Por que o Paraná se tornou um ‘corredor de tornados’? Conheça os casos mais graves
Especialistas explicam que o fenômeno faz parte da história paranaense há séculos; o que mudou foi a capacidade tecnológica de registro
Embora o Paraná seja reconhecido como um gigante polo agrícola, para a meteorologia, o estado é um verdadeiro “corredor de tornados”. O título, que parece digno de filmes de Hollywood, não é exagero: segundo especialistas em clima ouvidos pelo Terra, o fenômeno faz parte da história da região há séculos.
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De acordo com o grupo de pesquisa da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), um dos primeiros relatos históricos com características de tornado aparece em uma carta do padre Anchieta, datada de 1560. Nela, o religioso descreve um evento atmosférico violento ocorrido na região de Piratininga, com danos severos à vegetação e às construções.
“[...] estando nós em Piratininga, começou, depois do pôr do sol, o ar a turvar-se de repente, a enublar-se o céu, a amiudarem-se os relampagos e trovões, levantando-se então o vento sul a envolver pouco a pouco a terra, até que, chegando ao Nordeste, de onde quasi sempre costuma vir a tempestade, caiu com tanta violência que parecia ameaçar-nos o Senhor com destruição: abalou as casas, arrebatou os telhados e derribou as matas; a árvores de colossal altura arrancou pelas raízes, partiu pelo meio outras menores, despedaçou outras, de tal maneira que ficaram obstruídas as estradas, e nenhuma passagem havia pelos bosques; era para admirar quantos estragos de árvores e casas produziu no espaço de meia hora (pois não durou mais do que isso), e, na verdade, se o Senhor não tivesse abreviado aquele tempo, nada poderia resistir a tamanha violência e tudo cairia por terra. O que, porém, no meio de tudo isso, se tornou mais digno de admiração, é que os Índios, que nessa ocasião se compraziam em bebidas e cantares (como costumam), não se aterraram com tanta confusão de cousas, nem deixaram de dansar e beber, como se tudo estivesse em completa traquilidade”, descreve Anchieta.
Apesar de registros históricos como esse, levantamentos sistemáticos só passaram a ser realizados pela Defesa Civil a partir das décadas de 1970 e 1980. Devido à lacuna de dados anteriores a esse período, os pesquisadores da área procuram usar o termo “registro” com cautela.
Em áreas rurais, por exemplo, em que a comunicação e o acesso aos serviços de emergência são mais limitados, muitos tornados provavelmente ocorreram sem serem documentados, o que compromete as estatísticas históricas e coloca uma “pulga” atrás da orelha dos especialistas.
O reconhecimento científico de que o Sul do Brasil é propenso a esses fenômenos ganhou força anos depois. Um marco foi o trabalho do escritor e fotojornalista Priit Vesilind, da revista National Geographic, que apresentou estudos de reanálise em escala global, apontando a América do Sul como uma das regiões favoráveis à ocorrência de tornados.
O que torna a região propícia a tornados?
“O estado do Paraná localiza-se em uma área propícia ao encontro de massas de ar frias e secas com massas de ar quentes e úmidas, configurando um ambiente favorável ao desenvolvimento de instabilidade atmosférica. Essa interação constitui o principal ‘combustível’ para a formação de nuvens convectivas profundas, como os cumulonimbus, que podem, em determinadas condições, evoluir para supercélulas convectivas”, explica a professora Karin Linete Hornes, do Departamento de Geociências da UEPG.
Segundo a especialista em tornados, essas supercélulas favorecem a ocorrência de fenômenos severos, como tornados, downbursts, vendavais e granizo de grande porte. Outro fator é a atuação dos Sistemas Convectivos de Mesoescala (SCM), geralmente formados na região do Paraguai e associados à passagem de frentes frias, jatos de baixos níveis e ciclones extratropicais.
“As regiões Oeste, Sudoeste e Noroeste do Paraná se destacam como as mais propícias à ocorrência de tempestades severas, o que está relacionado à atuação preferencial de frentes frias e à propagação de sistemas convectivos de mesoescala originados principalmente na região do Chaco Sul-Americano”, afirma Hornes.
Os casos mais graves de tornado do Brasil aconteceram no Paraná
O estado já registrou dezenas de episódios extremos. Um dos mais graves foi o "Tornado de Palmas", ocorrido em agosto de 1959, durante um surto do fenômeno. O evento atingiu a cidade e áreas próximas, deixando 90 mortos, 15 desaparecidos e mais de 300 feridos — sendo considerado o tornado mais mortal da história do Brasil.
“Relatos indicam que, por volta das 16h30, já era perceptível a aproximação da tempestade na Fazenda Fortaleza, localizada a aproximadamente 30km do centro de Palmas. O vento se intensificou, o céu escureceu rapidamente e ruídos intensos provenientes das nuvens indicavam a presença de uma tempestade severa”, narra a professora.
Segundo registros da época, a força dos ventos era tão intensa que teria sido capaz de erguer um trator a vapor de aproximadamente cinco toneladas e arremessar um jipe a cerca de 150 metros.
Outro episódio marcante foi o chamado "Ciclone da Morte", registrado em maio de 1938, em Curitiba. O termo foi adotado pela imprensa da época para descrever o fenômeno (hoje identificado como tornado), com cerca de 200 metros de largura, que deixou 16 mortos e mais de 50 feridos, sendo 12 crianças.
Relatos apontam um cenário de devastação, com ventos extremos, chuvas intensas e alagamentos. “Há relatos impressionantes de crianças arremessadas a grandes distâncias, incluindo uma criança encontrada a aproximadamente 500 metros do local de origem e outra, de 2 anos, encontrada no dia seguinte sobre uma árvore, molhada e em estado de hipotermia, o que evidencia a intensidade extrema do evento”, destaca Hornes.
Como a população é alertada?
De acordo com Karin Linete Hornes, ainda não é possível prever com precisão o local exato de formação ou dissipação de um tornado, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. O que se faz atualmente é o monitoramento de sistemas atmosféricos com potencial para tempo severo, por meio de imagens de satélite e dados de radares meteorológicos.
Com base nessas informações, além de parâmetros como velocidade e direção do vento, pressão atmosférica e índices de instabilidade, a Defesa Civil e serviços meteorológicos emitem alertas e orientações à população.
No Paraná, alunos do curso de Geografia e do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UEPG, onde Hornes é professora, vêm desenvolvendo um Observatório de Tornados. O objetivo é aprofundar o conhecimento sobre esses eventos, incluindo padrões de formação, trajetória, intensidade, áreas afetadas e impactos socioambientais.
“O objetivo do nosso grupo de pesquisa é justamente avançar nestes estudos para o Paraná”, declara.