'A floresta é minha vida': extrativistas driblam desequilíbrio ambiental para manter Amazônia de pé
Reserva Cazumbá tenta blindar devastação e tem 98% da floresta preservada
Para quem vê de fora, pode ser um pouco complicado entender a relação que os povos da Amazônia têm com a floresta. Isso porque não é algo palpável – e até difícil de descrever – mas completamente cheio de sentidos. Essas pessoas escolhem todos os dias preservar o território em que vivem e tirar para elas apenas o que é subsistência. Esse cuidado faz com que a Amazônia ainda tenha árvores em pé e com que os efeitos das mudanças climáticas não se agravem de maneira abrupta inclusive para aqueles que moram a quilomêtros de distância dali.
- Esta matéria especial foi produzida com o apoio da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) em parceria com o Instituto Talanoa
E foi justamente esse sentimento do inexplicável que moveu a minha viagem até Reserva Extrativista do Cazumbá-Iracema, no Acre. Queria olhar nos olhos e ouvir dos protagonistas desta história como eles ainda mantém a Amazônia de pé mesmo marginalizados da discussões oficiais sobre o futuro do planeta.
Para chegar até a Reserva, encarei 2h15 de viagem da capital Rio Branco até Sena Madureira em uma estrada de solo argiloso que sofre atoleiros frequentes. Foi necessário dormir na cidade do interior acreano para seguir viagem no dia seguinte, quando peguei mais 10 km de estrada cheio de solavancos por causa dos buracos até chegar ao município de Manoel Urbano.
No local, o barqueiro Jerivã me aguardava para me levar para o destino. O caminho até o porto improvisado era todo enlamaçado. Meus pés ficaram escondidos embaixo da lama, que atingiu a altura do meio das minha canelas.
Como a região Norte está no inverno amazônico, as chuvas têm sido intensas no Acre desde o mês de dezembro. O rio enche, transborda, e seca novamente. Esse movimento que antes era padronizado, por assim dizer, agora não tem mais data para acontecer.
Deixamos o local por volta das 6h e seguimos pelo Rio Caeté, cheio de curvas ao som dos pássaros e bichos da floresta. O caminho parecia cena de filme. Ora estreito, ora largo. Árvores por todos os lados. O som que ecoa da floresta se mistura com o barulho do motor ao mesmo tempo em que o sol ilumina as árvores como quem dá bom dia. Com esse cenário, fica muito difícil não romantizar a grandiosidade da maior floresta tropical do mundo e, ao mesmo tempo, se gabar do privilégio que é estar no meio dela às 6 horas da manhã de uma terça-feira qualquer.
Depois que o barco parou para abastecer duas vezes no ‘meio do nada’, chegamos à Resex Cazumbá por volta das 9 horas. Lá, fui recebida por seu Manoel Maia, meu guia. Ele me apresentou todo o núcleo da reserva, onde fica, inclusive, o escritório do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio), responsável por administrar o território.
Expedição Acre
A Reserva Extrativista do Cazumbá-Iracema é uma unidade de conservação federal criada em 19 de setembro de 2002. Compreende uma área de 750.794 hectares, ou seja, quase cinco vezes o tamanho do município de São Paulo. Ela é banhada pelas águas dos rios Caeté e Macauã, além de ter igarapés no entorno. A divisa é feita com os municípios de Sena Madureira e Manoel Urbano.
Idealizadas por Chico Mendes (1944-1988), as Reservas Extrativistas foram criadas para proteger as florestas e a biodiversidade, além de garantir o modo de vida e cultura das populações tradicionais sem agredir o meio ambiente. A Cazumbá é a segunda maior Resex do Acre e está entre as maiores do Brasil.
Cerca de 60 famílias vivem no núcleo da região, enquanto outras 500 pessoas estão espalhadas pelo restante do território. A unanimidade são os impactos do clima extremo: a seca demasiada, o rio intrafegável, a morte dos peixes e plantações que não vingam.
