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'SP já foi a terra do calor e agora é a terra dos vendavais', diz secretário de Mudanças Climáticas

José Renato Nalini destaca que cidade não sofre mais apenas com eventos extremos durante o verão e cita ocupação irregular como um dos principais desafios

28 ago 2025 - 04h08
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Uma metrópole como São Paulo, com 11,4 milhões de habitantes segundo o Censo de 2022, certamente terá questões ambientais a serem resolvidas, como garantir o fornecimento de água e o descarte de resíduos. Ainda assim, diversos problemas novos surgem a partir da expansão da cidade e outros vieram com as mudanças climáticas.

A Secretaria Executiva de Mudanças Climáticas da Prefeitura paulistana foi criada em 2020 e, como é executiva, não tem orçamento ou equipe próprios. Como o secretário José Renato Nalini define, ela é um órgão de articulação, para coordenar os trabalhos entre diversos setores da prefeitura paulistana, desde reduzir as emissões de gases de efeito estufa até mobilizar recursos para climatizar salas de aula das escolas municipais.

Entre os grandes problemas com que a secretaria tem de lidar, segundo Nalini, é a ocupação irregular das margens da represa Guarapiranga, que poderiam provocar falta de água em boa parte da cidade.

Quais são as principais ações que a Prefeitura e a sua secretaria planejam para reduzir as emissões de gases de efeito estufa da cidade?

As pessoas acham que os efeitos das mudanças climáticas vão acontecer daqui a muito tempo, mas não, estão acontecendo já. Se a gente não adaptar a cidade para que resista a esses fenômenos, ainda vamos perder muitas vidas. O Município de São Paulo foi o primeiro a ter uma Secretaria Executiva de Mudanças Climáticas, o que pode ter sido uma surpresa até para os demais setores da própria Prefeitura, mas é a sensibilidade de que São Paulo estava mudando muito em virtude do agravamento das condições do clima, em virtude do excesso de emissão dos gases causadores de efeito estufa. Aqui, diferente do resto do Brasil, o maior emissor é o trânsito, com 61% das emissões; em segundo, é a energia estacionária (consumo residencial), com 31%, e os restantes 8% vêm dos resíduos sólidos. Nós produzimos 18 mil toneladas diárias de resíduos sólidos, e um percentual muito pequeno vai para a reciclagem. A Secretaria é uma secretaria de Articulação, que faz com que toda a Prefeitura, todas as demais Secretarias, pensem em conjunto. Nós temos o Plano Clima, que hoje está na fase de revisão, é atualizado a cada ano, mas quatro anos depois ele tem de ser praticamente refeito, com metas a curto prazo, a médio prazo e outras ambiciosas até 2050. A Secretaria inspirou a elaboração do orçamento climático, para a Secretaria do Urbanismo, a Secretaria da Habitação, a Secretaria da Saúde, a Secretaria da Educação. Todas elas têm verbas destinadas a fazer a adaptação.

Para quais outros problemas vocês buscam soluções?

Temos algumas atribuições muito específicas. Talvez a mais importante delas se chama OIDA, Operação Integrada Em Defesa das Águas. O que significa isso? Talvez o maior problema da cidade de São Paulo seja a não remota possibilidade de uma escassez hídrica, porque a represa que é abastecida com nascentes locais, a Guarapiranga, está sendo alvo de muita ocupação irregular, em uma região de mananciais que não poderia ser ocupada. Isso gera o comprometimento da água, a perda de profundidade da represa. Temos essa operação em uma união Estado-Município. O Estado entra com a Polícia Militar Ambiental, o Município com a Guarda Civil Municipal Ambiental, mais os funcionários das subprefeituras, mais alguns órgãos que ajudam. Essa operação é feita quase que toda semana, às vezes duas vezes por semana, atendendo a denúncias, atendendo requisições do Ministério Público, para impedir que haja o adensamento. Nós somos combativos, mas são coisas tópicas, precisaríamos de uma operação abrangente, que pegasse toda a represa.

Ocupação irregular das margens da represa Guarapiranga pode provocar falta de água em boa parte da cidade.
Ocupação irregular das margens da represa Guarapiranga pode provocar falta de água em boa parte da cidade.
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

Qual é a importância do transporte público para reduzir as emissões?

