Pecuária e ambiente nem sempre estão em lados opostos: como o gado ajuda a proteger o Pantanal
Atualmente, cerca de 70% das fazendas do Pantanal praticam pecuária tradicional, de baixo impacto. Que, aliada à caça inexpressiva de animais nativos, tornou a região um refúgio de espécies ameaçadas
Entre os dias 23 e 29 de março de 2026, ocorreu em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, a Conferência das Partes da ONU focada em espécies migratórias. Diante da proximidade com o Pantanal, esse tem sido também um momento para se discutir a conservação e proteção do bioma. Afinal, incêndios, mudanças climáticas, projetos de infraestrutura e secas históricas têm sido consideradas ameaças para a conservação da região.
Recentemente, publicamos dois artigos científicos que apresentam uma ideia não tão convencional entre ambientalistas e acadêmicos: a pecuária tradicional da região deveria ser considerada um dos principais motores da conservação do Pantanal.
Uma história ligada ao gado
Diferente de muitos lugares conservados no mundo, o Pantanal é ocupado, em sua grande maioria, por fazendas de gado. Hoje, cerca de 90% da região pertence a fazendas de gado.
Essa ocupação se iniciou ainda no começo da colonização da América do Sul, e a primeira fazenda foi fundada em 1740. A partir daí, diversas fazendas foram surgindo e ocupando grande parte do Pantanal. A região Nhecolândia, por exemplo, é uma referência a um antigo proprietário pioneiro conhecido como Nheco (Joaquim Eugênio Gomes da Silva).
Em razão do isolamento natural da região em função das dificuldades logísticas, bem como do desinteresse de muitos governos, o Pantanal sempre ficou um pouco desconectado do resto do país- impedindo a intensificação do uso da paisagem.
Assim, grande parte da produção de gado na região foi se adaptando às dinâmicas naturais do bioma, de forma extensiva, usando majoritariamente os vastos campos nativos. Na prática, isso significou pouco desmatamento, além de uma cultura local bastante característica. Atualmente, cerca de 70% das fazendas ainda praticam pecuária tradicional, de baixo impacto.
Essa pecuária tradicional, aliada à caça inexpressiva de animais nativos que ainda persiste na na região, tornou o Pantanal um dos principais refúgios de espécies ameaçadas de extinção no continente.
Se, por um lado, mais de 90% do Pantanal é ocupado por fazendas, donas de cerca de quatro milhões de cabeças de gado, por outro a região também apresenta populações saudáveis de onças pintadas, ariranhas, araras azuis e muitas outras espécies que estão em perigo de extinção em outros lugares.
No entanto, esse equilíbrio entre pecuária tradicional e conservação da natureza está cada vez mais ameaçado. As mudanças hidrológicas e os incêndios catastróficos originados da mudança climática têm alterado as paisagens e a capacidade de suporte das pastagens.
Há uma tendência de aumento limitado no processo de substituição da vegetação nativa por pastagens cultivadas, dentro de parâmetros definidos pelas leis estaduais, os quais buscam mitigar os impactos dessa prática sobre a biodiversidade.
Como ajudar a manter o papel da pecuária tradicional na conservação do Pantanal?
Diversos programas hoje no Pantanal buscam apoiar a permanência e a valorização da pecuária tradicional extensiva na região. As novas leis dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul são consideradas bons exemplos de como Ciência e políticas públicas podem apontar para um cenário mais sustentável, e apoiar os atores locais.
Corredores ecológicos foram estabelecidos por lei, a partir de um estudo elaborado numa parceira entre a Embrapa Pantanal e a WWF-Brasil. Hoje, eles constituem a maior e mais ampla malha de corredores do país, garantindo conectividade em grande escala geográfica.
Outro programa interessante liderado pela Embrapa Pantanal é o sistema Fazenda Pantaneira Sustentável (FPS), oferece apoio, tecnologia e reconhecimento para a manutenção da pecuária tradicional. Instituições de classe e extensão rural (SENAR e FAMATO) no Mato Grosso e a Coalizão Pontes Pantaneiras (uma parceria entre Universidade Colegio de Londres / Anthropologia, IPE - Instituto de Pesquisas Ecologicas, Smithsonian Conservation Biology Institute, Embrapa Pantanal, e Pew Charitable Trust) no Mato Grosso do Sul têm buscado apoiar a expansão do FPS no Pantanal, melhorando os índices de sustentabilidade ambiental, econômica e socioculturall nas fazendas da região.
Vale o destacar o recente programa de pagamento por serviços ambientais lançado pelo governo do Mato Grosso do Sul, a partir do Fundo Clima Pantanal, que valoriza de forma indireta, o capital natural gerido pelos fazendeiros.
Muito desses programas, no entanto, ainda requerem uma ampliação na adesão. A atração de proprietários rurais para esses sistemas é fundamental para ganhar escala no uso sustentável do Pantanal.
Por muito tempo, pensou-se os mecanismos financeiros eram a única solução. Se fazendeiros receberem para proteger, eles apoiarão as iniciativas. No entanto, no caso do Pantanal, recentemente mostramos que o caminho para promover a conservação através da pecuária tradicional vai além da questão financeira. Há uma dimensão cultural e social que precisa ser levada em conta.
Através de uma avaliação utilizando diferentes disciplinas — como antropologia, sociologia e psicologia experimental —, mostramos que a maneira mais efetiva de trazer pecuaristas tradicionais para dentro desses programas é através do reconhecimento da sua importância na região.
Valorizar a tradição e o histórico dessa pecuária tão peculiar do Pantanal atrairia mais atores para programas de pecuária sustentável. Ou seja, precisamos ir além de simples incentivos financeiros e reconhecer aqueles que historicamente tem tido um papel fundamental na conservação do capital natural do Pantanal. A relevância dessa estratégia reside no fato que a conservação do Bioma não se apoia no estabelecimento de unidades de conservação como uma panaceia, mas sim no uso sustentável da vastidão natural não destinada à preservação.
A pecuária tradicional do Pantanal, com certeza, não é a única ferramenta de conservação da região. Comunidades ribeirinhas constituem um outro grupo social, muitas vezes esquecido e invisibilizado, que também desempenha um papel fundamental de conservação da região.
Finalmente, considerando que a conservação só é coerente e eficaz se abordada na escala geográfica ampla e sistêmica, valorizar e promover a pecuária tradicional extensiva é, com certeza, a maneira mais inteligente de conservar a maior planície de inundação contínua do mundo, esse lugar único chamado Pantanal.
Rafael Chiaravalloti recebeu apoio do Programa Ciência sem Fronteiras, financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Walfrido Moraes Tomas não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.