Os principais produtos extraídos da floresta são açaí, patauá, pupunha, buriti, castanha e o látex. A subsistência da população também tem como base a pesca, a caça e a criação de gado.
Enquanto converso com os moradores da comunidade, percebo que eles preferem ficar fora de suas casas. Questionei a alguns deles sobre o motivo e a resposta foi consensual: "Muito quente". As árvores que rodeiam a Resex são o refúgio de sombra e vento.
'Floresta é minha vida'
Manoel Cerqueira Maia, o meu guia, tem 52 anos e nasceu na Resex, onde vive até os dias de hoje com a família. Ele é casado e pai de três filhos. Todos os dias, nesta época de inverno amazônico, levanta cedo para colher castanhas, acompanhado de outros extrativistas da região. A parte da tarde é dedicada à roça ou aos trabalhos de pasto.
Já no verão amazônico, que vai de julho ao mês de novembro, o trabalho é dedicado ao corte da seringa, mas, de uns tempos pra cá, ele precisa se levantar cada vez mais cedo por conta do calor.
"Quando estou cortando seringa, eu saio de casa 1h da manhã. Volto por volta das 12h, tomo um banho, almoço e depois vou para a roça ou para a pastagem. No verão, a gente também planta feijão de praia, melancia, batata doce.. Com tudo eu mexo um pouco", conta.
Agora, precisa acordar de madrugada para cortar seringa por causa do tempo. "Está muito quente. Depois que o dia amanhece, se você for cortar a seringa já quando o sol está quente, ela não produz o leite. Nem sempre foi assim. Dos tempos desses para cá foi que a gente começou a notar que de dia ela dá pouco leite, mas com a frieza da noite o leite é melhor. De uns 15 anos pra cá já teve uma mudança grande."
A infância de seu Manoel foi boa, mas também muito dura. Desde cedo, ele aprendeu o ofício da seringa e das plantações com os pais. De acordo com o extrativista, a forma como a natureza tem se portado de uns anos pra cá está diferente.
"No tempo que era criança, esse rio aí tinha bastante peixe, a gente viajava inverno e verão nele. Hoje, não tem mais essa possibilidade. O rio chegava a dar 4 metros de 'fundura', agora dá 1 metro e meio. As fontes de água também mudaram. Se você sai pra cortar seringa, precisa levar sua própria água, porque na floresta não se encontra mais, as vertentes e os igarapés estão todos secos" -- Manoel Cerqueira Maia
Segundo o extrativista, até os bichos da floresta passam sede com a falta de fontes de água. O verão amazônico tem sido realmente a época mais difícil. Além dos horários alterados para poder cortar a seringa, o transporte fluvial também é prejudicado por causa do nível das águas.
"Os barcos ficam todos quietinhos. A gente vai para a cidade pelo ramal. De barco, ninguém viaja para canto nenhum no verão. Mas quando abre o ramal, é uma duas horas de carro, mas se for a pé, são cerca de 11 horas. Já fui várias vezes na pernada para a cidade. Tem que ir direto, sair de madrugada e aproveitar os dias mais frios pra ir. Só vamos quando é necessário mesmo", acrescenta.
Mesmo com as dificuldades, seu Manoel afirma que jamais deixaria de morar na Reserva Extrativista. Se ele passa dois dias sem andar na mata, fica estressado: "A floresta é minha vida, sabe? Eu estando na floresta, eu estou conversando com a natureza todo tempo. Antes de sair, eu rezo um pouco e parto para minha caminhada."
Extrativistas mantêm a floresta em pé
Figura carimbada na Resex Cazumbá, Aldecir Cerqueira Maia, seu Nenzinho, como é conhecido, é presidente da Associação de Moradores da Resex e irmão de seu Manoel. Ele relembra que foi alfabetizado bem tarde, por falta de oportunidades na região, mas que sempre lutou para que a Resex tivesse escolas para ensinar as crianças e os adolescentes que ali vivem.