O transporte coletivo é a grande preocupação, aquela que o município está investindo mais pesadamente. Nós temos cerca de 13.300 ônibus, movidos a diesel, e não são todos os ônibus que são novos e têm um padrão de menor grau poluente. O projeto da prefeitura era entregar a São Paulo, até dezembro de 2024, 2.600 ônibus elétricos. A prefeitura conseguiu aquilo que talvez fosse o mais difícil, que é financiamento para a aquisição dos ônibus, e conseguiu também o interesse das concessionárias por trocar a frota, mas esbarramos na questão da infraestrutura. A concessionária não teria condições de atender na urgência necessária a infraestrutura de recarregamento das baterias. Então, a secretaria promoveu um seminário para estudar a utilização do biometano, um gás natural, não fóssil. Abastece hoje já cerca de 60 caminhões coletores de resíduos sólidos. Recentemente, foram entregues mais 120 ônibus elétricos. Nós temos 640 ônibus elétricos, movidos à bateria, mais 201 trólebus, conectados à rede elétrica. A troca de outras partes da frota, como as vans escolares, também está em andamento, e aí são praticamente empresas individuais, não é todo mundo que tem condições de trocar imediatamente um veículo.

O que a prefeitura planeja para controlar as enchentes?

Temos a coordenação do plano de prevenção de chuvas de verão. Nós convocamos quase todas as demais secretarias mais a Defesa Civil. São Paulo já foi a terra do calor, agora é a terra das tempestades, dos vendavais, das ilhas de calor. Antes, era apenas o plano de prevenção de chuvas de verão, que agora nós propusemos ao prefeito que ele seja um plano de prevenção de chuvas, porque não é só mais no verão. Toda a meteorologia está dizendo que nós vamos ter chuvas mais intensas e menos frequentes, então pode acontecer que em um determinado dia chova aquilo que deveria chover em dois meses.

Como estão os investimentos?

Para evitar as consequências danosas, a prefeitura fez um investimento muito grande nesses últimos anos, em coisas que nem todos veem, em macrodrenagem, ou seja, a gente precisa preparar os terrenos para que eles consigam absorver a quantidade de água que caiu num determinado dia. Também em microdrenagens, a limpeza de córregos, o desentupimento de bueiros, a construção de jardins de chuva, dessas ilhas que são devolução à natureza daquilo que nós tiramos dela. Fizemos a construção de muros de contenção para não haver deslizamento, desabamento. Paralelamente, a Prefeitura está fazendo 58 cadernos de drenagem de toda a cidade, diagnósticos da situação geológica, hidrológica e o estado de vulnerabilidade social do local. 29 estão prontas, 29 estão sendo elaboradas.

O prefeito prometeu durante a campanha que 11% da área do Município seria desapropriada para se tornar área verde. Como isso será viabilizado?

No ano passado, o prefeito determinou a declaração de utilidade pública de 32 áreas verdes, que estavam nas mãos dos proprietários particulares, poderiam então ser reservadas para condomínios, para construções, para galpões. Com a decretação de utilidade pública, esses 11% se somam aos 15% que nós já tínhamos e isso vai fazer com que São Paulo tenha 26% de áreas públicas municipais com uma vocação de perpetuidade para ser verde. É área que é intocável, é insuscetível de ter outra destinação a não ser essa área verde.

Esse plano leva em consideração a diferença entre regiões mais centrais, algumas mais arborizadas, e periferias que são menos?

A expropriação foi de áreas que ainda poderiam ser destinadas a parques, são áreas grandes. As regiões mais áridas, aquelas que mais precisam de arborização, foram as que cresceram de uma forma tão desordenada que você não encontra mais espaços suscetíveis, a não ser que você derrubasse tudo para devolver para a natureza. Para essas regiões, nós estamos pensando em fazer as vagas verdes, ou seja, tirar uma vaga de estacionamento de veículos e transformar isso num jardim, numa ilha de chuva, numa pequenina floresta urbana adensada. Nós temos uma biodiversidade exuberante, temos todo tipo de vegetal, e podemos fazer isso, é o melhor sequestro de carbono que tem, é tornar a cidade mais verde. Por isso é nossa incumbência plantar até novembro, que é o mês da COP, 120 mil árvores, pelo menos.

Essa meta é só para esse ano ou se seria para os próximos anos também?

Queremos continuar o tempo inteiro, o que nós precisaríamos é convencer as pessoas de que a melhor amiga da vida se chama árvore. A árvore presta um serviço ecossistêmico gratuito, mas valiosíssimo, porque através da ecotranspiração, ela garante um microclima saudável, garante que a chuva não seja inclemente, garante, com o espaço onde ela está, que haja infiltração da água. Ela serve de sombra, é refúgio para a fauna, permite que haja sombra, paisagem, árvore, é tudo de bom. Mas, infelizmente, nós recebemos mais pedidos de remoção de árvore do que de plantio. Veja como a população precisaria ser mais consciente, para evitar também, por exemplo, o lançamento de resíduos da construção civil. Isso é uma coisa terrível aqui em São Paulo. Porque, principalmente à noite, há muitos caminhões despejando esses detritos. E vão ocupar espaço que depois vão causar alagamentos, enchentes, etc.

