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Fundos 'gringos' ajudam startups brasileiras a decolar

Número de aportes estrangeiros no País disparou em 2017 e tem ajudado empreendedores a acelerar crescimento

13 jun 2018
05h04
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O catarinense Vinícius Roveda tentou colocar a startup Conta Azul de pé pela primeira vez há dez anos. Naquela época, ela oferecia um "rascunho" do produto atual, um software de gestão de pequenas empresas vendido por assinatura. Mas os fundadores desistiram da ideia quando perceberam que o produto não estava "pronto". Tentaram outra vez em 2010 e deram com os burros n'água. "Percebemos que a única forma de a empresa dar certo era investir pesado", explica Roveda, hoje presidente executivo da Conta Azul. A saída foi buscar investimento de grandes fundos estrangeiros, estratégia que tem ganhado cada vez mais força entre as startups brasileiras.

A virada da Conta Azul começou em 2011, quando Roveda passou quatro meses no Vale do Silício, nos Estados Unidos. Lá, conheceu investidores e recebeu do fundo 500 Startups um capital semente - de baixo valor, usado para a empresa "testar" sua ideia. Hoje, aos seis anos de vida, a empresa atrai 2 mil novos clientes ao mês - ela não revela o total de assinantes.

O capital estrangeiro foi fundamental para ganhar impulso, e levantar outros aportes ficou mais fácil. Em 2018, a empresa fechou sua quarta rodada de investimentos, chegando a um aporte de R$ 100 milhões, que teve a participação de um dos mais bem sucedidos fundos do mundo, o Tiger Global - que apostou no Nubank e na 99. O benefício de ter um fundo desses por trás da startup vai além do dinheiro. "O relacionamento com os investidores traz muito aprendizado e nos faz refletir sobre novas possibilidades para o negócio", diz Roveda.

Foi assim que, em 2013, Roveda foi questionado por um dos sócios estrangeiros sobre o porquê de não integrar softwares de contabilidade ao da Conta Azul, já que a maioria dos empreendedores não gosta de lidar com burocracia. O conselho foi ouvido e, naquele mesmo ano, a receita da empresa foi 2,5 vezes superior à projetada.

O número de empresas brasileiras que, como a Conta Azul, fizeram acordos com fundos "gringos" disparou em 2017, segundo a Associação Latino Americana de Private Equity & Venture Capital (Lavca). No total, foram registradas 424 transações na região, 80% a mais que há cinco anos, chegando a US$ 8,4 bilhões. O Brasil foi o País que mais recebeu recursos, com US$ 4 bilhões em 2017.

Esse terreno começou a se mostrar fértil em 2011, quando alguns fundos famosos por terem investido em empresas como Amazon, Facebook e Netflix começaram a fazer negócios por aqui. O pontapé foi dado por grupos como o Benchmark - que investiu no Peixe Urbano - e logo avançou para outros como o Sequoia, Accel, Atomico, até chegar ao Tiger.

Paixão. O segredo para se associar aos pesos-pesados listados acima é saber como pedir dinheiro, quando, para quem e por quê. Os capitalistas de risco procuram negócios transformadores e se orientam por uma visão de longo prazo. Por isso, procuram empreendedores com muita paixão pelo que fazem, que têm pensamento estratégico sólido e são muito decididos. "Qualquer um que vá contra esses aspectos está cometendo um grande erro", afirma Hernan Kazah, sócio diretor do fundo argentino Kaszek Ventures.

A boa notícia é que, segundo fontes ouvidas pelo Estado, os empreendedores brasileiros evoluíram muito nos últimos anos. Para Bedy Yang, sócia diretora do fundo de capital de risco americano 500 Startups, todo o ecossistema melhorou. "Os pitches (apresentações rápidas dos empreendedores) melhoraram, os investidores, advogados e todos os agentes do ambiente de startups se aprimoraram", diz. Ela acompanha de perto o mercado nacional desde meados da década passada.

O problema ainda está no contato com os fundos estrangeiros, que muitas vezes só são procurados na hora de levantar mais dinheiro. De acordo com Bedy, os brasileiros só vão a eventos importantes do setor quando precisam de alguma coisa, raramente para contribuir.

Há exceções. André Krummenauer, presidente executivo da startup Involves, que oferece um sistema para a indústria promover produtos em pontos de venda, nunca levantou dinheiro com fundos, mas mantém sua rede ativa. Uma vez por mês ele conversa com algum investidor. Krummenauer sabe que pode precisar de ajuda em breve para internacionalizar a empresa, que tem receita de R$ 18 milhões. "Não podemos deixar para essa hora a busca por investidores", diz ele.

Quem estuda em universidades reconhecidas mundialmente têm maiores chances. Os brasileiros Gabriel Braga e André Penha montaram a startup Quinto Andar após estudarem juntos na Universidade de Stanford. Eles criaram um sistema para desburocratizar o aluguel de apartamentos. Como não havia negócios parecidos no mundo, só conseguiram dinheiro com ex-alunos da universidade.

Dois anos depois, quando ficou mais fácil comprovar o modelo de negócio, os investidores se interessaram. "O jogo virou e eles é que começaram a competir para ver quem entraria na sociedade", diz Braga, presidente executivo da startup. Há um ano, o Quinto Andar levantou seu segundo aporte.

Segundo especialistas, independentemente do estágio, o ideal é a startup buscar o investimento quando "não precisa". Assim, há tempo para avaliar os investidores, suas experiências e decidir o quanto da empresa estão dispostos a diluir. Até porque, como se diz por aí, sócio é como espinho de ouriço: entra fácil, mas é muito difícil tirar.

Estadão Conteúdo

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