"Engajei muito cedo no movimento social não por interesse, mas por necessidade. No dia 21 de janeiro de 1980 foi quando entrei no movimento social e estou até hoje. A gente aprende muito durante essa caminhada, se decepciona muito também, mas faz parte. É meu propósito e minha luta", diz ele, explicando que a criação da Resex anos depois foi uma luta árdua da comunidade para que não precisassem deixar seu local de origem.
Para ele, os extrativistas são os grandes responsáveis por manterem a floresta de pé naquela região. "Se não fosse pela nossa comunidade, não tínhamos mais essa floresta. Hoje, 98% da floresta Cazumbá é preservada. Não temos ganância em derrubar, quando alguém derruba floresta é por pura necessidade. O extrativista tem medo da derrubada, mas precisa viver e trabalhar para melhorar a vida dele e dos seus familiares. O extrativista é o puro protetor da natureza. Eu tiro o chapéu para o meu povo", destaca.
E seu Nenzinho tem razão. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e com o Instituto Socioambiental (ISA), a Reserva Extrativista do Cazumbá-Iracema tem 98,7% de floresta preservada. Apenas 1,2% é dedicado à agropecuária de subsistência, enquanto outros 0,1% se referem à água e ao ambiente marinho.
A área total desmatada por ano também surpreende. Em 2023, por exemplo, apenas 167 hectares foram derrubados. O maior pico foi em 2003, quase um ano após o território ter sido oficializado como reserva, com 1.713 hectares desmatados. Já em 2007, o local teve apenas 38 hectares de desmatamento.
Assim como o irmão, seu Nenzinho reconhece que de uns anos pra cá o clima está 'louco'. Já não se sabe mais o que acontecerá no inverno e no verão amazônico. Está tudo diferente e, com essas mudanças, a adaptação diária na comunidade se tornou uma obrigação.
"A cheia e a seca estão descontrolados. Por exemplo, a gente sabia o dia que ia começar a planta o roçado, isso era sagrado. Hoje não acontece mais. Em pleno verão, quando você dá fé, dá uma chuva que transborda o rio. Assim como no inverno o rio fica seco. Tem chuva e tem sol, mas completamente descontrolado. Hoje em dia também não tem mais friagem", exemplifica seu Nenzinho
O extrativista acrescenta que isso mexe muito com a rotina das pessoas. Ele revela que tem medo que possa faltar água na comunidade e que o desequilíbrio nas plantações também prejudique a disponibilidade de alimentos para a comunidade.
"Acho que nosso teto hoje está mais baixo, porque está muito mais quente. As pessoas aguentavam trabalhar ali até às 11 horas da manhã, mas agora não. O calor é muito forte. E aí tem mais o desequilíbrios nas plantações, não sabemos mais como plantar na época certa. É um desequilíbrio não só nas mudanças climáticas, mas no homem também. Tem frutas que davam numa época e agora não dão mais. Até o ouriço de castanha está menor. E com as vertentes no mato secando, tenho muito medo de que num futuro próximo a escassez de água seja mais forte, porque ela já existe", revela.
De acordo com o extrativista, a Terra está sendo descoberta e, por isso, está esquentando conforme os dias se passam. Para ele, é preciso reduzir a emissão de gases, tendo em vista que a floresta já não dá mais conta de absorver, bem como melhorar a fiscalização das florestas.
"Se não cuidarmos da Amazônia, ela vai virar uma savana. Fiscalizar uma floresta que já foi derrubada não serve de nada. Quando eu quero proteger, eu preciso garantir a qualidade de vida para essas populações que protegem essas florestas", diz.
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) informou que entre agosto de 2025 e janeiro de 2026 as áreas sob alerta de desmatamento na Amazônia Legal totalizaram 1.324 km², o que representa uma redução de 35% em comparação ao período anterior.
