Pesquisadores pedem que mudanças climáticas sejam declaradas 'emergência sanitária global'
Um relatório publicado nesta quarta-feira (28) na revista médica britânica The Lancet afirma que as mudanças climáticas devem ser declaradas uma "emergência sanitária global" para que se tornem uma prioridade dos governos, assim como as pandemias. Entre 2016 e 2023, o aquecimento global causou 3 milhões de mortes. Diante desse cenário, os cientistas defendem a adaptação dos sistemas de saúde e das economias às consequências do fenômeno.
Pesquisadores do Lancet Countdown pedem que a crise climática seja declarada emergência sanitária global, pois seus impactos superam as respostas dos governos. Entre 2016 e 2023, o calor causou quase 3 milhões de mortes, batendo recorde de 710 mil óbitos em 2023. Com perdas de US$ 1 trilhão ao ano na produtividade, o aquecimento pressiona os sistemas de saúde e atinge de forma desproporcional as nações mais vulneráveis, tornando urgente uma intervenção internacional coordenada.
A décima edição do relatório, publicada às vésperas da COP 31, a conferência climática da ONU que será realizada de 9 a 20 de novembro, em Antalya, na Turquia, reúne 146 pesquisadores de 30 países para avaliar os impactos das mudanças climáticas sobre a saúde da população mundial.
"Dez anos após o Acordo de Paris, nossas conclusões são inequívocas: os efeitos nocivos das mudanças climáticas sobre a saúde estão avançando mais rapidamente do que a resposta global a esses efeitos" e, inclusive, "acelerando", avaliou Marina Romanello, diretora executiva do projeto científico Lancet Countdown, ao apresentar o relatório à imprensa.
"É por isso que pedimos que as mudanças climáticas sejam reconhecidas como uma emergência sanitária global", acrescentou. Segundo ela, essa classificação poderia permitir a criação de um mecanismo de intervenção de emergência coordenado entre os Estados, a exemplo do que a Organização Mundial da Saúde (OMS) adota em casos de pandemia. O objetivo seria "não reagir a uma sucessão de emergências, mas implementar uma resposta coerente a longo prazo".
"Insegurança alimentar, poluição, recrudescimento de doenças: os efeitos relacionados ao clima (...) submetem os sistemas de saúde e os profissionais da área a uma pressão considerável", afirmou a ONU Clima em comunicado divulgado nesta quarta-feira. A organização ressaltou que "existem soluções" e classificou o relatório da Lancet como "de grande importância".
Mortes relacionadas ao calor
O Lancet Countdown revela que, entre a assinatura do Acordo de Paris, em 2016, e 2023, último ano com dados completos, as mudanças climáticas "causaram quase 3 milhões de mortes relacionadas ao calor" em todo o mundo.
Somente em 2023, um recorde de 710 mil mortes foi associado ao calor, número superior ao de óbitos causados pela malária ou pelo HIV. Desse total, mais de 67% das mortes são atribuíveis às mudanças climáticas provocadas pela atividade humana.
Para determinar a proporção de óbitos atribuíveis ao aquecimento causado pelas atividades humanas, os pesquisadores compilaram os dados sobre mortes relacionadas ao calor registrados nos países e subtraíram aquelas "que teriam ocorrido na ausência das mudanças climáticas". O cálculo se baseia em uma estimativa de cenário hipotético, explicou o professor Ollie Jay, da Universidade de Sydney.
"Períodos de calor intenso ocorrem naturalmente. No entanto, sua intensidade e frequência são amplificadas pelas mudanças climáticas de origem humana. É por isso que observamos um número de mortes maior do que teríamos" sem esse fenômeno, explicou.
Vale ressaltar que, no ano passado, um episódio de seca extrema afetou mais da metade das terras do planeta durante pelo menos um mês.
Trilhões de dólares em perdas econômicas
Ao reduzir a produtividade dos trabalhadores, o aquecimento global custou à economia mundial mais de US$ 1 trilhão por ano nos últimos três anos, segundo cálculos dos pesquisadores.
Em termos geográficos, o Sudeste Asiático e a África, as regiões mais duramente atingidas, teriam perdido o equivalente a 3,9% e 3,2% de seus respectivos produtos internos brutos (PIBs). Na Europa, a perda foi de 0,2%, enquanto no continente americano chegou a 1,5%.
Apesar dos impactos, o relatório aponta "progressos reais" em diferentes partes do mundo desde 2016. Cinquenta e seis dos 194 países-membros da OMS adaptaram seus sistemas de saúde. Além disso, sistemas de alerta permitem antecipar eventos extremos, e os investimentos em energias limpas atingiram US$ 2,1 trilhões em 2025, o dobro do montante destinado aos combustíveis fósseis.
Estes últimos, contudo, ainda respondem por 80% da energia mundial e provocam poluição atmosférica, responsável por 2,73 milhões de mortes por ano.
Segundo o relatório, cerca de 323 mil mortes foram evitadas em pelo menos 77 países onde a poluição atmosférica decorrente do uso de combustíveis fósseis diminuiu desde 2016. "Um ar mais puro, sistemas de saúde mais resilientes e mecanismos de alerta (...) salvam vidas ao redor do mundo", afirma o documento.
Financiamento
Embora o financiamento de pesquisas médicas relacionadas ao clima tenha aumentado sete vezes, alcançando US$ 316 milhões em 2024, 84% desses recursos foram destinados a pesquisadores de países ricos. As nações menos desenvolvidas, no entanto, estão entre as mais afetadas pela intensificação das ameaças à saúde relacionadas ao clima.
"Lentos demais, modestos demais", os esforços realizados "não beneficiam aqueles que mais precisam", afirmou Romanello.
Neste ano, "pela primeira vez", o trabalho dos pesquisadores foi dificultado pelo "desaparecimento de certas fontes de dados, provenientes, em particular, dos Estados Unidos". Entre as informações que deixaram de ser disponibilizadas estão dados sobre "subsídios aos combustíveis fósseis, que não foram tornados públicos pelas autoridades americanas", lamentou a pesquisadora.
Além disso, Romanello ressaltou que, nos últimos dois anos, "a instabilidade geopolítica mundial relegou a um segundo plano o aquecimento e seu impacto na saúde, ao passo que a inação corre o risco de exacerbar essa instabilidade".
Com AFP
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