Temos visto uma relação meio conflituosa das árvores com os fios, por causa também dessas tempestades gigantes que têm caído na cidade.

Há várias questões que envolvem isso. Primeiro, quando São Paulo foi arborizada, não havia tanto conhecimento, tanto aprofundamento da botânica, das questões que interferem com o clima, a preservação da mata nativa. Há algumas espécies que talvez não fossem as indicadas, principalmente espécies exóticas, que talvez não fossem adequadas. Mas também precisaríamos pensar que o futuro da iluminação pública deveria ser uma fiação subterrânea, embora seja muito mais cara, mais dispendiosa, mas funciona.

O plano contra enchentes é principalmente lutar contra os despejos de detritos?

O plano contra enchentes é primeiro fazer a drenagem, com as informações dos cadernos de drenagem. Fazer as macro-drenagens nos lugares mais sujeitos, mais vulneráveis. Fazer os muros de contenção, limpar os córregos para que eles tenham vazão, substituir os que estão obstruídos com excesso de resíduos sólidos. Então, é uma coisa extremamente complexa e tem que ser permanente, não pode parar. Tem muita coisa que a população pode fazer, porque não é verdade que as emergências climáticas sejam uma questão só de governo.

Sobre a adaptação às mudanças climáticas, o que está sendo feito na educação? Em março, um mandato coletivo da assembleia estadual do PSOL entrou na Justiça questionando a Prefeitura e o governo estadual sobre a falta de climatizadores em salas de aula — na rede municipal, menos de 1% das salas contava com os aparelhos.

O secretário [Fernando] Padula [da pasta municipal da Educação] está fazendo muita coisa nesse sentido. Nós tivemos uma reunião, fui com ele até a Enel para fazer a climatização das escolas. São mais de mil estabelecimentos de ensino municipais e é evidente que não dá para fazer tudo de uma vez. Mas vão ser escolhidas algumas escolas para fazer projetos pilotos. Nós também temos um convênio, um acordo de cooperação com a Prefeitura de Copenhague, que vai nos ensinar como fazer essa climatização, não só através de ar-condicionado, mas através do aproveitamento dos recursos naturais, para que haja maior ventilação e arborização. E como não é possível corrigir tudo de uma vez, o plano do secretário Padula é começar com as escolas do ensino fundamental das últimas séries. Porque com a criança da primeira infância, você tem recursos como aquele brinquedo na caixa de areia. Há formas até lúdicas, pedagógicas, de você trabalhar com calor, mas quando você tranca crianças que já são crescidas, maiores, dentro de um espaço, nessa você precisa pensar.

Como São Paulo está se preparando para a COP? Alguns eventos estão sendo realizados, mas a prefeitura também está se preparando para ir debater?

O prefeito nomeou uma comissão para cuidar da participação paulistana na COP. A atribuição dessa comissão é motivar a população paulistana a saber o que é COP. Estamos fazendo uma série de eventos grandes e pequenos, onde se leve essa palavra de conscientização, de alerta porque as pessoas podem sim colaborar para adaptar a cidade, para que ela tenha um futuro melhor. Não é possível que nós tenhamos 18 mil toneladas diárias de resíduos; se somar hospitalar e eletrônico, 20 mil toneladas diárias. Se cada um puder separar melhor o seu lixo, gastar menos, desperdiçar menos, vamos ter uma cidade melhor e vamos gastar menos dinheiro do povo para fazer aterro sanitário que no fim vai ocupar uma área que poderia ser um jardim, um parque, uma floresta. Estamos chamando todo mundo, empresas, entidades, religiões. Dom Odilo [Scherer, arcebispo de São Paulo] me pediu para conversar com os padres, fui falar com todos os padres da diocese, tentando fazer com que eles nas homilias falem sobre isso. Estou conversando com os pastores, estou conversando com a comunidade judaica. Também chamei os times de futebol. Às vésperas da COP, haverá dois grandes eventos, um com a USP e o governo do estado lá no Parque Villa Lobos e outro, dois dias seguintes na Cidade Universitária. O rei Charles [do Reino Unido] vai ficar hospedado na cidade para esses eventos, junto com outros chefes de Estado. Nós queremos também fazer alguma coisa para aproveitar a visita deles a São Paulo e vai haver uma rodada de negócios.

Estadão
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