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'Já fui atacado por onça e jiboia': desequilíbrio climático levam animais a buscarem água e comida fora da floresta

Morador da Reserva Cazumbá, no interior do Acre, revela que incidentes com animais silvestres são comuns no território

27 fev 2026 - 04h58
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Extrativistas encontram soluções para manter Amazônia de pé enquanto lidam com desequilíbrio ambiental:

O extrativista Manoel Cerqueira Maia, de 52 anos, já se deparou com animais silvestres por diversas vezes nas redondezas da Reserva Extrativista do Cazumbá-Iracema. "Com a gente que trabalha na floresta acontecem muitas coisas, eu já fui atacado por cobra e por onça", conta ao Terra.

  • Esta matéria foi produzida com o apoio da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) em parceria com o Instituto Talanoa

Morador da Resex Cazumbá desde que nasceu, Manoel explica que o incidente com a onça ocorreu em um momento inesperado há alguns anos. Ele estava cortando seringa, seu ofício de rotina, quando, sem perceber, deu de cara com o felino. 

"Ela ficou me encarando e eu gritei bastante. Eu fui me afastando até ela ter um 'descuido', me abaixei e peguei um pau para parecer mais alto que ela. Ai, eu saí caminhando e ela saiu caminhando atrás de mim, devagar. Esperei ela ir embora e corri para outro local onde estava meu irmão", diz.

A presença de animais silvestres nas redondezas das comunidades têm se tornado cada vez mais comum nos últimos anos. E isso ocorre justamente por conta do desequilíbrio climático. A escassez de água e comida nas florestas, faz com que os animais busquem suprimentos nesses locais.

Manoel Maia conta sobre incidentes com animais silvestres em Reserva Extrativista no Acre
Manoel Maia conta sobre incidentes com animais silvestres em Reserva Extrativista no Acre
Foto: Adrielle Farias/Terra

De acordo com Geovana Linhares de Oliveira, doutora em Zoologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA), a Amazônia tem passado por um processo de fragmentação de habitats, ocorrida principalmente por conta da perda de florestas por queimadas de grande porte e pelas atividades humanas como urbanização, mineração, pecuária e monoculturas.

"Esses fatores possuem ligação direta com a crise climática que estamos passando, uma vez que ambientes que anteriormente eram adequados para esses animais hoje não são mais acessíveis. Com essa perda de habitats cada vez mais as espécies procuram recursos que muitas das vezes estão próximas a comunidades, e isso faz com que haja o encontro de animais silvestres com as pessoas", pontua.

A Reserva Extrativista do Cazumbá-Iracema é uma unidade de conservação federal criada em 19 de setembro de 2002. Compreende uma área de 750.794 hectares, quase cinco vezes o tamanho do município de São Paulo. Ela é banhada pelas águas dos rios Caeté e Macauã, além de ter igarapés no entorno. A divisa é feita com os municípios de Sena Madureira e Manoel Urbano.

Idealizadas por Chico Mendes (1944-1988), as Reservas Extrativistas foram criadas para proteger as florestas e a biodiversidade, além de garantir o modo de vida e cultura das populações tradicionais sem agredir o meio ambiente. A Cazumbá é a segunda maior Resex do Acre e está entre as maiores do Brasil. 

Leite sai de árvore seringueira em Reserva Extrativista
Leite sai de árvore seringueira em Reserva Extrativista
Foto: Adrielle Farias/Terra

A experiência com animais silvestres deixou marcas na comunidade. Manoel relata que, oito anos atrás, viu um amigo morrer após ser picado por uma jararacuçu, uma cobra com veneno de ação rápida, que causa dor intensa, inchaço e até necrose dos tecidos.

Na época, o posto de saúde da comunidade não funcionava e, como estava no inverno amazônico, período em que as chuvas são mais intensas, não havia como se locomover de carro pela estrada. Era preciso, às vezes, ir andando até a cidade por mais de 10 horas para buscar um remédio. 

"Era meu vizinho próximo. Foi picado por uma cobra e não teve transporte. Não tinha ramal, não tinha nada. Ele não sobreviveu. Tentaram levar para a cidade mais próxima de barco, mas ele não aguentou, faleceu durante a viagem", afirma.

De acordo com Manoel, o morador não estava dentro da mata, mas, sim, próximo à sua casa brocando um roçadinho. "Ela veio por trás e mordeu a batata da perna dele", ressalta. 

Manoel acrescenta que ele mesmo também chegou a ser ferido por uma cobra. Assim como o seu amigo que morreu, ele estava no roçado quando foi atacado por uma jiboia. "Ela era muito grossa. Senti a porrada na minha perna. Foi uma mordida, até hoje tenho a cicatriz. Demorou bastante para sarar", diz. 

Apesar das jiboias não serem venenosas, a mordida pode ser dolorosa e, geralmente, ocorre quando a serpente se sente ameaçada. "Não foi grave, mas a gente sabe que, durante o verão amazônico, os bichos não conseguem arrumar água ou comida. Eles sempre procuram perto dos igarapés ou perto dos rios. No caso das onças, elas também procuram nos pastos para se alimentar de bois, de ovelhas", explica.

Unidade Básica de Saúde dentro da Reserva Cazumbá
Unidade Básica de Saúde dentro da Reserva Cazumbá
Foto: Adrielle Farias/Terra

Joelson Torquato, coordenador do Patrimônio e da Manutenção da Secretaria de Saúde do Município de Sena Madureira, declara que a Unidade Básica de Sáude (UBS) localizada dentro da Reserva Cazumbá está sendo estruturada para atender as pessoas da comunidade em situações como as de incidentes com animais. 

"A comunidade precisava ir à cidade, na urgência, mas agora terá na Resex. O deslocamento daqui para Sena Madureira leva cerca de 4 horas de barco. A UBS possui atendimento odontológico, clínico geral e até vacinação", afirma.

O posto de saúde conta com a ajuda de quatro funcionários fixos e de profissionais da saúde que realizam o deslocamento de Sena Madureira até a comunidade.

"No momento, há atendimentos marcados com médicos às quintas e sextas, mas a unidade fica aberta para a comunidade diariamente para medir a pressão, fazer teste de diabetes e outros serviços básicos", complementa.

Fonte: Portal Terra
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