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Após 40 anos, escolha de projeto para Parque do Bixiga ocorre sob crise ambiental no centro de São Paulo

Além de área de lazer, o Parque do Bixiga será uma infraestrutura ambiental e de saúde pública, com reintrodução de água, vegetação e solo permeável, para reduzir temperaturas locais e melhorar a qualidade do ar

25 fev 2026 - 11h30
(atualizado às 16h00)
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Depois de 40 anos de mobilização da comunidade do Bixiga, na região central de São Paulo, a Prefeitura lançou, no final de janeiro, um concurso público nacional para definir o projeto do futuro Parque Municipal do Bixiga. A área prevista — no entorno do Teatro Oficina, entre a rua Jaceguai e o vale que abriga o Córrego Bixiga, hoje canalizado e soterrado — ocupa pouco mais de um hectare, o equivalente a cerca de um campo e meio de futebol, em uma das regiões mais adensadas e disputadas da cidade.

O edital, realizado em parceria com o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IABsp), estabelece a renaturalização do Córrego, a preservação das nascentes, a ampliação de áreas verdes e a criação de espaços públicos de uso coletivo. O concurso terá duas fases, com premiação para os melhores projetos, e resultado final previsto para maio de 2026, quando será escolhido o desenho que orientará a implantação do parque.

O concurso ocorre um ano e meio depois da decisão da Câmara Municipal que, em julho de 2024, aprovou a criação do parque e destinou oficialmente o terreno ao planejamento urbano da cidade. O intervalo entre aquela votação e a chamada pública para a seleção de um projeto foi preenchido por intensa mobilização comunitária e vigilância pública para que a decisão não se diluísse na burocracia nem fosse absorvida por negociações historicamente favoráveis à verticalização.

A reabertura de um rio urbano é uma atitude ainda inédita em São Paulo por parte do poder público, mas já é uma realidade conhecida em outras grandes cidades do mundo. A capital coreana Seul, com a reabertura do rio Cheonggyecheon, e Madri, na Espanha, com o projeto Madrid Río, além de experiências em cidades como Lyon (França) e Zurique (Suíça), mostram que trazer rios à superfície em áreas centrais é um processo que envolve comprometimento e investimento público consistentes e uma revisão profunda das prioridades urbanas.

O que se inicia agora, no Bixiga, é a fase de tirar o parque do papel — e isso significa enfrentar, na prática, a pressão por adensamento construtivo, os interesses imobiliários consolidados e a lógica de transformação do solo urbano em ativo financeiro.

O novo parque em perspectiva histórica

O Parque do Bixiga novo parque não nasce de um projeto urbano no sentido convencional. O que hoje aparece como anúncio oficial — um edital, um cronograma, uma promessa de parque — é o reconhecimento tardio de uma disputa já colocada no solo da cidade.

A relevância e alcance deste parque ultrapassam a dimensão física do terreno e o desenho que virá a ter, destacando o fato de que ele só se tornou possível após décadas de resistência para afirmar a vocação desse território como espaço público, ambientalmente ativo e socialmente aberto.

Antes de ser parque, essa área urbana foi conflito. Antes de integrar a agenda institucional, foi uma recusa contínua da comunidade que ali vive e respira (formada por moradores, movimentos sociais e populares e pelo Teatro Oficina) à ideia de que aquele espaço deveria ser destinado à especulação imobiliária.

Essa disputa revela, de modo local e concentrado, como São Paulo vem sendo produzida. A cidade se torna cada vez mais quente e abafada — e isso não é apenas uma questão de temperatura, mas de qualidade de vida. O aquecimento é climático, mas também social: resulta de uma urbanização que impermeabiliza o solo, elimina áreas verdes e transforma o território em ativo financeiro.

Nos últimos anos, a capital paulista experimenta a proliferação acelerada de edifícios altos, muitos deles desocupados, sobretudo em áreas centrais. Uma das consequências concretas desse modelo é visível: a cidade tem hoje milhares de pessoas vivendo nas ruas, sem acesso à moradia, enquanto o estoque imobiliário cresce voltado à valorização patrimonial.