Os números são do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) do Inpe. O governo federal acrescentou que tem como meta eliminar o desmatamento no país até 2030. “Há uma expectativa de chegarmos, em 2026, à menor taxa de desmatamento da série histórica na Amazônia se continuarmos com esses esforços”, disse a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.
O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) também afirmaram que expandiram as operações de combate ao desmatamento com apoio do Inpe, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).
Os órgãos alegam que, em relação a 2022, o Ibama elevou o número de ações de fiscalização em 59%, e o ICMBio, em 24%. As áreas embargadas pelo Ibama cresceram 51%, enquanto aquelas fiscalizadas pelo ICMBio cresceram 44%, também em comparação ao mesmo ano.
Financiamento climático
A cobrança de seu Nenzinho dialoga diretamente com o financiamento climático. Afinal, quem tem acesso ao dinheiro destinado à proteção das florestas? As decisões tomadas durante a COP30 deixaram um sinal de esperança para os próximos anos.
Aprovado no dia 22 de novembro do ano passado, o Pacote de Belém fechou a COP30 no Brasil. O documento conta com 29 decisões aprovadas por consenso entre os 195 países presentes na conferência. Entre os compromissos estabelecidos no acordo está a triplicação dos valores destinados à adaptação climática até 2035.
Na prática, as partes firmaram um compromisso em escalar o financiamento ao menos em US$ 1,3 trilhão por ano até 2035, unindo fontes públicas e privadas. Apesar da promessa, não ficou definido de que forma esse financiamento deve ser distribuído ao longo dos próximos anos.
Durante a conferência em Belém, o governo brasileiro apresentou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), um fundo internacional com o objetivo de pagar aos países em desenvolvimento para que eles protejam e conservem suas florestas.
O Brasil foi o primeiro a investir no fundo, anunciado durante a Assembleia-Geral da ONU em Nova York antes da COP30. O País fez o aporte de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,3 bilhões). O governo federal confirmou que a Alemanha fará um aporte de 1 bilhão de euros (cerca de R$ 6,1 bilhões) no fundo, juntando-se às contribuições feitas pela Noruega (US$ 3 bilhões), Indonésia (US$ 1 bilhão) e França (US$ 500 milhões).
O fundo foi criado com a intenção de ser um incentivo financeiro climático para que países que abrigam florestas tropicais, como Brasil e Indonésia, trabalhem para a preservação dos seus biomas em troca de investimentos.
Ciro Brito, analista de políticas climáticas do Instituto Socioambiental, explica que a adaptação foi um tema que ganhou mais prioridade com a Conferência do Clima em Belém, mas, ao mesmo tempo, ela ficou mais cara. "O cenário é de que sempre a mitigação foi privilegiada e considerada prioritária, mas só que ela sozinha não dá conta porque principalmente nos países mais pobres, os eventos climáticos extremos têm se multiplicado e se fortalecido", afirma.
O especialista ressalta que a questão de como o recurso do financiamento climático chegará a quem realmente precisa é sempre uma questão a ser solucionada. De acordo com Brito, os recursos ficam em agências multilaterais, em grandes bancos, como o Banco Mundial, ou em grandes fundos, como o Fundo Verde para o Clima.
"Eles são muito burocráticos para serem acessados. Você precisa ter uma capacidade institucional e financeira muito forte para dar conta do compliance e de várias regras para poder apresentar o projeto, acessar a grana e depois executar e dar conta de prestar contas. Então tem uma dificuldade imensa das associações e organizações que estão no chão de conseguir acessar esses recursos."
No entanto, Brito acrescenta que, por causa dessa dificuldade, o aumento da discussão sobre a desburocratização desse recurso é uma agenda política que os movimentos estão colocando principalmente no Brasil.
"Aqui no Brasil, quando o TFFF tiver recurso suficiente para começar a rodar, aí você poderá ter 20% dos recursos dele destinados a essas comunidades. Até lá, os países vão precisar desenvolver seus próprios mecanismos para que esses recursos possam ser repassados para as comunidades", analisa.