Alimentos infantis ultraprocessados: um alerta sobre o que nossos bebês estão consumindo
Mais de 70% dos alimentos infantis são ultraprocessados e cheios de aditivos: entenda a pesquisa americana e o cenário preocupante no Brasil
Nos últimos anos, um levantamento realizado nos Estados Unidos sobre alimentos voltados ao público infantil chamou a atenção de famílias, profissionais de saúde e órgãos reguladores. A pesquisa, divulgada por diferentes veículos de imprensa americanos, apontou que mais de 70% dos produtos alimentícios analisados, direcionados a crianças, se enquadravam como ultraprocessados e apresentavam grande quantidade de aditivos, como corantes, aromatizantes e conservantes. Esse cenário levantou dúvidas sobre a qualidade nutricional desses itens e sobre os possíveis impactos no padrão alimentar de crianças em fase de crescimento.
O estudo analisou categorias variadas, como cereais matinais, lanches embalados, bebidas adoçadas, biscoitos, iogurtes saborizados, papinhas prontas e refeições congeladas direcionadas ao público infantil. Em comum, muitos desses produtos apresentavam listas extensas de ingredientes, com excesso de açúcar, sódio e gorduras de baixa qualidade, além de substâncias usadas para melhorar cor, sabor, textura e tempo de prateleira. A partir dessa discussão, surgiu a pergunta se a realidade observada nos Estados Unidos também se repete em países como o Brasil.
O que significa alimento infantil ultraprocessado?
Para entender o sentido dos dados, é importante esclarecer o que se chama de alimento infantil ultraprocessado. De acordo com classificações amplamente utilizadas por pesquisadores em nutrição, alimentos ultraprocessados são formulações industriais que envolvem diversas etapas de processamento e uso de ingredientes que não são comumente usados em uma cozinha doméstica. Entre eles estão aditivos como emulsificantes, realçadores de sabor, corantes artificiais, edulcorantes e espessantes.
Quando direcionados às crianças, esses produtos costumam ser apresentados com embalagens coloridas, personagens e apelos relacionados à praticidade e ao sabor. Em muitos casos, são vendidos como opções rápidas para lanches, café da manhã ou até substituição de refeições tradicionais. No entanto, a alta densidade calórica, o baixo teor de fibras e a grande presença de açúcares livres ou sódio podem contribuir para padrões alimentares pouco equilibrados ao longo da infância.
Pesquisa mostra 70% de alimentos infantis ultraprocessados: o que foi observado?
Na pesquisa americana amplamente divulgada pela imprensa, os pesquisadores avaliaram a composição nutricional e os ingredientes de centenas de produtos destinados ao público infantil. Os resultados indicaram que mais de 70% se enquadravam na categoria de ultraprocessados, com destaque para:
- Cereais matinais açucarados, com alto teor de açúcar e aditivos para intensificar sabor e crocância.
- Bebidas adoçadas, como sucos artificiais, néctares e chás prontos com corantes e aromatizantes.
- Lanches salgados e chips, ricos em sódio, gorduras e realçadores de sabor.
- Biscoitos e bolinhos, com gorduras refinadas, açúcares e estabilizantes.
- Produtos lácteos saborizados, como iogurtes com corantes, espessantes e adoçantes.
Além da classificação como ultraprocessados, a pesquisa americana ressaltou a presença frequente de açúcar adicionado em itens que, muitas vezes, são associados à ideia de "saudáveis" para crianças, como alguns iogurtes e barras de cereais. Também foram observados níveis elevados de sódio em snacks e refeições prontas, o que, em longo prazo, pode contribuir para hábitos alimentares com excesso de sal desde a infância.
Essa realidade também acontece com alimentos infantis no Brasil?
No Brasil, estudos conduzidos por universidades e órgãos de saúde vêm apontando um cenário semelhante em relação ao consumo de ultraprocessados por crianças. Pesquisas nacionais de consumo alimentar mostram que, já nas primeiras infâncias, muitos pequenos passam a ter contato frequente com biscoitos recheados, refrigerantes, sucos de caixinha, salgadinhos de pacote, achocolatados e embutidos. Embora a metodologia não seja idêntica à do levantamento americano, os resultados convergem para uma forte presença desse tipo de produto no dia a dia infantil.
Dados de inquéritos brasileiros indicam que uma parcela importante das calorias consumidas por crianças vem justamente de alimentos industrializados com alto grau de processamento. Além disso, a indústria de alimentos infantis no país também utiliza estratégias de marketing voltadas diretamente ao público infantil, com personagens, brindes e sabores que tornam esses produtos mais atrativos. As listas de ingredientes de muitos itens encontrados em supermercados brasileiros incluem açúcar, xarope de glicose, corantes artificiais, aromatizantes, conservantes e espessantes em combinação.
Como identificar ultraprocessados infantis e reduzir a exposição?
Diante desse quadro, uma das estratégias discutidas por profissionais de saúde e educação alimentar é a leitura atenta dos rótulos de produtos destinados a crianças. Alguns pontos costumam ser utilizados como sinal de alerta ao avaliar um alimento infantil embalado:
- Listas de ingredientes muito extensas, com diversos nomes pouco familiares.
- Presença de muitos aditivos, como corantes, aromatizantes, emulsificantes e estabilizantes.
- Altos teores de açúcar, sódio ou gorduras em comparação às recomendações para a faixa etária.
- Apelos visuais e promocionais que priorizam personagens, brindes ou "diversão" em vez de informações nutricionais.
Além disso, diretrizes brasileiras de alimentação saudável para crianças destacam a importância de priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, como frutas, legumes, verduras, feijões, arroz, leite, ovos e carnes em preparações caseiras. Para lanches, alternativas como frutas frescas, castanhas (em idade adequada), pães simples, queijos em porções moderadas e preparações feitas em casa costumam ser apontadas como opções mais alinhadas a um padrão alimentar equilibrado.
Perspectivas para políticas públicas e hábitos familiares
A discussão gerada pela pesquisa americana sobre a alta proporção de alimentos infantis ultraprocessados incentiva o debate sobre políticas de rotulagem, regulação de publicidade e educação alimentar, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Em território brasileiro, já existem iniciativas de advertências em rótulos para excesso de açúcar, sódio e gorduras, além de debates sobre restrições à publicidade direcionada a crianças.
Ao mesmo tempo, escolas, profissionais de saúde e famílias têm desempenhado papel relevante na construção de hábitos alimentares mais saudáveis na infância. A oferta frequente de alimentos frescos, o preparo de refeições em casa e o exemplo cotidiano de consumo de itens menos processados são apontados como elementos centrais para reduzir a dependência de produtos industrializados. Nesse contexto, a pesquisa americana funciona como um alerta que dialoga diretamente com a realidade brasileira, mostrando que a atenção à qualidade dos alimentos infantis é um tema comum a diferentes países.