Milena e Sol expõem no ‘BBB26’ a armadilha clássica: o oprimido que vira opressor
Em dinâmica cruel e previsível, as duas competidoras se machucam emocionalmente na disputa por poder
A relação entre Milena e Sol no ‘BBB26’ tornou-se, em poucos dias, um retrato incômodo de como a dinâmica de opressão pode se reproduzir mesmo entre quem já esteve — ou continua — do lado mais vulnerável do jogo.
O embate entre as duas não é apenas pessoal: escancara camadas de preconceito, hierarquia simbólica e disputa por legitimidade que atravessam o reality desde as primeiras edições.
Logo na estreia, Milena teve sua presença no programa questionada por Paulo Augusto (“Você é participante também?”), em episódio que reacendeu o debate sobre a dificuldade da pessoa negra ter reconhecido o seu direito de pertencer a certos espaços privilegiados.
Ainda que tenha reagido imediatamente (“É óbvio. Você achou que eu fosse o quê?”), Milena viu o início da trajetória na competição ser marcada pela desconfiança pública sobre sua presença ali. Talvez isso tenha reforçado a postura defensiva vista em situações posteriores.
Historicamente, esse tipo de invalidação não é novidade no ‘Big Brother Brasil’ e costuma recair sobre corpos e trajetórias fora do padrão dominante.
Sol, por sua vez, carrega uma memória antiga de exclusão. Em sua primeira participação, no ‘BBB4’, enfrentou preconceitos que à época foram naturalizados pela narrativa do programa e pelo público, mas que hoje são lidos como manifestações inaceitáveis de racismo, como o deboche do “cabelo ruim”, e o desdém por ser uma pessoa simples, sem escolaridade e 'falar errado'.
Sua volta ao reality traz com ela esse passado doloroso, que a coloca, simbolicamente, como sobrevivente de um sistema ainda existente na sociedade e na TV.
O conflito entre as duas participantes, no entanto, revela um paradoxo cruel. Em vez de se reconhecerem por experiências semelhantes de opressão, Milena e Sol passaram a reproduzir violências uma contra a outra.
A recreadora infantil, ao chamar Sol de “bruxa velha”, recorreu ao etarismo como arma, criticando não só a idade da colega, mas também questionando sua presença e importância como veterana do reality.
Ao minimizar a trajetória da vendedora e desprezar a ideia de união entre mulheres pretas, Milena rompeu com uma expectativa de solidariedade construída justamente a partir da experiência comum de exclusão.
Sol respondeu a partir de outro lugar de poder. Ao mandar Milena se calar e dizer que ela precisava “crescer para aparecer”, assumiu uma posição de superioridade ancorada na fama prévia na atração.
O discurso da veterana, nesse contexto, funcionou como hierarquia: quem já sofreu antes agora se coloca acima, cobrando submissão e maturidade de quem acabou de chegar.
A comparação entre elas escancara a armadilha clássica: o oprimido que, ao conquistar algum espaço, passa a operar como opressor.
O jogo, que poderia ser um terreno de reconhecimento mútuo, transforma-se em palco de reafirmação de desigualdades.
Mais do que um conflito isolado, o embate entre Milena e Sol revela como o reality show da Globo continua sendo um laboratório social.
Expõe não só preconceitos estruturais, mas também a dificuldade de rompê-los quando a pressão psicológica, a busca desesperada por visibilidade e a disputa por poder entram em cena. Vira cada um por si e todos contra todos.
Lamentavelmente, a briga dá argumento para quem usa um terrível estereótipo. “Querem nos associar ao rótulo de barraqueiras, agressivas, descontroladas. Querem nos reduzir ao conflito”, analisou a influenciadora e ativista negra Maíra Azevedo, a Tia Má, em vídeo na internet.
Perdem Milena, Sol e todas as mulheres que elas representam. Já para o reality show, quanto pior, melhor.