dos ferimentos, mas um paciente, que havia sofrido fratura no pescoço em um acidente de carro, recuperou-se completamente após dois anos. Os demais sobreviventes recuperaram algum grau de controle motor voluntário abaixo das lesões.
"Entendo que a polilaminina foi crucial para minha recuperação", afirmou Bruno Drummond de Freitas, de 31 anos, o único paciente que hoje consegue caminhar sem nenhum auxílio. Ele tinha 23 anos quando sofreu a lesão e recebeu o tratamento em menos de 24 horas. Desde então, ele se tornou defensor do procedimento.
No entanto, alguns especialistas alertam que pacientes com lesão cervical podem ter recuperação espontânea, mesmo sem o uso da substância. Mas revisão por pares ainda se encontra pendente, logo, o resultado pode gerar decepção.
É o caso de Luiz Fernando Mozer, pintor automotivo de 38 anos, que recebeu o tratamento alguns dias após seu acidente de motocross no início de dezembro. A recuperação lenta o deixou frustrado, conforme informou à agência.
A única melhora que experimentou foi o retorno da sensibilidade nas pernas até o momento."Estamos ansiosos por resultados, mas eles simplesmente não vêm", disse Mozer.
Os estudos com animais e evidências iniciais em humanos sugerem que a polilaminina funciona melhor nas primeiras 72 horas após a lesão e até três meses depois, conforme explicou Tatiana Sampaio e outros envolvidos no processo. Os ensaios em andamento, no entanto, podem eventualmente abrir caminho para pacientes crônicos.
Em casos agudos, alguns pacientes recorreram a advogados para acelerar a aprovação, já que a Anvisa pode levar até 45 dias para decidir sobre tais pedidos.
Doações e ensaio clínico aprovado
O vice-presidente de pesquisa e desenvolvimento e inovação da empresa Cristália, Rogério Almeida, informou que a companhia está atualmente doando a polilaminina a pacientes agudos após o aval da Anvisa. A empresa investiu mais de R$110 milhões no desenvolvimento do tratamento.
Autorizado pela Anvisa, o ensaio de fase 1 avaliará a segurança da polilaminina em cinco pacientes com idades entre 18 e 72 anos, que receberam a substância em até 72 horas após lesões completas agudas da medula espinhal torácica que exijam cirurgia.
Até o momento, 84 pacientes receberam autorização da Anvisa para uso compassivo, sendo 44 por meio de ordens judiciais e 40 sem elas, segundo o órgão regulador.
Tatiana diz que, apesar de não conseguir mais acompanhar pessoalmente todos esses casos, segue comprometida com a pesquisa e esperançosa. "Tem algum mérito em não desistir”, finalizou.

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