Charles, o 'rei' do Combú que quer fortalecer quem vive na floresta amazônica
Morador da Ilha do Combú (PA), à frente de um espaço de turismo de experiência, Charles transformou sua relação com a floresta em trabalho
Gerson Tadeu Teles é morador da Ilha do Combú, no Pará, pai de seis filhos, um ribeirinho que abandonou o trabalho como operador de motosserra e se transformou em um defensor da floresta amazônica. Logo, ganhou o apelido de Charles, o “rei da Ilha do Combú”, em referência ao monarca britânico, seu xará. A coroa, feita de elementos da própria floresta, virou uma marca de quem encontrou no turismo uma nova maneira de contar a história do lugar onde vive e valorizar sua tradição.
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A Ilha do Combú, situada a poucos minutos de barco de Belém (PA), possui 15,97 km² de área de várzea preservada e cerca de 1.500 habitantes. O local tem se destacado pelo turismo gastronômico e comunitário, abrigando dezenas de restaurantes ribeirinhos, produções artesanais de chocolate como a da Filha do Combu, da famosa dona Nena, e tem atraído cada vez mais visitantes.
Mas, para ele, a história não é apenas sobre receber visitantes que chegam à ilha. É sobre mostrar que a floresta pode gerar renda, conhecimento e oportunidades para quem vive nela. E, principalmente, que o futuro da Amazônia depende também de fortalecer as pessoas que moram dentro dela.
“Hoje a gente entendeu que ninguém anda só. A gente precisa um do outro, precisa se ajudar. Foi por isso que a gente abriu o nosso espaço, abriu a nossa casa.”
O espaço de Charles se tornou ponto de encontro para turistas, artesãos, universidades e escolas. Artesãos expõem seus trabalhos no local e conseguem gerar uma renda a partir da comercialização de seus produtos. Também são realizadas oficinas e capacitações em parceria com outras instituições.
A ideia é fazer com que mais moradores percebam que a floresta pode ser fonte de sustento.
“Isso incentiva muito as pessoas a começar a entender que podem tirar o seu sustento daqui da floresta, que pode viver 100% desse trabalho.”
Um negócio que nasceu da floresta
A história de Charles é marcada por uma mudança de relação com o território. O turismo passou a ser uma alternativa de renda e, ao mesmo tempo, uma maneira de apresentar aos visitantes a cultura, os conhecimentos e a vida de quem mora no Combú.
À frente do Ygara Artesanal, Charles transformou sua própria casa e o território onde vive em um espaço de turismo de experiência. A proposta é receber visitantes interessados em conhecer a floresta a partir da perspectiva de quem mora nela, com experiências que envolvem o banho de cheiro, o contato com a natureza e os saberes tradicionais da comunidade. O espaço também passou a reunir outros moradores: artesãos podem expor seus trabalhos e gerar renda com a venda de seus produtos.
Além do turismo, o local recebe universidades e escolas da ilha e abriga oficinas e ações de capacitação. Agora, Charles prepara a inauguração de uma biblioteca comunitária, pensada especialmente para os jovens que precisam de um lugar adequado para estudar e se preparar para o Enem.
“Hoje, com a ajuda de muitos amigos, a gente tá construindo essa biblioteca, que logo será inaugurada."
A biblioteca representa, para ele, mais uma forma de fazer o conhecimento circular dentro da própria comunidade, uma lógica está presente em todo o trabalho que desenvolve.
Além disso, a ideia é que o empreendimento não seja apenas uma fonte de renda para Charles e sua família, mas uma forma de fazer a riqueza da floresta circular dentro da própria comunidade. O princípio também orienta a relação com os artesãos que passaram a ocupar o espaço.
“Cada um tira sua renda ali no final do mês. Isso incentiva muito as pessoas de começar a entender que podem tirar o seu sustento da floresta, que pode viver 100% desse trabalho.”
Para Charles, o negócio só faz sentido se conseguir mostrar aos próprios moradores que existe valor econômico e social naquilo que eles já têm.
“A gente tem uma riqueza muito grande, a gente só precisa aprender a cuidar e buscar conhecimento pra gente agregar aqui e começar a entender o nosso potencial.”
Mas ele não quer que essa transformação fique restrita à própria família. Por isso, abriu espaço para artesãos, escolas e universidades, promove capacitações e prepara uma biblioteca comunitária. E tenta transmitir aos filhos a mesma compreensão sobre o território.
“A gente tem uma riqueza muito grande, a gente só precisa aprender a cuidar e buscar conhecimento pra gente agregar aqui e começar é... a entender o nosso potencial.”
O projeto, para Charles, é maior do que um negócio. É uma tentativa de fortalecer uma comunidade que precisa encontrar maneiras de permanecer na floresta sem abrir mão de oportunidades, educação e renda. E de fazer com que os jovens possam conhecer o mundo sem esquecer de onde vieram.
“Eu sou pai de seis filhos. Cinco meninas e um menino. Tenho duas filhas fazendo faculdade também. Tenho um filho que vai fazer o Enem agora. E vou passando para os nossos filhos um pouco de como é viver na floresta.”
Seis filhos e uma lição
A educação dos filhos é parte importante de sua visão de futuro. Ele quer que eles busquem conhecimento na cidade, mas sem perder a ligação com a floresta.
“Ensino para eles o valor que isso tem, de viver na floresta. Para eles aprenderem e depois contar a história deles.”
O desafio, para Charles, é fazer com que os jovens tenham acesso ao conhecimento sem enxergar a própria origem como algo que precisa ser deixado para trás. “Buscar o conhecimento lá na cidade e não esquecer que aqui eles têm um povo que precisa ser fortalecido com conhecimento.”
É uma preocupação que se conecta à maneira como ele fala da identidade de quem vive na floresta. Charles defende que os moradores reconheçam o valor da própria origem e não tenham vergonha de falar sobre ela.
“A gente só precisa aprender a cuidar e buscar conhecimento para agregar aqui, começar a entender o nosso potencial e ensinar também os nossos filhos a importância de viver e cuidar da floresta, de não ter vergonha de falar da sua essência, de dizer que mora na floresta, que é descendente de indígena ou de quilombola.”
A COP e a sensação de não estar sozinho
Charles também recebeu turistas nacionais e internacionais durante a COP 30. Entre os momentos que mais o marcaram estão os relatos de visitantes que disseram ter saído da experiência dispostos a trabalhar pela proteção da floresta e pelo fortalecimento das comunidades.
Para Charles, ouvir essas histórias reforça a sensação de que a luta pela preservação não é isolada.
“A gente acaba entendendo que a gente não está só nessa caminhada, né?”
No fim, a coroa de Charles talvez tenha menos a ver com ser o “rei” de um lugar e mais com aquilo que ele parece querer representar: um morador da floresta que encontrou uma maneira de transformar aquilo que aprendeu com seus antepassados em trabalho, conhecimento e uma possibilidade de futuro para quem vive no Combú.
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