‘BBB26’ em clima de CAPS: Globo não pode oferecer dor emocional como entretenimento
Dramas de Milena e Pedro incomodam e, ao mesmo tempo, geram necessária reflexão sobre saúde mental
Em um reality show onde tudo é potencialmente transformado em espetáculo, situações de sofrimento psíquico real desafiam os limites éticos do entretenimento televisivo.
No ‘BBB26’, a recreadora infantil Milena e o vendedor ambulante Pedro são exemplos de como fragilidades humanas profundas são estimuladas, expostas e consumidas como narrativa dramática.
A mineira entrou no jogo já marcada por olhares de desconfiança trazidos da ‘Casa de Vidro’. Bastou um emoji de 'planta' no Queridômetro — algo aparentemente banal dentro da lógica do programa — para desencadear uma reação emocional intensa.
O símbolo de ‘irrelevante no jogo’ foi interpretado por ela como confirmação de rejeição e invisibilidade, provocando uma crise que rapidamente se transformou em embate direto com Sol na Prova do Líder.
Vimos um bate-boca sobre quem teria mais importância no programa, hierarquia entre veteranos e pipocas, solidariedade (ou a falta dela) entre mulheres pretas. Um triste 'show’ de descontrole emocional.
Depois, um ataque de choro gerou risos no público. Sim, pareceu engraçado, porém, rir da dor alheia e não refletir a respeito é problemático.
O conflito, amplificado pela edição e pelas redes sociais, revelou algo que diz muito sobre as duas competidoras e a dinâmica do reality: a dificuldade de lidar com o julgamento público quando se carrega uma autoestima fragilizada e um possível histórico de violência psicológica.
A situação se torna mais sensível quando Milena verbaliza sua insegurança com o próprio corpo, a ponto de não conseguir vestir um maiô ou biquíni para entrar na piscina da casa. Milhões de brasileiras se identificaram, com certeza.
Pedro, por sua vez, constrói sua trajetória no programa a partir de outra forma de exposição. Ao revelar um segredo de família — disse repetidas vezes ter traído a esposa — e reiterar a todo momento a história de vida difícil, o paranaense parece buscar acolhimento, compreensão e, possivelmente, empatia estratégica.
O problema não está em falar da dor, mas na linha tênue entre desabafo legítimo e a provável vitimização intencional em uma dinâmica que recompensa quem comove o público.
Quando o sofrimento íntimo vira moeda simbólica, o risco é que o participante passe a reviver traumas não elaborados em troca de validação externa. E o tiro pode sair pela culatra: tanto que a confissão de adultério foi tratada com deboche por muita gente.
Aqui fora, cresce a desconfiança de que a insistência dele em falar do adultério a todo momento seja algo combinado com a própria mulher. Na casa, alguns participantes se mostraram preocupados com o comportamento ansioso do competidor.
Considerando que os dramas de Milena e Pedro sejam reais, os dois casos evidenciam um ponto crucial: o ‘BBB’ não é apenas uma gincana por prêmios, mas um experimento de alta pressão, com isolamento extremo, vigilância incômoda e avaliação rigorosa.
Nesse contexto, as fragilidades tendem a se intensificar. Cabe à Globo reconhecer que não são personagens a serviço do entretenimento, mas pessoas vulneráveis com histórias verídicas, expostas a gatilhos emocionais potentes com possível efeito no público.
Espera-se que a emissora, ao invés de explorar o sofrimento psíquico como clímax, o transforme em ponto de partida para discussões mais amplas sobre saúde mental, amor-próprio, elaboração da culpa e bullying.
Isso inclui não apenas oferecer suporte psicológico efetivo aos participantes, mas também assumir responsabilidade social na forma como essas histórias são contadas aos telespectadores.
Muito antes da covid-19, o planeta já vivia uma pandemia de depressão, ansiedade e outros transtornos graves. O número de brasileiros dependentes de ‘tarja preta’ só cresce.
O ‘BBB’ não é uma unidade do CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), mas pode oferecer uma orientação valiosa a quem, assim como alguns participantes do reality, esteja mentalmente desestruturado.