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O mistério da mulher que estampou a primeira cédula emitida pelo Banco do México

'Gloria, a cigana', como era chamada, figurou em nota que circulou pelo país de 1925 a 1970 e alimentou rumor ligado a escândalo que sacudiu relações entre EUA e México.

12 jun 2019
05h13
atualizado às 05h25
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A mulher que estampou a primeira nota de cinco pesos emitida pelo Banco do México alimentou um mistério que, para muitos mexicanos, dura até hoje.

Primeiro bilhete de 5 pesos emitido pelo recém-criado Banco do México em 1925 estampava uma mulher 'misteriosa'
Primeiro bilhete de 5 pesos emitido pelo recém-criado Banco do México em 1925 estampava uma mulher 'misteriosa'
Foto: Banco de México / BBC News Brasil

Com os olhos grandes e claros, feições delicadas, brincos grandes e joias em volta da cabeça e do colo, sua imagem circulou durante quase meio século, de 1925 a 1970.

A nota não traz uma linha sequer sobre sua biografia.

Desde que a cédula entrou em circulação, há um rumor de que a mulher - conhecida popularmente como "a cigana" - seria amante do secretário de Fazenda da época, Alberto J. Pani, que ocupou o cargo entre 1923 e 1927.

Alberto J. Pani (esq.) foi secretário de Fazenda no governo Plutarco Elías Calles (dir.)
Alberto J. Pani (esq.) foi secretário de Fazenda no governo Plutarco Elías Calles (dir.)
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Seu suposto romance com uma atriz catalã chamada Gloria Faure, pivô de um escândalo que quase abalou as relações entre México e Estados Unidos, só reforçou a lenda.

Para alguns, inclusive, a moça que estampa a cédula é "Gloria, a cigana".

Mas quem é ela realmente e como foi parar na nota?

O Banco Central do México explicou à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

Escândalo internacional

Pani levou a atriz de origem catalã Gloria Faure como sua acompanhante a uma viagem que fez a Nova York como ministro de Estado em setembro de 1925 com o objetivo de fechar acordos com banqueiros de Wall Street.

Sabia-se, na época, que eles tinham um caso, como mostra a pesquisa de Mariana Saucedo, especialista em numismática do Banco do México e autora de Extraordinárias Mulheres nas cédulas do México.

A informação também aparece no livro Behind the Throne: Servants of Power to Imperial Presidents, 1898-1968 ("Por detrás do trono: servos do poder para presidentes imperiais 1898-1968"), de Robert Freeman Smith.

Pani (esq.) era um dos homens fortes do governo de Calles
Pani (esq.) era um dos homens fortes do governo de Calles
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Ambos os especialistas ressaltam que a presença de Faure e sua relação com o titular da pasta passou a ser um problema durante as negociações com os banqueiros, entre eles Thomas W. Lamont.

"Em Nova York, os ultraconservadores contrataram detetives privados para seguir o ministro da Fazenda. Os relatos de suas idas e vindas com Gloria Faure (...) foram enviados a Lamont", destaca Freeman Smith.

Ainda que os banqueiros não tenham dado muita atenção às denúncias de adultério, passaram o que sabiam à imprensa, segundo o autor.

Na edição de 14 de outubro daquele ano, o jornal New York Daily Mirror destacava "uma fotografia de uma bela mulher de cabelos pretos posando com um vestido provocativo com comprimento acima dos joelhos intitulada 'O senhor Pani é um amante encantador'", diz Freeman Smith.

Thomas W. Lamont (esq.) era um dos banqueiros que negociavam com o secretário Pani em 1925
Thomas W. Lamont (esq.) era um dos banqueiros que negociavam com o secretário Pani em 1925
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A notícia virou um escândalo e o ministro chegou até a ser acusado de tráfico de pessoas, conforma a pesquisa de Saucedo.

"Pani foi detido em seu quarto de hotel e colocado à disposição das autoridades. Foi um papelão: o ministro esteve a ponto de se demitir e as relações entre os dois países quase foram rompidas", explica a especialista.

As notícias chegaram ao México e, no Congresso, os deputados criticaram duramente a postura de Pani durante a missão oficial em Nova York.

A origem do rumor

O rumor sobre as relações extraconjugais de Pani e a mulher da nota de 5 pesos surgiu a partir desse episódio.

"Conforme a lenda numismática, Pani, envergonhado pela humilhação que sofreu no país vizinho, teria entregue a foto de sua amante à American Bank Norte Company para que estampassem as primeiras cédulas emitidas pelo Banco do México", afirma Saucedo.

A nota de 5 pesos que circulou por 45 anos no México foi chamada de 'cédula da cigana'
A nota de 5 pesos que circulou por 45 anos no México foi chamada de 'cédula da cigana'
Foto: Banco de México / BBC News Brasil

Isso porque a empresa americana foi responsável pelo desenho e impressão das notas, diz o diretor geral de emissões do Banco do México, Alejandro Alegre. O Banco Central do México foi criado em 1925, mas apenas a partir de 1969 o país passou a imprimir a própria moeda internamente.

Até então, ela era produzida fora do país. A primeira cédula foi de 5 pesos, mas na sequência foram emitidas também notas de 10, 20, 50, 100, 500 e 1.000 pesos.

Verso da primeira nota de 5 pesos mostra monumento da independência mexicana
Verso da primeira nota de 5 pesos mostra monumento da independência mexicana
Foto: Banco de México / BBC News Brasil

"A American Bank Note Company propunha, a pedido do banco, os desenhos que estampariam frente e verso das cédulas", ele pontua.

Quem é a mulher?

O responsável pelo desenho foi Robert Savage, considerado um dos gravuristas de maior destaque dos Estados Unidos do século 20.

A gravura estampada com buril (ferramenta de aço para gravação em madeira e ferro) foi criada em 1910 - 15 anos antes, portanto, da impressão da cédula - pelo artista e está registrada com o nome "cabeça ideal de uma jovem argelina" com o código C-1031.

"Dentro das propostas apresentadas havia esse retrato da jovem argelina. Com certeza a imagem caiu no gosto de quem tinha o poder de decidir como as cédulas seriam adornadas", resume Alegre.

Ainda assim, nem os especialistas em numismática do México nem os dos Estados Unidos conseguiram determinar quem foi a mulher imortalizada por Savage.

"O mito surge a partir da fofoca política da época, do hábito comum em muitos países de se comentar, além das capacidades e talentos dos servidores públicos, suas vidas pessoais", ressalta.

O estilo da gravura é semelhante ao de outras que retratavam na época mulheres argelinas
O estilo da gravura é semelhante ao de outras que retratavam na época mulheres argelinas
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

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