No bairro do Bixiga, essa lógica se expressa de forma particularmente aguda. Ali, a pressão para adensar ignora as necessidades da população de baixa renda e reforça um modelo excludente. O Parque do Bixiga representa uma recusa direta à lógica de que todo terreno central deve ser incorporado.

Clima e pertencimento

Os impactos ambientais do modelo que prevalece também são evidentes. A impermeabilização do solo e a supressão da vegetação contribuem para a formação de ilhas de calor, pioram a qualidade do ar e levam à redução extrema da umidade.

Em episódios recentes de calor extremo, a umidade relativa do ar em São Paulo, que costuma oscilar entre 60% e 80%, já caiu a níveis críticos próximos de 15%. Tais níveis são classificados pelo Instituto Nacional de Meteorologia como estado de alerta, com riscos significativos à saúde. Nessas condições, aumentam os problemas respiratórios e a desidratação, sobretudo entre grupos mais vulneráveis, como crianças e idosos.

Nesse aspecto, o Parque do Bixiga representa mais do que uma área de lazer. Ele se configura como infraestrutura ambiental e de saúde pública. Reintroduzir água, vegetação e solo permeável irá reduzir temperaturas locais, melhorar a qualidade do ar e criar condições mais habitáveis em uma cidade submetida a extremos climáticos cada vez mais frequentes.

Há, ainda, uma dimensão social inseparável da ambiental: o pertencimento. Espaços públicos produzem vínculo e cidadania cotidiana. Levar os filhos a um parque e sentir que aquele lugar é seu não é um detalhe subjetivo, mas parte constitutiva da relação das pessoas com a cidade. Em uma São Paulo refém da privatização do cotidiano, o direito ao espaço comum é fundamental.

Uma batalha após a outra

A luta pelo Parque do Bixiga é exemplar e se insere no campo da justiça social e ambiental. Mostra que o espaço público não é sobra do planejamento, mas direito urbano que precisa ser disputado.

No caso do Bixiga, essa disputa teve a participação decisiva do diretor e ator José Celso Martinez Correa e do Teatro Oficina, que somaram intervenção cultural a ações urbanas e políticas capazes de manter visível um conflito que o mercado e parte do poder público preferiam naturalizar. Sustentar essa disputa ao longo do tempo foi essencial para que a derrota não se impusesse.

O concurso público reconhece, ainda que tardiamente, que o conflito nesse território não poderia ser resolvido como mais um empreendimento nem como exercício técnico isolado. A iniciativa surge no momento em que há uma massa crítica favorável consolidada, formada por moradores, artistas, movimentos urbanos e apoiadores dispostos a colaborar. Existe, inclusive, um documento com diretrizes para o futuro da região e para o parque elaborado e amadurecido por toda a comunidade do Bixiga com a participação de arquitetos e urbanistas, entre os quais me incluo.

A aprovação e o concurso não encerram a batalha, mas inauguram uma nova etapa. Parques podem, paradoxalmente, se transformar em vetores de valorização imobiliária e exclusão se não forem acompanhados de políticas de permanência e proteção do entorno. O desafio, agora, passa a ser garantir que a conquista não seja capturada pela mesma lógica que ela enfrentou.

O Parque do Bixiga também abre uma possibilidade mais ampla de reflexão urbana. A pergunta que se impõe é simples e importante: por que não destamponar outros córregos? Esse deslocamento muda o debate do gerenciamento do dano para a reabertura das possibilidades.

A São Paulo do futuro, para ser uma cidade possível, precisará enfrentar a necessidade e o desafio de conviver com água, sombra, solo permeável e espaços públicos; de entender que parques e árvores não são adorno, mas condição de sobrevivência urbana e gerenciamento climático. E deve reconhecer, ainda, que conflitos como o do Bixiga não são exceções indesejáveis, e sim parte constitutiva da produção das cidades.

Este artigo foi escrito em colaboração com Mônica Tarantino, da equipe de editores do The Conversation Brasil.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Newton Massafumi Yamato é autor de projetos de arquitetura e urbanismo premiados e sócio da Gesto Arquitetura.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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